Por Eduardo Magossi — De São Paulo
16/11/2022 05h01 Atualizado
O Brasil tem se beneficiado de dólar forte e preços de commodities ainda elevados em um cenário de desaceleração econômica global e deve continuar atraindo o interesse de investidores globais. A avaliação é do economista-chefe do banco suíço UBS, Paul Donovan. Em entrevista ao Valor, durante uma rápida passagem por São Paulo, o executivo fez um alerta: em um ambiente de juros elevados, o espaço para aplicação de políticas não ortodoxas é limitado e o mercado vai punir experimentos econômicos incomuns.
O economista também diz que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e o Banco Central Europeu (BCE) estão sendo muito agressivos em seu aperto monetário e podem criar danos desnecessários à economia, principalmente na Europa, onde as incertezas são maiores. “Como colocar Vladimir Putin [presidente da Rússia] em um modelo matemático?”, questiona. Leia os principais trechos da entrevista:
Valor: O Brasil está preparado para atravessar um período de desaceleração global e forte aperto monetário?
Paul Donovan: O Brasil tem vantagens nesse ambiente de desaceleração econômica global, como o dólar forte e os preços de commodities ainda elevados. O maior impacto da esfriada da economia foi na queda na demanda de bens duráveis, produzidos principalmente na China e em outros países da Ásia. Os exportadores asiáticos vão sofrer mais. O Brasil segue em um caminho de redução da inflação, tem uma posição forte globalmente e deve continuar sendo interessante para os investidores se mantiver um ambiente político estável e sem a prática de políticas não ortodoxas.
Valor: Como assim?
Donovan: Em um ambiente de juros elevados globalmente, o espaço para políticas incomuns, experimentos não ortodoxos, é bem limitado, como descobriu recentemente o governo britânico da ex-ministra Liz Truss. O Reino Unido não estava buscando inventar uma teoria monetária moderna mas chegou mais perto disso do que qualquer outra grande economia desenvolvida. E, em questão de dias, o mercado puniu esse experimento.
A Europa ainda não está em recessão, mas deve enfrentar dois ou três trimestres de contração em 2023
Valor: O que seria, na sua avaliação, uma política não ortodoxa?
Donovan: É aquela ancorada na “promessa” em vez de na “experiência”. Veja, o problema do Reino Unido foi o seguinte: a política fiscal da gestão Truss não era muito diferente do que está sendo aplicado na Alemanha. Mas ao contrário do que acontece na Alemanha, Truss acenou dizendo que certas medidas que 50 anos de evidências mostram que não funcionam iam funcionar milagrosamente. E que milagrosamente o Reino Unido ia crescer 2,5%. E ninguém acreditou naquilo. E provocou toda a crise no mercado de fundos de pensão. No caso brasileiro, se políticas fiscais forem expressas de forma sensata e objetiva, os investidores internacionais continuarão aparecendo por aqui.
Valor: O Banco da Inglaterra foi um dos primeiros a elevar os juros pós-pandemia. A taxa básica já está em 3%. O senhor acredita que ela subirá muito mais?
Donovan: É improvável. Os membros do comitê já se mostraram divididos na última decisão de alta (de 0,75 ponto percentual). O mais importante da última decisão foi a ida de [Andrew] Bailey a entrevistas de TV, o que é extremamente incomum, e dizer que o mercado de títulos está precificando taxas muito mais altas do que o BoE [Banco da Inglaterra] acredita ser necessário. Isso nunca aconteceu antes. Com seu alerta, os rendimentos dos gilts tiveram uma boa correção. Acredito que o banco central deverá elevar os juros nas próximas duas ou três reuniões, em um ritmo menor de 0,25 ou 0,50 ponto, dependendo de como será a política fiscal britânica e chegar aos 4,5%, que é um nível consistente com a economia desacelerando e a inflação com sinais de retração.
Valor: O sr. acha que o BCE está sendo muito agressivo no aperto monetário?
Donovan: Sim, demais. Não tem essa necessidade, principalmente porque não sabemos o que vai acontecer neste inverno, se haverá interrupção de eletricidade, de gás, que deverá produzir um impacto negativo na economia. O BCE poderia elevar os juros a um ritmo menor para poder analisar com mais calma o impacto desses fatores na produção industrial, por exemplo, principalmente diante da incerteza de como a Europa vai estar em seis meses. Como colocar Vladimir Putin em um modelo matemático? A Europa ainda não está em recessão, mas deve enfrentar dois ou três trimestres de contração em 2023, o que é preocupante se os juros continuarem subindo. Projeto uma taxa final de 2,5% a 3%.
Valor: Os dados mostram contração de uma série de indicadores europeus…
Donovan: Existe um problema global que é mais acentuado na Europa que é a inexatidão dos dados econômicos. Eles sempre são revisados. Se você olhar o histórico dos dados da Alemanha, verá que eles são revisados em 70% ou 80% das vezes. E o problema é que o dado atual vem muito fraco e é revisado para cima nos meses seguintes, o que distorce o cenário. Veja o indicador de criação de vagas dos EUA, conhecido como Jolts, por exemplo. Lá o problema ainda é mais sério. Ele mostra um cenário ainda de mercado de trabalho aquecido. Mas houve uma mudança drástica na estrutura de como ele é calculado. O Jolts mede apenas as vagas que são preenchidas externamente. Antes da pandemia, ele media apenas 55% de abertura de vagas. Isso porque, se uma empresa tivesse uma vaga que era preenchida internamente, ela não era informada. O que aconteceu na pandemia é que muita gente foi demitida e as aberturas de vagas tiveram que ser prioritariamente externas, o que deixou os dados automaticamente mais fortes. Além disso, antes da pandemia, a pesquisa Jolts tinha 70% de respondentes e hoje é de 32%, menos de um terço das empresas, o que é terrível em um cenário de grandes mudanças estruturais no mercado de trabalho.
Valor: Então o mercado de trabalho americano não está aquecido? O Fed poderia começar a reduzir o ritmo das altas?
Donovan: Não está, os salários reais estão registrando perdas e o trabalhador perdeu seu poder de barganha. Isso não acontece em um mercado de trabalho aquecido. Jeremy Powell [o presidente do Fed] está muito agressivo: sobe, sobe, sobe. E ele nem é economista como [Janet] Yellen, [Ben] Bernanke e [Allan] Greenspan e também não tem a mesma autoridade que eles, mas o mercado ouve o Powell com muita atenção. Além disso, tem a questão da velocidade com que os preços de serviços vão cair. Os preços dos bens duráveis foram de seu maior nível – registrado em junho de 2021 – para seu menor nível, em setembro de 2022, muito rapidamente. Muitos membros do Fed temem que essa queda rápida também nos preços de serviços se transforme em deflação. Powell não parece preocupado, mas deveria estar. Acredito que Powell poderá começar a reduzir os juros em 2023, mas deverá levar os Fed funds para um nível de 4,5% a 5%, além do necessário. Historicamente, o Fed corta os juros nove meses após a última alta. Acho que ele vai respeitar esse intervalo.
Fonte: Valor Econômico
