/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2019/a/s/w9bUi7Qf6nfKQWWhi0Qw/container-ship-2856899-1920.jpg)
Eleições nos EUA: Veja quais setores do Brasil podem ganhar ou perder com novo governo — Foto: Pixabay
Empresas brasileiras devem se preparar para uma possível mudança de cenários para seus negócios a com o resultado das urnas nos EUA.
A vitória do candidato do Partido Republicano, Donald Trump, tende a facilitar as aquisições de produtos de petróleo – que já é o principal produto exportado pelo Brasil para o mercado americano.
Uma vitória da candidata do Partido Democrata, Kamala Harris, poderia ter aberto portas para mais importações americanas de produtos ligados à transição energética.
Entre as várias divergências, os dois candidatos partilham de uma visão de que, de modo geral, a indústria dos EUA deve ampliar sua produção local – o que também indica uma possível mudança na dinâmica das importações do país.
Para o professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo, Rodrigo Cezar, os EUA não deverão adotar nenhuma política que torne mais fácil aos americanos importarem aço, produtos agrícolas como açúcar, suco de laranja, biocombustíveis e produtos têxteis.
“São setores que geram muitos empregos nos EUA e que tradicionalmente são beneficiados por políticas protecionistas. São setores que se forem expostos ao comércio internacional serão prejudicados nos EUA. Aço, por exemplo, do Brasil é mais barato, produtos agrícolas também.”
As exportações brasileiras para os EUA entre janeiro e setembro somaram US$ 29,4 bilhões, 10,3% a mais do que o registrado no mesmo período de 2023.
As vendas para os EUA representam 11,5% de todas as exportações brasileiras.
No topo da pauta das vendas para os americanos estão óleos brutos de petróleo ou de minerais betuminosos (14%), produtos semi-acabados, lingotes e outras formas primárias de ferro ou aço (10%), aeronaves e outros equipamentos (5,6%), óleos combustíveis de petróleo (4,7%), ferro gusa (4,5%), celulose (4,3%), café não torrado (4,1%). Os outros itens representam menos de 4% da pauta de exportações.
Em relação às importações do Brasil de produtos fabricados nos EUA, o valor entre janeiro e setembro foi de US$ 30,6 bilhões, 6,2% a mais do que as importações entre janeiro e setembro de 2023.
Motores e máquinas não elétricas representaram 14% das importações, óleos combustíveis de petróleo, 9%; aeronaves e outros equipamentos, 5%; gás natural, 4,4%; demais produtos da indústria de transformação, 4,2%, polímeros de etileno, 4%. Outros itens importados representam menos de 4% compras feitas nos EUA.
Os números são do sistema oficial de estatísticas de comércio exterior do Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Cezar veria mais benefícios para empresas brasileiras que investem em transição energética caso a vitória tivesse sido de Kamala.
“Kamala provavelmente estaria mais alinhada a uma agenda de governança ambiental internacional e, com isso, poderia acenar com mais parcerias com empresas do Brasil especializadas na produção verde, como hidrogénio verde e SAF (combustível sustentável de aviação)”, disse o professor.
Em outra direção, Trump defende mais estímulo à indústria do petróleo nos EUA.
“Minha percepção inicial é que as importações de petróleo por parte dos EUA com Trump no governo talvez até sejam estimuladas. Ele fala em estimular a produção doméstica de petróleo, mas também vai querer importar sem as barreiras das ações climáticas.”
Abrão Neto, CEO da Câmara Americana de Comércio para o Brasil afirma: “Numa administração republicana, a ênfase tende a se deslocar para o prisma da segurança energética”. Se os democratas tivessem vencido, ele esperaria uma continuidade dos incentivos à economia verde e energias renováveis, áreas nas quais o Brasil possui vantagens.
Neto lembra que em termos de políticas específicas, Kamala e Trump têm falado sobre política industrial e sobre o fortalecimento da produção doméstica nos EUA.
“Esse é um consenso suprapartidário e será uma tônica forte do próximo governo”, diz.
O que pode ser outro consenso é o interesse americano em ampliar laços com Brasil e outros países para mais importações de minerais estratégicos, cruciais para a indústria da transição energética e novas tecnologias. O atual governo do presidente dos EUA, Joe Biden, já tem buscado estreitar contatos com empresas brasileiras de mineração e com órgãos de governo com vistas a contar com o Brasil como um maior fornecedor desses minerais. Hoje, os EUA dependem fortemente da China para acesso a esses recursos.
A avaliação da Câmara de Comércio é que a expectativa de aumento do comércio e dos investimentos bilaterais vai se manter, independentemente do resultado eleitoral.
Neto diz que essa tendência de aumento nas relações Brasil EUA beneficiaria exportações brasileiras de bens industriais, como aeronaves, aço, máquinas e equipamentos, entre outros produtos de média e alta intensidade tecnológica.
Ainda que seja um parceiro comercial crucial, os EUA têm um papel menos relevante do que o da China e o da União Europeia na corrente de comércio com o Brasil.
Enquanto a corrente de comércio Brasil-EUA foi de US$ 60,1 bilhões entre janeiro e setembro deste ano, a corrente Brasil-China foi de US$ 122,9 bilhões e com a União Europeia, de US$ 72 bilhões.
Fonte: Valor Econômico
