Por Chris Giles — Financial Times, de Londres
18/04/2022 05h01 Atualizado há 5 horas
O duplo risco de desaceleração do crescimento e inflação alta, ou estagflação, afetará a economia global neste ano, num momento em que a guerra na Ucrânia reduz ainda mais o ritmo da recuperação dos efeitos pandemia de covid-19, segundo o ”Financial Times”.
Crescentes pressões sobre preços, desaceleração da expansão da produção e do grau de confiança representarão um obstáculo para a maioria dos países, segundo o índice de rastreamento Bookings-FT (que acompanha periodicamente a evolução de um mesmo grupo).
Em decorrência disso, restará aos governos enfrentar “dilemas desagradáveis”, segundo Eswar Prasad, pesquisador da Brookings Institution.
Prevê-se que o Fundo Monetário Internacional (FMI) rebaixará suas previsões de crescimento para a maioria dos países, quando os ministros e presidentes dos bancos centrais se reunirem nesta semana no encontro conjunto em Washington a fim de discutir como reagir à deterioração das perspectivas econômicas.
As autoridades terão de definir como enfrentar a inflação acelerada e os risco de elevar as taxas de juros, num momento em que os níveis de endividamento já estão elevados.
Kristalina Georgieva, a diretora-gerente do FMI, definiu na quinta-feira a invasão da Ucrânia pela Rússia de “um enorme revés” para a economia global.
Prasad disse que há o risco de 2022 se tornar “um período tenso de realinhamentos geopolíticos, persistentes desestruturações da cadeia de suprimentos e volatilidade do mercado financeiro, tudo isso em um pano de fundo de crescentes pressões inflacionárias e de espaço de manobra limitado para a política pública”.
O Índice de Rastreamento Brookings-FT de Recuperação Econômica Global compara indicadores de atividade, mercados financeiros e grau de confiança reais com suas médias históricas, tanto para a economia global quanto para países individuais, captando em que medida os dados do período atual estão piores ou melhores que o normal.
Na série, apurada duas vezes por ano, o índice mostra perda de impulso de crescimento desde o fim de 2021, tanto em economias avançadas quanto em emergentes, com os níveis de confiança tendo também caído a partir de seus picos e uma queda no desempenho do mercado financeiro mais recentemente.
Os três grandes blocos econômicos mundiais enfrentam dificuldades consideráveis, segundo Prasad. Enquanto nos EUA os gastos continuam sólidos e o mercado de trabalho voltou às condições pré-pandemia, a inflação representa uma grande dificuldades para o Federal Reserve (Fed, o BC americano) preservar a estabilidade dos preços. A inflação anual disparou em março para 8,5%, maior alta em 40 anos.
“O Fed corre o risco real de perder o controle da inflação e poderá ser obrigado a subir o juro de forma mais agressiva do que sinalizado, o que elevará o risco de uma forte desaceleração do crescimento em 2023”, disse Prasad.
Os problemas da China provêm de seu desejo de permanecer fiel à sua estratégia de “covid-zero”, principalmente após a disparada de casos da variante ômicron, mais infecciosa. Os lockdowns, como as restrições rígidas adotadas em Xangai, ameaçam os gastos do consumidor, os investimentos e a produção, enquanto o potencial de Pequim voltar a afrouxar sua política monetária amplifica os riscos de longo prazo à estabilidade financeira.
A China divulga nesta madrugada o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre deste ano. Analistas acreditam que os dados do PIB mostrarão que Pequim enfrentará um duro desafio para cumprir sua meta de crescimento de cerca de 5,5% no decorrer deste ano.
Com relação à Europa, o continente mais exposto ao conflito na Ucrânia e onde são maiores as dificuldades para reduzir a dependência das importações de produtos energéticos russos, os níveis de confiança têm caído significativamente.
Na avaliação de Prasad, soluções de política pública para incentivar a retomada da economia se mostram cada vez mais complexas, e a disposição para agir parece estar em falta.
“Manter a economia global em uma trajetória de crescimento razoável exigirá ações orquestradas para corrigir os problemas mais enraizados”, disse ele. “Entre elas estão medidas para limitar desestruturações induzidas pela pandemia, iniciativas para diminuir significativamente as tensões geopolíticas, além de atos direcionados, como gastos em infraestrutura, voltados para impulsionar a produtividade de longo prazo em vez de se limitar a fortalecer a demanda de curto prazo”, afirma.
Fonte: Valor Econômico
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