A crise entre os funcionários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a atual gestão, comandada pelo presidente Marcio Pochmann, se intensificou nesta semana. Em carta aberta, datada de 20 de janeiro e assinada por 134 funcionários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os servidores classificam a atual gestão como “autoritária” e alertam para o atual “clima organizacional deteriorado” no instituto.
No documento, os trabalhadores informam que, no momento, “as lideranças encontram sérias dificuldades para desempenhar suas funções no IBGE”, órgão que elabora indicadores oficiais do país.
Além disso, a Confederação Nacional dos Servidores Públicos (CNSP) veiculou, em 21 de janeiro, carta aberta sobre o mesmo tema. E pede interferência do Congresso para resolução da crise.
Procurado para falar sobre as cartas abertas, o IBGE não comentou até a conclusão desta edição.
Na carta assinada pelos funcionários do instituto, eles começam o documento expressando solidariedade a Elizabeth Hypolito e João Hallak Neto. Os dois pesquisadores saíram, respectivamente, dos cargos de diretora e diretor-adjunto de pesquisas do IBGE há cerca de uma semana. No entendimento dos trabalhadores, eles deixaram os cargos por “não concordarem com as práticas da gestão” com Pochmann.
Na carta aberta, eles questionam a veracidade de comunicado da presidência do IBGE, de 15 de janeiro, sobre embates entre a atual gestão e funcionários. Nesse informe oficial do instituto, o órgão acusa servidores de lançar “inverdades” e ataques ao instituto. A intenção do instituição seria de “esclarecer à sociedade brasileira a respeito de conflitos de interesses individuais e particulares frente à missão institucional do IBGE”, conforme escreveu o órgão, na ocasião.
“Os servidores nunca atacaram ou levantaram mentiras sobre o IBGE”, afirmam os funcionários, na carta desta semana. “A condução do IBGE com viés autoritário, político e midiático pela gestão Pochmann é a verdadeira causa da crise em que se encontra a instituição”, acusam eles. “Sua gestão ameaça seriamente a missão institucional e os princípios orientadores do IBGE, na medida em que impõe a criação da Fundação IBGE+ como única alternativa às demandas por recursos financeiros para a realização das pesquisas e projetos que compõem nossa agenda de trabalho”, completaram os servidores.
Os trabalhadores referem-se à proposta, de Pochmann, da Fundação IBGE+. Criada pela direção do instituto em julho do ano passado e anunciada em setembro de 2024 para os servidores e estopim da crise atual, que dura meses, ela é uma fundação de direito público-privada. Segundo o instituto, permitiria que o IBGE pudesse receber recursos adicionais para pesquisa e inovação tecnológica, que não ficassem sujeitos às restrições obrigatórias do orçamento federal.
No entanto, o sindicato dos funcionários do IBGE, a ASSIBGE, bem como funcionários do instituto que assinaram a carta encaram a nova estrutura como uma espécie de “IBGE paralelo”.
Já na carta aberta da CNSP, a organização pede que congressistas sustem “urgentemente o ato constitutivo da entidade privada IBGE+”.
A confederação pede ainda que se denuncie, no exercício da representação política, o Estado brasileiro aos seguintes órgãos: Organização Internacional do Trabalho (OIT), Comissão Interamericana de Direitos Humanos e ONU. O motivo seriam supostas “violações atentatórias à liberdade das entidades representativas assegurada universalmente” no embate entre a atual gestão do IBGE e funcionários.
A CNSP também pede estabelecimento de normas pelo Congresso que estabeleçam “aplicação do princípio da indissociabilidade das funções precípuas e da autonomia técnico-científica” do IBGE.
Uma servidora pública do instituto que preferiu não se identificar, disse ao Valor que, com a crise, o clima interno do IBGE “está bem ruim”. “E isso não é sentimento individual, mas de toda corporação, incluindo cargos de liderança e técnicos”, disse. “Servidores com tempo para aposentar já estão providenciando a saída”, completou.
Fonte: Valor Econômico

