A inteligência artificial, a resiliência da indústria de fundos multimercados e a expansão do mercado de ETFs foram alguns dos principais temas debatidos no BTG Summit, realizado nesta quarta-feira (25), em uma sequência de painéis que reuniu executivos de big techs e gestores de assets. Apesar de pontuais divergências, a avaliação dos convidados convergiu na ideia de que o mercado financeiro atravessa uma fase de transição estrutural, marcada por inovação tecnológica, maior sofisticação do investidor e mudanças no ambiente macroeconômico.
No painel dedicado à inteligência artificial, o presidente do Google Brasil, Fábio Coelho, afirmou que “a inteligência artificial é provavelmente a tecnologia mais transformadora do nosso tempo”. Segundo ele, o avanço recente dos modelos generativos amplia o acesso a ferramentas antes restritas a grandes companhias e cria um novo ciclo de produtividade. “A IA vai impactar todos os setores da economia”, disse.
Cléber Morais, CEO da Amazon Web Services Brasil, destacou que a corrida atual não se resume ao desenvolvimento de modelos, mas à capacidade de aplicá-los de forma eficiente. “Não é sobre ter a tecnologia, é sobre saber usar a tecnologia”, afirmou. Para ele, as empresas que conseguirem integrar IA aos processos de negócio de maneira pragmática tendem a capturar ganhos relevantes de eficiência.
Christian Flemming, COO/CTO do BTG Pactual, ressaltou que, no setor financeiro, o uso de dados sempre foi central, mas a nova geração de ferramentas amplia exponencialmente as possibilidades. “A gente sempre trabalhou com modelos, mas agora o poder computacional e a capacidade de processamento mudaram de patamar”, disse. Ele ponderou que governança e segurança seguem como prioridades na adoção das novas soluções. Os três também concordaram com a opinião de que o crescimento acelerado do campo de IA não configura uma bolha, amenizando preocupações nesse sentido.
Se a tecnologia foi tratada como vetor de transformação estrutural, o painel do BTG Summit sobre multimercados abordou os desafios mais imediatos da indústria. Marco Freire, da Kinea Investimentos, avaliou que o cenário de juros elevados no Brasil e no exterior exige maior seletividade. “O ambiente ficou mais complexo”, afirmou, ao destacar que a dispersão de resultados entre estratégias aumentou nos últimos anos.
Bruno Serra, do Itaú Asset Management, chamou atenção para a mudança no perfil de risco dos investidores após um ciclo prolongado de juros baixos. “Muita gente se acostumou com um tipo de retorno que não existe mais”, disse. Para ele, a reconstrução de portfólios passa por realismo em relação a prêmio de risco e horizonte de investimento.
Na mesma linha, Christiano Chadad, do BTG Volt, afirmou que a volatilidade voltou a ser componente central das decisões. “A volatilidade é a matéria-prima do multimercado”, declarou, defendendo que momentos de maior incerteza podem gerar oportunidades para estratégias mais dinâmicas.
José Lucio Nascimento, sócio de produtos do BTG Pactual, acrescentou que a indústria atravessa um processo de amadurecimento, com investidores mais atentos à consistência e à gestão de risco.
Em outro debate, dedicado aos ETFs, evidenciou a expansão desse segmento no Brasil. Cauê Mançanares, CEO da Investo, afirmou que “o ETF democratiza o acesso a estratégias que antes eram restritas”. Segundo ele, a combinação de transparência, liquidez e custo competitivo tem ampliado a base de investidores.
Andrés Kikuchi, da Nu Asset, destacou que o investidor local passou a utilizar ETFs não apenas como instrumento tático, mas também como peça estrutural de alocação. “O ETF deixou de ser só uma ferramenta de curto prazo”, disse. A diversificação internacional foi apontada como uma das principais tendências.
Eduardo Miquelotti, da BTG Asset, ressaltou que a evolução do mercado secundário e o aumento do número de formadores de mercado contribuíram para reduzir spreads e ampliar liquidez. Rogério Santana, da B3, observou que o crescimento do número de produtos listados acompanha a demanda por soluções mais específicas, incluindo exposições setoriais e temáticas.
Nas três discussões, a mensagem reforçada pelos participantes foi a de que o mercado financeiro brasileiro passa por uma “inflexão”, com a incorporação acelerada de inteligência artificial redefinindo processos e modelos de negócio de um lado, e a indústria de fundos tendo de lidar com um investidor mais exigente, em um ambiente macroeconômico menos previsível, do outro. E, na distribuição, instrumentos como ETFs têm ganhado espaço ao oferecer simplicidade e eficiência.
Fonte: Capital Aberto
