Por Luísa Laval
São Paulo, 19/07/2022 – Uma das maiores farmacêuticas do mundo, a francesa Sanofi (dona de medicamentos como Dorflex, Novalgina e Allegra) aposta que o Brasil será um de seus mercados com maior crescimento nos próximos anos. Segundo Fernando Sampaio, diretor geral da Sanofi no Brasil, hoje o País possui uma das dez maiores filiais do grupo, mas que no futuro pode se tornar uma das cinco principais.
“Olhamos para frente e vemos que o Brasil é o lugar para estar muito bem posicionado”, diz em entrevista ao Broadcast.
Fernando Sampaio, diretor geral da Sanofi no Brasil. Foto: Divulgação/Sanofi
Segundo o IQVIA, que acompanha o varejo farmacêutico no Brasil, a Medley, marca de genéricos da Sanofi, ocupava até maio a terceira posição em faturamento de 2022 no mercado total de genéricos.
Esse tipo de medicamento representa mais de 80% do faturamento da Medley e seguirá como o principal foco de crescimento e desenvolvimento da companhia. Neste ano, a empresa planeja lançar cinco moléculas novas na linha de genéricos.
Em março, a companhia concluiu a venda de 12 marcas de seu portfólio para a Hypera, por US$ 190 milhões, incluindo o analgésico AAS e o antisséptico Cepacol. Sampaio afirma que esses produtos estavam fora do “core” (negócio principal) e por isso encontraram uma oportunidade para a área.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Como a alta da inflação impacta o negócio no País?
A inflação preocupa muito e o impacto é importante. O preço do medicamento no Brasil é controlado, com um sistema anual de correção que leva em consideração a inflação e outros fatores. É possível que em alguns momentos o preço do medicamento alcance o nível da inflação na sua correção, mas não é muito comum: geralmente fica abaixo.
Temos também a somatória da disrupção que a pandemia gerou no mundo e essa guerra lamentável na Europa (entre Ucrânia e Rússia), o que acaba por contribuir para esse processo de inflação e ruptura em algumas áreas.
Por outro lado, nesse último ano, tivemos um fenômeno importante, que é a valorização do real, o que traz um impacto positivo: não compensa essa inflação brutal, mas traz um impacto positivo especialmente para os produtos importados, principalmente suprimentos. O ponto é que não sabemos a sustentabilidade dessa valorização da moeda local. Estamos em um ano eleitoral, sabemos que pode haver turbulência, e isso pode se refletir em algum momento.
A empresa sofreu com falta de insumos para fabricação de remédios?
A Sanofi tentou se preparar nos últimos anos. Temos o segundo maior parque industrial do grupo no mundo, e fora da Europa somos o maior. Além disso, temos um dos maiores centros de distribuição do grupo no mundo, com 36 mil m², o equivalente a cinco campos de futebol. Isso nos ajudou muito nesse processo de trabalhar arduamente com plantas grandes locais, menos dependente do exterior, e com grande capacidade de armazenamento.
Isso fez com que transitássemos este ano cheio de rupturas, em que empresas se queixaram de falta de embalagens, princípios ativos, componentes das fórmulas ou uma peça de máquina. Tivemos rupturas? Tivemos, mas nada capital como aconteceu para algumas outras empresas. Acabamos sendo privilegiados por essa realidade de uma presença nacional tão forte.
Com a atual situação econômica do Brasil, ainda há espaço para o mercado farmacêutico crescer?
O Brasil não vai perder relevância: existe uma carência muito grande (de acesso à saúde e a medicamentos), enquanto a parte privada do negócio de saúde é muito grande. Temos uma dinâmica que permite um crescimento da população que vai entrando na faixa de consumo, e mais soluções, melhores preços e mais competição dentro do mercado, o que acaba trazendo benefício e crescimento.
Quando olhamos para a Europa, a dinâmica é diferente. Presidi a empresa lá (em Portugal) e pude ver a presença do Estado na saúde e o quanto o Estado paga dessa conta. O custo geral é mais estanque e a dinâmica não cresce tanto. Por outro lado, ainda temos oportunidade de melhorar o acesso no Brasil. Somando as duas pontas, o crescimento do mercado privado e as oportunidades que o governo tem de continuar gerando mais acesso, olhamos para frente e vemos que o Brasil é o lugar para estar muito bem posicionado.
Como a Sanofi pretende crescer no Brasil?
O grupo tem investido em alta tecnologia porque entende que somente através dela conseguiremos atender necessidades que até hoje não eram atendidas.
Vejo a Sanofi exatamente nesta posição: cobrindo todo o ciclo do medicamento (da pesquisa e fabricação à distribuição), desde o autocuidado até o genérico, atuando forte no mercado privado e no mercado público, dentro de hospitais, UTIs, em enfermidades raras, em alta tecnologia em câncer e em imunologia, mas ao mesmo tempo trabalhando prevenção, como vacinas.
Se hoje estamos entre as dez principais filiais, eu creio que no futuro a Sanofi Brasil pode estar entre as cinco mais importantes filiais do grupo no mundo. O País e o nosso portfólio juntos mostram esse potencial.
Por que a empresa vendeu parte do portfólio para a Hypera? Como foram empregados os recursos com a operação?
Temos centenas de marcas, e nos deparamos com uma parte do portfólio cuja dinâmica já não se encaixava tanto com nosso core, então nos vimos em uma condição de vender essas moléculas. Mas ainda é uma parte pequena do todo e é algo pontual, mas óbvio que estamos abertos sempre para negociações que promovam ganhos dos dois lados. Encaixava bem para o portfólio da Hypera, e para nós essas moléculas estavam um pouco fora do nosso foco principal, então fizemos a venda.
Nosso objetivo é inovação. Os recursos que temos aqui ou fora imediatamente podem ser muito bem utilizados alimentando essa máquina de inovação global, que vai trazer a inovação para o Brasil. A filial brasileira tem um enorme núcleo de pesquisa e clínica local, e os principais estudos do grupo são apoiados e conduzidos dentro do Brasil também. Essa é uma fonte de consumo do recurso.
Haverá novas transações entre farmacêuticas, como aquisições?
A nossa venda de ativos para a Hypera mostra isso. Essa dinâmica das últimas semanas, sobre quem vai incorporar a Hypera (segundo informações do jornal Valor Econômico) é uma outra prova disso. Ou seja, grandes empresas e de alta qualidade, bem posicionadas, acreditam no futuro do Brasil, e a motivação desses movimentos é acreditar realmente que o Brasil tem essas características e pode ir muito mais longe. Eu quero estar aqui, e quero estar muito bem posicionado.
Contato: luisa.laval@estadao.com
Fonte: Broadcast