Por Valor Econômico — São Paulo
17/07/2023 20h32 · Atualizado
Vários economistas rebaixaram nesta segunda-feira (17) suas previsões para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da China, citando o enfraquecimento da
recuperação pós-covid e a resposta de estímulo relativamente fraca de Pequim. JPMorgan Chase & Co, Morgan Stanley e Citigroup estão entre os bancos que
cortaram suas projeções de crescimento econômico da China neste ano para 5%, colocando em risco a meta oficial de PIB de Pequim de cerca de 5%.
Dados oficiais divulgados nesta segunda mostraram que a economia da China cresceu apenas 0,8% no segundo trimestre em relação aos primeiros três meses do ano, menos que a metade dos 2,2% registrados no primeiro trimestre. O resultado é reflexo da fraqueza das vendas no varejo e dos investimentos apenas moderados do setor privado, assim como da forte desaceleração das exportações, que impulsionaram o crescimento chinês durante a pandemia, com a menor demanda externa, afetada pela alta dos juros dos principais bancos centrais do mundo.
Em termos anuais, a expansão no segundo trimestre acelerou-se para 6,3%, acima dos 4,5% do primeiro. Só que isso reflete a baixa base de comparação do segundo trimestre de 2022, quando a atividade parou em razão dos lockdowns da política de covid-zero.
O baixo ritmo de crescimento em 2023 intensifica a pressão sobre Pequim para reacender uma expansão que corre o risco de dissipar-se, em meio à contenção de gastos dos consumidores e à queda nas exportações. A longa crise no setor imobiliário e a má situação das contas dos governos locais agravam o pessimismo. Mais de 20% dos chineses entre 16 e 24 anos estão desempregados.
Muitos economistas veem a meta ao redor de 5% de Pequim em risco. O Citigroup reduziu sua previsão para o crescimento da China para este ano de 5,5% para 5%. A nova projeção leva em conta o apoio político “mais realista” nos próximos meses, escreveram os economistas do Citi, incluindo Yu Xiangrong. Para eles, embora uma reunião do Politburo do Partido Comunista no final deste mês possa dar pistas sobre o pensamento de Pequim, há riscos de que a política possa “ficar atrás da curva ou aquém das expectativas”.
O JPMorgan cortou sua previsão de 5,5% para 5%, enquanto o Morgan Stanley reduziu sua estimativa de 5,7% para 5%. United Overseas Bank, Capital Economics e o Société Générale também reduziram suas previsões.
Lu Ting, economista-chefe da Nomura Holdings, acredita que Pequim pode introduzir algumas medidas de apoio, incluindo mais dois cortes de juros e transferências fiscais adicionais para os governos locais. Porém, ele ressalta que “essas medidas podem não mudar as coisas”. A Nomura manteve sua previsão de crescimento de 5,1% neste ano.
“A economia chinesa está claramente engasgando”, disse Eswar Prasad, professor de economia e políticas de comércio exterior na Universidade Cornell e ex-chefe da divisão chinesa no Fundo Monetário Internacional (FMI). De acordo com Prasad, os números colocam em evidência a necessidade de mais estímulos para impulsionar a expansão, assim como de mudanças na política econômica para ajudar a reanimar a confiança do setor privado chinês e a promover uma aceleração na produtividade.
Para alguns economistas, o governo chinês deveria intervir com auxílios diretos às famílias para estimular o consumo, criar novos empregos e reacender a confiança na economia. Essas medidas poderiam incluir pagamentos a famílias de baixa renda, cortes no imposto de renda ou aumento de gastos em programas sociais para liberar mais renda familiar para o consumo, diz Prasad.
Pequim precisará reviver o mercado imobiliário para ver um melhor crescimento na economia, disse Jacqueline Rong, economista-chefe para a China do BNP Paribas. “O único motor de crescimento que resta é o investimento, cujo maior problema é a propriedade”, disse Rong. “O apoio mais urgente necessário para a propriedade é estabilizar o lado da oferta — muitas incorporadoras estão com problemas e não pode haver mais inadimplência em larga escala, caso contrário, o desenvolvimento habitacional será interrompido.”
Os dados desta segunda também mostraram uma acentuada desaceleração no crescimento das vendas no varejo, crescimento de 3,1% ao ano em junho. Isso é preocupante, diz Louis Kuijs, economista-chefe para a Ásia-Pacífico da S&P Global Ratings. “O que esperávamos era uma recuperação liderada pelo consumo e pelo serviço. Se isso está falhando, não há mais motor para a recuperação”, disse.
A taxa de desemprego entre os jovens, que ficou acima de 20% pelo terceiro mês consecutivo, pode subir ainda mais em julho, alertaram as autoridades. “A taxa de desemprego juvenil é mais uma questão estrutural”, disse Ding Shuang, economista-chefe para a Grande China e Norte da Ásia do Standard Chartered.
Além disso, as preocupações com a deflação continuam aumentando. Dados desta segunda mostraram que o deflator do PIB, uma medida dos preços em toda a economia, ficou negativo no segundo trimestre pela primeira vez desde 2020. O deflator é calculado como a diferença entre a taxa nominal de crescimento do PIB e a taxa ajustada pela inflação.
O “risco de deflação é sério”, disse Zhiwei Zhang, presidente e economista-chefe da Pinpoint Asset Management.
Autoridades chinesas têm mostrado relutância em adotar medidas de estímulo em larga escala, preferindo uma abordagem fragmentada para evitar um grande endividamento. Pequim também tenta mudar as prioridades do país, antes centradas no crescimento rápido a todo custo, e reorientá-las a medidas que ajudem a preparar a China para as crescentes tensões com o resto do mundo e possíveis conflitos.
Fonte: Valor Econômico

