Por Arthur Cagliari e Matheus Prado — De São Paulo
02/02/2023 05h01 Atualizado há 3 horas
A leitura unânime entre economistas foi a de que o Comitê de Política Monetária (Copom) transmitiu uma mensagem dura no comunicado que acompanhou a decisão de ontem, o que reforçou preocupações sobre a trajetória dos juros à frente e evidenciou possíveis “recados” da autarquia ao governo e a participantes do mercado.
Entre as principais discussões expostas no documento, economistas ouvidos pelo Valor citaram uma subida de tom do Banco Central em relação à discussão sobre possíveis mudanças nas metas de inflação e também sobre as projeções de cortes de juros, expostas semanalmente pelo mercado no Boletim Focus.
Andrei Spacov, economista-chefe da Exploritas, diz que o comunicado do Copom foi mais duro do que ele e o mercado esperavam, indicando que as principais opções para a Selic à frente são ficar parada ou subir.
Isso porque, na sua visão, a discussão de metas de inflação virou prioridade para o Comitê, apesar da melhora nos cenários de atividade e inflação. O comunicado cita que o BC avaliará se a estratégia de manutenção da taxa básica de juros por período mais prolongado do que no cenário de referência será capaz de assegurar a convergência da inflação.
“O governo falou sobre o tema algumas vezes e a reunião do Conselho Monetário Nacional para definir as metas só ocorre em junho. Essa discussão atrapalha e, se nada for definido até junho, haverá problema adicional. O comunicado não diz isso literalmente, mas indica. O governo precisa dizer o mais rápido possível se irá ou não mexer nas metas. A incerteza é sempre pior”, diz.
Spacov diz ainda que o comitê adicionou cenário alternativo para mostrar que, com a Selic parada, consegue manter a inflação na meta, mas as expectativas ainda estão se deteriorando. “É claro que o juro real está alto e o mercado tende a precificar quedas, mas o cenário desenhado pelo BC tende a mudar a simetria do mercado”, afirma.
Tomás Goulart, economista-chefe da Novus Capital, diz que a apresentação de um cenário alternativo mostrou que o BC olha para suas projeções de inflação e que elas divergem das do mercado ao longo de todo o horizonte relevante de política.
“O que o Copom quer dizer com isso é que está preocupado com o cumprimento da meta [de inflação] e, ao olhar o que tem na mesa hoje, percebe que não tem um horizonte plausível para cortar os juros. É como se dissesse ‘eu só consigo entregar a inflação na meta se eu não cortar os juros’”, afirma.
Já Marco Antonio Caruso, economista-chefe do Banco Original, entende que o Comitê deixou claro em seu comunicado que a estimativa do Boletim Focus, que coloca a Selic a 12,5% no fim do ano, não faz sentido diante do cenário.
“O comitê diz para o Focus que esses juros não servem mais. O Boletim prevê o início do corte de juros na sexta reunião deste ano, e o comunicado aponta que vai ser depois disso, mirando em uma taxa de 13% talvez no fim deste ano ou no começo do ano que vem. Se for pra cortar, deverá ser no último encontro e não no sexto”, aponta.
Para o economista, com essa perspectiva indicada no texto sobre a taxa de juros, o Banco Original deve voltar a olhar para a sua estimativa para a Selic no fim de 2023, hoje em 12,5%. “O texto sinaliza que para o fim do ano a previsão do BC é ter uma Selic no nível da nossa estimativa ou mais, então vamos ter que ver o que a ata vai trazer de informações para analisar essa projeção.”
Menos pessimista, o economista-chefe da Parcitas Investimentos, Vitor Martello, opina que a piora nas projeções de inflação do BC mostram o efeito direto da contaminação fiscal no ambiente. Contudo, a conjuntura é mais favorável, com sinais de desaceleração da inflação da atividade no mundo e também no Brasil, ao mesmo tempo em que a reabertura da China é benéfica para ativos domésticos, o que pode conter novas altas.
“As projeções do Focus costumam demorar a desancorar, então é provável que o Copom continue apresentando este cenário alternativo para efeitos comparativos ou até provar que a manutenção de juros não é mais suficiente. Mas, pessoalmente, acredito que a conjuntura pode continuar ajudando a segurar novas altas nos juros.”
Fonte: Valor Econômico
