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O fim da vacinação contra a febre aftosa no Brasil representou o virtual desaparecimento desse ramo do mercado de saúde animal, que já foi um dos líderes de vendas dessa indústria no país. Em maio do ano passado, a Organização Mundial de Saúde Animal reconheceu o Brasil como área livre de febre aftosa sem vacinação – e a decisão marcou, ainda que de maneira simbólica, uma mudança de era para a Zoetis, que por muitos anos liderou as vendas da vacina para combate à aftosa no Brasil.
“O fim da vacinação contra a febre aftosa é realmente positivo, mas antes os rebanhos precisavam receber a vacina duas vezes por ano. Agora que isso não é mais obrigatório, outras categorias de medicamentos, como os parasiticidas, também não estão sendo administrados”, disse Jamie Brannan, vice-presidente e diretor comercial da Zoetis, ao Valor. “Houve uma certa desaceleração do uso de medicamentos, e isso é algo em que precisamos nos concentrar como indústria”.
Na companhia, a mudança de rota não começou com o status de área livre de febre aftosa que o Brasil conquistou no ano passado. A Zoetis, líder na indústria de saúde animal no mundo e que também encabeça esse mercado na pecuária brasileira, decidiu abandonar a produção de vacinas para o combate à doença em 2021. O que ganha corpo agora são as novas apostas da empresa, que tem investido pesadamente em genômica, em vacinas para combate a doenças emergentes, como a gripe aviária, e em alternativas aos antibióticos.
O Brasil é o segundo mercado mais importante para a Zoetis no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Em 2025, o faturamento da empresa do mercado brasileiro caiu 5% em comparação com o ano anterior, para US$ 393 milhões. O negócio de pecuária, que inclui aves, suínos e peixes, responde por 63% da receita da companhia no Brasil, o que justifica os investimentos em ramos voltados a animais de produção.
Como parte da estratégia pós-febre aftosa, a Zoetis anunciou em março que ofereceu US$ 160 milhões para comprar a Neogen, empresa que lidera o segmento de genômica bovina no mercado americano. Segundo Brannan, com a conclusão do negócio, que deverá ocorrer no segundo semestre deste ano, a Zoetis ampliará sua atuação na área de diagnósticos baseados em avaliação genética de animais. A partir dessas avaliações, é possível indicar aos produtores rurais quais animais têm potencial produtivo mais alto, o que torna mais precisos a seleção e o melhoramento genético nas propriedades.
“Nós já temos um negócio de genômica sob as marcas da Clarifide, nos Estados Unidos. Mas a conclusão da compra da Neogen nos dará escala global. Assim, teremos um laboratório no Brasil, um na China, um na Austrália e outro na Europa, além aumentarmos nossa capacidade no mercado americano. É um negócio que está totalmente alinhado com a nossa estratégia”, diz Brannan.
A decisão de apostar nesse nicho tem relação, também, com a crescente restrição ao uso de antibióticos na produção de proteína animal, sobretudo os produtos indutores de crescimento. No ano passado, o Brasil abriu consulta pública para a proibição de cinco antimicrobianos que atuam na melhoria de desempenho: avoparcina, bacitracina, bacitracina de zinco, bacitracina metileno disalicilato (BMD) e virginiamicina. A consulta pública já se encerrou, mas ainda não há definição sobre o tema.
“No mundo, 20% do gado é perdido com doenças, o que representa um custo global de US$ 300 bilhões. Portanto, do ponto de vista do bem-estar dos animais, está claro para nós que os antibióticos são necessários para a saúde animal. Trata-se apenas de garantir que o uso seja apropriado”, afirma.
Desde que abriu capital, em 2013, a Zoetis já investiu US$ 6 bilhões em inovação. Ao todo, 1,7 mil profissionais, o que corresponde a 10% da força de trabalho da companhia, dedicam-se ao desenvolvimento de novos produtos veterinários. “Isso é mais do que qualquer outra empresa de saúde animal”, comenta o executivo.
Em vacinas, a Zoetis prepara o lançamento de um imunizante contra a gripe aviária, doença que tem gerado prejuízos bilionários para o segmento. O produto recebeu licença condicional do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) para ser vendido no país, mas ainda não obteve aprovação de todos os mercados. Segundo Brannan, a empresa está pronta para fornecer a vacina, mas ainda não tem previsão de quando fará isso no Brasil.
Fonte: Valor Econômico