Despesa financeira atingiu R$ 306 bilhões em 2023, e caixa investido somou R$ 298 bilhões; atraso em meta fiscal piora quadro
As companhias brasileiras gastaram mais com despesas financeiras, compostas principalmente pelo pagamento de juros, do que com as suas atividades de investimento em 2023, mostra levantamento realizado a pedido do Valor com todas as empresas de capital aberto do país.
Foram R$ 306,8 bilhões com essas despesas no ano passado, alta de 8,2% frente a 2022, e ao mesmo tempo, o caixa das atividades de investimento alcançou R$ 298,7 bilhões, praticamente estável no mesmo intervalo analisado.
Apesar da piora do ambiente econômico e da escalada da taxa básica de juros (Selic) após 2021, não se viu esse mesmo cenário em 2022. Naquele ano, os investimentos somaram R$ 299,2 bilhões, valor acima dos gastos com juros e encargos, em R$ 283,6 bilhões.
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Os dados de balanços de 386 empresas abertas não financeiras foram coletados pelo professor e consultor André Freitas de Moura, da FGV/EAESP, com PhD em contabilidade e finanças na Universidade de Birmingham, na Inglaterra.
Embora o movimento de recuo da Selic pelo Banco Central, após 2023, possa atenuar esse impacto neste ano, com a decisão do governo de adiar a meta fiscal, há consenso no mercado de um ritmo mais lento de queda dos juros. Deterioração do cenário global pela piora do ambiente geopolítico em 2024 também pesa na balança.
Isso afeta diretamente planos de investimento pela necessidade de as empresas protegerem seu caixa. “A mesma história que vimos em 2022 e 2023, tem cara que se repetirá em 2024, com a pressão de juros ainda relevante e ‘spread’ bancário resistindo a ceder”, disse Pedro Magalhães, que por mais de duas décadas esteve na diretoria financeira de grandes grupos.
Segundo ele, cerca de 70% do custo dos bancos, numa operação de dívida junto às pequenas e médias empresas, é “spread”, e esse índice não vem caindo. “É algo que afeta custo de capital, e portanto, investimentos”, diz. Houve aumento de 0,5 ponto na taxa do spread para empresas em 2024 (para 9,2% ao ano), informa o BC. Em 2023, subiu 0,2 ponto.
O “spread” é a diferença entre taxas cobradas pelos bancos e as que eles pagam para captar recursos.
O recuo mais paulatino nas taxas pode atrasar uma queda mais forte das despesas das companhias com dívidas atreladas à Selic – bancos estimam que o estoque da dívida corporativa no país gira em torno de R$ 600 bilhões de empresas abertas e fechadas.
Especialistas lembram que os movimentos de investimento variam segundo o setor – empresas de consumo seguram gastos, mas de áreas como telefonia e papel têm anunciado desembolsos maiores. Mas isso ocorria antes de o risco fiscal subir dias atrás.
“Já podemos ver empresas que planejavam gastos maiores falando em refazer a rota, e uma chiadeira maior de empresários em jantares e conversas privadas desde a semana passada. Dívida pública maior só gera inflação e afeta confiança”, disse um empresário do setor bens de capital, nesse mercado desde 1972.
O levantamento de Moura ainda mostra que piorou o indicador que mede a relação entre despesas e caixa aplicado em investimentos.
Esse índice atingiu 0,84 em 2023 frente a 0,80 em 2022. Equivale a dizer que, enquanto a empresa colocou R$ 100 em investimentos, os gastos em juros para financiar o crescimento passou de R$ 80 para R$ 84.
O índice geral foi calculado dentro de uma mediada dos indicadores de cada empresa, de forma a eliminar valores extremos e distorções.
O estudo não considera instituições financeiras e inclui Petrobras e Vale, mas ao se desconsiderar as duas empresas, foram R$ 272,3 bilhões em despesas financeiras em 2023 – superior aos R$ 227,8 bilhões em investimentos.
Na avaliação de Eliseu Martins, professor titular e emérito da FEA/USP, e membro convidado do Comitê de Procedimentos Contábeis (CPC), as despesas foram pressionadas pela escalada dos juros, e só não cresceram mais porque, para escapar da alta, as empresas reorganizaram as dívidas, buscando financiamentos atrelados a taxas pré-fixadas, e até a índices como inflação.
“Quando a Selic estava a 2% ao ano em 2020, os grupos cientes de que isso não se sustentaria trataram de fugir da Selic”, disse Martins.
“Mas tem muito empréstimo ainda em moeda estrangeira, e que agora, com o dólar em alta, isso volta a preocupar caso câmbio se mantenha pressionado pelo cenário de incerteza global”.
O impacto de dólar para as empresas é contábil, e não caixa, e sentido por empresas sem hedge cambial. A divisa acumula valorização de 3,67% em abril e de 7,13% em 2024.
Embora a Selic tenha caído após agosto de 2023, as companhias “carregaram” no balanço o pico da taxa, em 13,75%, em 2022 e boa parte do ano passado.
O efeito positivo do recuo dos juros veio mesmo após o quarto trimestre de 2023. Hoje, a Selic está em 10,75% ao ano.
Pelos dados coletados, Moura verificou que o peso dos investimentos na receita total dos grupos entre 2022 e 2023 caiu, mas a participação das despesas na receita manteve-se estável.
“As companhias abertas gastaram soma maior com juros do que com investimentos em 2023, e foi algo causado mais pelo recuo no investimento do que por uma alta nos desembolsos com juros e encargos, que já estava elevado”, afirmou Moura.
Nas despesas estão juros, impostos e gastos na contratação de linhas. Os investimentos incluem pagamento de aquisições, aplicações financeiras, recursos de venda de negócios, entre outros.
Outro levantamento, realizado pela equipe do Valor Data com as empresas abertas, mostra o efeito da alta das despesas financeiras líquidas no resultado final das companhias.
Pelos números, que excluem Petrobras, Vale e companhias em recuperação judicial, essas despesas subiram 25% no ano passado, e ao mesmo tempo, o lucro líquido caiu 12% – passou de R$ 213 bilhões para R$ 186 bilhões.
Houve recuo no resultado final mesmo com as despesas operacionais (que também afetam lucro) subindo pouco, cerca de 5%, perto da inflação do período. Foi apenas no quarto trimestre que o gasto com juros deu trégua, com queda sobre o ano anterior.
As expectativas dos analistas de bancos é que a hipótese de um recuo mais lento da Selic, e a valorização do dólar frente ao real volte para a discussão nas teleconferências dos resultados do primeiro trimestre das empresas, que começaram na semana passada.
É uma forma de medir a temperatura dos grupos em relação aos dois temas, e a questão já foi levantada na primeira publicação de resultados das empresas abertas, da fabricante de máquinas Romi, na quinta-feira (18).
Perguntado sobre a mudança no cenário de juros e dólar após o adiamento na meta fiscal, o diretor-presidente da companhia, Luiz Cassiano Rosolen, afirmou que a alta da Selic teria impacto direto no humor de seus clientes.
O executivo ainda disse que, num cenário de investimentos contraídos no setor, o seu negócio de aluguel de máquinas cresce – operação foi lançada após a crise da pandemia, em 2020. “Quando o cliente não está confortável em fazer um investimento na compra de máquinas, tem a opção do aluguel”, disse. Os pedidos de locação de máquinas subiram 129% de janeiro a março, frente a 2023. No ano passado, a alta foi de 34%.
Dá para esperar que esse debate ganhe corpo maior, entre os analistas e as companhias, nos segmentos mais dependentes de créditos, e sensíveis às variações no ambiente de confiança – como indústrias de consumo e as varejistas de eletrônicos e de tecnologia.
Fonte: Valor Econômico
