Gigantes do setor farmacêutico ouvidas pela coluna avaliam que a minuta da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), divulgada na última sexta-feira (19), cria uma zona cinzenta no mercado em expansão das canetas emagrecedoras. A preocupação, segundo essas companhias, está em grande parte na fiscalização às farmácias de manipulação.
Para executivos das empresas, que pedem anonimato, a norma não define, na prática, quem vai garantir o cumprimento de novas exigências que, em teoria, vão endurecer o setor que sofre invasão de produtos irregulares. E nem como os resultados dos testes a serem realizados serão verificados e tornados públicos.

A instrução normativa da Anvisa estabelece procedimentos e requisitos técnicos para importação, qualificação de fornecedores, controle de qualidade, estabilidade, armazenamento e transporte de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) usados na manipulação de agonistas do receptor GLP-1 e co-agonistas GLP-1/GIP. São esses os princípios ativos presentes nas chamadas canetas emagrecedoras.
Para representantes da indústria, o sucesso das canetas fez com que a demanda superasse a oferta, abrindo espaço para a entrada de versões manipuladas em farmácias e produtos contrabandeados.
As empresas viram as farmácias de manipulação ocuparem parte desta lacuna mercadológica. Atendem casos específicos e individuais, quando o paciente pode apresentar restrições à fórmula vendida pelo medicamento industrializado. Mas a manipulação, segundo as companhias do setor, tem se tornado comum e sem fiscalização da Anvisa.
Elas apontam que a exigência da agência de tornar os testes mais rigorosos é um avanço, mas afirmam que a minuta não especifica quem avalia se o insumo utilizado pelas farmácias de manipulação está adequado, quais os parâmetros e o nível de transparência. Isso colocaria em dúvida a efetividade da fiscalização, dizem as indústrias.
A tirzepatida, componente ativo de uma das canetas emagrecedoras, pode ser manipulado, em caráter excepcional e com justificativa técnica.
O pedido é que os testes tenham publicidade no portal da Anvisa. Assim, seria possível identificar quem cumpre os padrões exigidos.
As canetas emagrecedoras movimentaram cerca de R$ 10 bilhões no Brasil em 2025. Isso corresponde a aproximadamente 4% do mercado de varejo farmacêutico. Estimativas do mercado são de que o número pode dobrar em 2026. O vencimento da patente da semaglutida, que imita o GLP-1, no mês passado, pode impulsionar a fabricação de genéricos com preços até 50% menores.
O número não leva em conta o mercado ilegal, que também está em expansão. Canetas contrabandeadas podem ser encontradas em plataformas de ecommerce. O CEO da Abrafarma (Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias) afirma que quase R$ 70 milhões do medicamento foram roubados no ano passado.
Fonte: Folha de S.Paulo