Esse tipo de captação financeira pode ajudar empresas a avançar na agenda ESG e ainda contribuir com um impacto positivo para a sociedade
Por Naiara Bertão — Para o Prática ESG, de São Paulo
15/02/2023 05h02 Atualizado há 17 horas
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Uma estratégia que empresas têm encontrado para avançar em temas ESG – e mostrar para todos esse comprometimento – é emitir dívida corporativa com indicadores socioambientais ou levantar recursos para fins de descarbonização do negócio ou impacto social. Porém, o foco em diversidade, equidade e inclusão – tema que está na ponta da língua de praticamente todas as empresas hoje – é ainda exceção nesse meio.
“Historicamente, a indústria de títulos sustentáveis no Brasil e no mundo tem predominância de questões ambientais em comparação aos títulos voltados para questões sociais, como os social bonds e os social loans. Instrumentos de dívida que endereçam questões de diversidade e inclusão são mais recentes”, conta o diretor de Pesquisa e Avaliação ESG da NINT, Cristóvão Alves.
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Levantamento feito a pedido do Prática ESG para a consultoria NINT, que estrutura e audita operações de dívida sustentáveis, mostra que das 200 emissões de dívida corporativa rotuladas em 2021 e 2022, só 11 tinham como objetivo usar o dinheiro para promover diversidade ou inclusão de gênero (chamados gender bonds) ou são emissões cujos juros e outras condições são atreladas a metas (Sustainability linked bonds), entre elas, as de diversidade. De um total de R$ 140,6 bilhões, elas somam uma captação de R$ 25 bilhões.
Algumas são mais focadas em diversidade de forma geral ou em posições de liderança, como a Volkswagem que emitiu R$ 500 milhões em Notas de Crédito à Exportação (NCE) na categoria de Sustainable-Linked Loan, colocando como compromisso elevar de 14% para 26% o número de mulheres em cargos executivos até 2024, e crescer de 9% para 25% o número de gerentes e gerentes-executivas. Mas há também quem seja ainda mais específica na sua dor, como a companhia de energia Neoenergia Coelba, que, entre as metas para captar R$ 550 milhões, colocou a de alcançar 10,7% de mulheres eletricistas. A farmacêutica Eurofarma também emitiu R$ 1 bilhão em sustainability-linked bond e se comprometeu a ter pelo menos 50% de contratações externas femininas para a força de vendas a cada ano até 2027, e dobrar o número atual de liderança feminina da força de vendas, chegando a 18 mulheres nessa posição em 2027.
Apenas duas emissões nos últimos dois anos – uma da empresa de saneamento Aegea e outra da companhia de telecomunicações Vivo – são operações que incluem diversidade racial entre as metas a serem alcançadas. “Ainda há uma visão muito focada em gênero. As empresas ficam reticentes em incluir nessas metas outros ângulos de diversidade”, diz Alves.
A nova fronteira, ainda inexistente aqui, é o enfoque na diversidade, equidade e inclusão da população LGBTQIA+. A S&P Global Ratings foi a primeira, em fevereiro de 2022, a trazer claramente a questão em sua captação de US$ 1,25 bilhão. Entre as metas está a de ter mais fornecedores diversos, como pequenas e médias empresas e companhias com ao menos metade dos sócios, controladores e diretoria pertencentes a grupos minorizados e minoritários, entre eles LGBTQIA+.
“É difícil uma empresa não ter a diversidade como tema material. É uma pauta transversal, importante para todos os negócios”, aponta o especialista. Para Alves, da NINT, a justificativa que muitas empresas trazem para não ter foco em diversidade é uma dificuldade de mensuração de metas por se tratar de temas sensíveis e que envolve captação de dados, e o receio de não conseguir depois cumprir o prometido.
Em 2023, são três emissões rotuladas ESG, e uma com foco em diversidade, a do Itaú Unibanco. O banco captou, no início de fevereiro, R$ 2 bilhões em letras financeiras sociais. Os recursos serão direcionados para financiar pequenas e médias empresas lideradas por mulheres, com parte direcionada ao Norte e Nordeste. Essa é uma frente que o banco já toca por meio do Programa Itaú Mulher Empreendedora há alguns anos. É a maior captação no mercado de capitais local voltada ao tema de gênero. “Apesar de as taxas dessas captações estarem em linha com as demais emissões do Itaú, achamos importante fomentar esse mercado localmente”, comenta Daniel Goretti, diretor da Tesouraria do Itaú Unibanco.
O executivo explica que o banco já vem se valendo de instrumentos financeiros captações de cunho verde, social e sustentável no mercado internacional. Cita, por exemplo, empréstimos com o próprio IFC, bonds sustentáveis e a primeira letra financeira verde. “E voltamos ao mercado ESG local com a LF Social em questão. Isto porque vemos bastante espaço para que esse mercado se desenvolva, e assim contribua para a geração de mais ativos ESG, amplificando o impacto ambiental e social”, acrescenta.
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Cristóvão Alves, diretor de Pesquisa & Avaliação da NINT — Foto: Divulgação
Fonte: Valor Econômico