Por Matheus Prado — De São Paulo
26/07/2022 05h02 Atualizado há 2 horas
Em semana de decisão de política monetária do Federal Reserve (Fed), investidores seguem monitorando o avanço da inflação ao redor do globo e também os riscos de recessão, que determinarão até que ponto os juros devem avançar para desacelerar os preços. Esse ambiente impõe desafios de alocação para os gestores, e produtos voltados exclusivamente para ações sofrem mais, já que a bolsa de valores costuma ter correlação negativa com um cenário de alta de juros.
Não por acaso, o S&P 500 tem performance negativa de 17,30% em 2022, enquanto o Nasdaq cai 25,58% e o europeu Stoxx 600 recua 13,01%. Localmente, o Ibovespa acumula queda menor, de 4,34%, mas parece não ter forças para avançar sem o impulso dos seus pares globais. Alguns fundos de multiestratégia, por outro lado, têm mantido posicionamento “leve” em renda variável, buscando oportunidades táticas de compra e venda, principalmente nos Estados Unidos.
Marcio Fontes, gestor do fundo ASA Hedge, da ASA Investments, diz que reduziu a exposição ao mercado de ações e tem posição vendida no S&P 500. Ele acredita que os juros americanos, “principal régua para ações”, ainda devem avançar nos próximos meses, diminuindo a visibilidade e a atratividade de ativos de renda variável.
“Focamos em renda variável quando a economia global estava estimulada e os juros, em baixa. Passamos por construção civil, bancos digitais e depois commodities. O problema é que os estímulos podem ter sido além do necessário, o que deixou o mercado de trabalho apertado nos EUA e gerou inflação, o que fez com que o Fed subisse o juro. Agora, acreditamos que o lucro das empresas deve ter alcançado o pico para o ciclo, mas as taxas devem seguir subindo.”
O executivo cita ainda o ERP (Prêmio de Risco das Ações, na sigla em inglês, que subtrai do lucro o juro real de dez anos e a inflação de longo prazo), que tende a piorar com o prolongamento do período inflacionário e com uma possível piora nos resultados das companhias listadas, que ainda não foi, segundo Fontes, totalmente precificada pelo mercado. Isso mantém, na visão da casa, um baixo nível de atratividade para o segmento.
“Acredito que este processo será estendido e que talvez nem tenhamos recessão no curto prazo. A inflação está alta e os gastos permanecem elevados. No médio prazo, dado o desvio dos preços, o Fed provavelmente precisará elevar mais os juros, que ainda nem estão num patamar neutro.”
Já Ruy Alves, gestor de macro global da Kinea, diz não acreditar que o ciclo de aperto monetário irá avançar tanto quanto o mercado espera. Ele afirma que investidores começaram o ano acreditando que o avanço da inflação seria o maior problema global, o que exigiria mais elevações de juros pelos bancos centrais, como tem ocorrido. Mas, na sua visão, a grande questão é a desaceleração econômica.
“Entendemos que o mercado já precificou demais o ciclo de aperto monetário nos EUA. Na nossa visão, a inflação é convergente e permite resposta do Fed, sendo fruto da liquidez exacerbada, que fez o mundo consumir demais e se preparar industrialmente para essa escala de demanda, que não existe.” Alves opina que o mundo está sem “avenidas de crescimento”, com a Europa vivendo problemas de abastecimento; a China encontrando problemas no seu modelo exportador e no setor de habitação; e com os Estados Unidos também mostrando desarranjos econômicos. Com isso, tem posição vendida (aposta na queda) no S&P 500, tendo aumentado o volume no início do ano, e comprada em Nasdaq.
“Recentemente, as empresas de ‘value’ [empresas sólidas e com múltiplos baixos] foram prejudicadas por um ambiente que combinava taxa de juros zero e baixo crescimento econômico, o que pode voltar a ocorrer agora e levar os investidores de volta para teses de ‘growth’ [que buscam multiplicar seu valor no futuro]”, resume.
Bruno Leite, sócio e gestor da Parcitas Investimentos, também acredita que o pós-crise pode ter empresas fortes e juros baixos. Ele conta que a casa tem buscado equilibrar o portfólio com duas estratégias complementares. Manteve posições compradas em algumas “big techs” (grandes empresas de tecnologia), apesar das perdas recentes, mantendo a tese de longo prazo, e buscou se proteger de parte das perdas tomado em juros, comprado em commodities e com “puts” (opções de venda) em bolsa.
“Olhando para projeções de receitas e lucros no longo prazo, as big techs seguem atraentes. As ações da Microsoft, por exemplo, chegaram a cair 30% em relação às máximas, sendo que os lucros não devem cair tanto. Essas empresas seguem com ‘valuation’ bom e têm pouco espaço para quedas, já que continuam agregando receitas e serviços”, diz, citando Amazon, Google, Apple e Sales Force.
Luiz Nunes, sócio-fundador e CEO da Forpus Capital, tem visão dissonante. O fundo Forpus Multiestratégia tem posições vendidas através de opções em empresas americanas com “múltiplos mais esticados” (relação entre os preços das ações e os resultados da companhia), principalmente as “big techs”. Isso porque a casa acredita que ainda ocorrerão correções nos mercados acionários, principalmente nos países desenvolvidos.
“Saímos de cenário de inflação baixa e juros baixos, para um ambiente estruturalmente mais inflacionário, que deve exigir mais altas de juros. Economias que tinham bolsas mais esticadas estão sofrendo mais, ou seja, existe mais fragilidade nos mercados desenvolvidos. Assim, ainda mais num ambiente em que não há investimento para ampliar a oferta global de commodities, os países com moedas correlacionadas aos produtos brutos devem sair vencedoras”, defende.
Com tantas incertezas e visões conflitantes sobre a saúde da economia global, a Atmosphere Capital, especializada em investimentos no exterior, tem buscado oportunidades temáticas. Felipe Mattar, sócio e CIO da casa, acredita que, nos próximos meses, o mercado continuará pouco fundamentado, requerendo gestão ativa por parte dos fundos.
“Existem dúvidas sobre a magnitude de uma possível recessão em cada setor da economia, mas acreditamos que bens duráveis, consumo discricionário e setores cíclicos tendem a sofrer mais. Temos posições vendidas, por exemplo, em produtoras de petróleo e cobre. Na outra ponta, apostamos em teses defensivas como saneamento e resíduos, e segmentos expostos a ciclos de investimento mais seculares, como biocombustíveis, energia limpa e defesa”, aponta.
Fonte: Valor Econômico
