Por Alex Ribeiro — De São Paulo
27/05/2022 05h00 · Atualizado
Alguns dos mais experientes economistas do país entraram na polêmica sobre se o Banco Central deve seguir subindo os juros ou se deve evitar pegar tão pesado agora e adiar o cumprimento da meta de inflação em 2024.
No 8º Seminário Anual de Política Monetária, promovido anteontem pelo IbreFGV, com apoio do Valor, o ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore defendeu “proatividade na subida da taxa de juros” para evitar maiores custos da desancoragem das expectativas de inflação. Sua posição foi alinhada, em muitos aspectos, à do ex-diretor do BC José Júlio Senna.
Do outro lado, o também ex-diretor do BC Eduardo Loyo defendeu que a estratégia de política monetária que envolve menos custos, nas circunstâncias atuais, é adiar o cumprimento da meta de inflação para 2024, já que fazê-lo em 2023 tornou-se pouco crível e dificulta a própria ancoragem das expectativas.
O debate espelha a divisão presente no mercado financeiro. Em reuniões com economistas privados feitas pelo Banco Central nesta semana, dentro dos preparativos para a elaboração do Relatório de Inflação, alguns defenderam a continuidade da alta dos juros para debelar as mais recentes pressões inflacionárias; outros, não subir tanto agora e adiar cortes de juros previstos para o ano que vem.
O Comitê de Política Monetária (Copom) do BC deu sinais, desde março, que pretendia parar em breve de subir os juros básicos, hoje em 12,75% ao ano. Porém, a indicação de uma última alta em junho, para 13,25%, foi colocada em questão pelos mercados, depois da divulgação de um IPCA-15 salgado nesta semana.
Senna, que é diretor do Centro de Estudos Monetários do IbreFGV, argumentou que a imprevisibilidade é uma das principais características do surto inflacionário que assola várias partes do mundo. Nesse ambiente, ele considera melhor os BCs se comprometerem menos sobre onde vão levar o grau de aperto monetário. “Compromissos não são recomendáveis”, afirmou.
O IPCA-15, para ele, confirmou o quadro inflacionário complicado, e dificilmente as expectativas do mercado não vão ser contaminadas. “O mercado está vendo que a coisa está piorando”, argumentou. “Se o BC insistir em dizer que não está vendo a mesma coisa, pode ser interpretado que jogou a toalha.”
Para Pastore, sócio da consultoria A. C. Pastore & Associados, se o Banco Central se der por satisfeito e parar de subir o juro quando a taxa chegar a 13,25% ao ano, deixando-a parada nesse patamar em boa parte do ano que vem, vai conseguir baixar a inflação, mas não cumprir a meta. “Ele pode estar contente em ter baixado a inflação, mas isso tem um custo”, argumentou. “Ele perde credibilidade.”
O economista afirmou que, nos níveis atuais, a taxa de juro real está acima da taxa neutra, portanto baixa a inflação. Mas, ao ficar aquém do nível necessário para cumprir a meta de inflação, poderá afetar negativamente as expectativas do mercado. A contrapartida disso, afirmou, é o aumento da inércia inflacionária, o que representa um custo a mais para desinflacionar.
No fundo, disse, trata-se de uma escolha típica da função de perdas que os banqueiros centrais têm diante de si: privilegiar o combate à inflação ou salvaguardar o crescimento da economia. Alguns deles são mais sensíveis às perdas do lado da inflação, outros pesam mais perdas do lado da atividade.
“Esse Banco Central […] dá um peso maior para a atividade econômica”, disse. “Ele não vai perder o controle [da inflação], a inflação vem para baixo. Só que vamos conviver com inflação mais alta por mais tempo. A inércia tende a subir, a capacidade de ancoragem das expectativas tende a cair e vamos ficar com a economia crescendo menos por mais tempo.”
Loyo, atualmente membro do Conselho do banco BTG Pactual, defendeu que um eventual alongamento do cumprimento da meta de inflação para depois de 2023 é, de certa forma, uma questão de melhor gestão da política monetária, e não reflete necessariamente o posicionamento do banqueiro central entre pesar mais na estabilidade monetária ou na atividade.
Ele lembrou que, pessoalmente, não é reconhecido como um economista que defenderia uma atitude mais leniente com a inflação. Loyo foi membro de uma das formações reconhecidamente mais austeras do Copom, sob o comando de Henrique Meirelles. No entanto, disse, não está alinhado com os que consideram que a atitude verdadeiramente responsável e de menor custo, no momento, seja perseguir a meta de inflação em 2023.
Para ele, nas circunstâncias atuais, está se tornando uma “quimera”, ou uma fantasia, o cumprimento da meta de inflação em 2023. “Insistir que vai entregar a meta em 2023 está ficando cada vez mais inútil do ponto de vista de ancoragem de expectativas”, sustentou. Ele reconheceu, porém, que um dos desafios é o BC comunicar de forma adequada o eventual deslocamento do seu objetivo inflacionário para 2024.
Fonte: Valor Econômico
