Remédio das associações não passam pelo mesmo critério e análises dos industrializados
Por Marcos de Moura e Souza — De São Paulo
28/03/2023 05h00 Atualizado há um dia
Médicos que receitam tratamentos de cannabis destacam diferenças entre remédios industrializados e os não industrializados.
“Cada médico tem sua autonomia, mas a recomendação é que prescrevam de preferência produtos que tenham certificado de análise que comprove as concentrações dos canabinoides e a segurança dos processos. Normalmente, esse tipo de certificação é obtido por produtos industrializados”, diz o pisquiatra Vinicius Barbosa, membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libânes, de São Paulo, e atual coordenador do Núcleo de Cannabis Medicinal da instituição.
De modo geral, a dificuldade em relação aos produtos das associações, diz Barbosa, é que eles não passam pelo mesmo critério e análises dos industrializados e isso pode deixar dúvidas sobre os teores e os canabinoides presentes em cada frasco de remédios produzidos por associações de pacientes.
“Não significa que o produto de uma associação não possa fazer bem. Minha questão é que, como médico, preciso ter garantia do que há naquele produto. É uma questão de segurança”, diz. Ele cita como exemplo casos de crianças que não podem ser expostas a teores de THC elevados.
“Para o médico prescrever é preciso que saiba o que há naquele produto. É fundamental que o produto seja antes submetido a análises e isso vale para a indústria farmacêutica e para as associações de pacientes”, diz Barbosa.
“Eu uso das duas formas. Vejo que são produtos diferentes”, afirma o neurocirurgião funcional Pedro Pierro, especializado em tratamento de dor, transtornos de movimentos, epilepsia e em cirurgia psiquiátrica. “Os produtos artesanais de associações são mais robustos. Doses menores já dão efeitos, porém, têm potencial maior para efeitos adversos.” Efeitos que, segundo ele, estão mais ligados ao fato de o produto ser em forma de óleo e também por ter outros componentes da planta, como a clorofila, do que pelos canabinoides.
Efeitos adversos não costumam ser fortes. Remédios que, por exemplo, têm mais THC (um dos muitos canabinoides da cannabis) podem provocar um estado de letargia, boca seca, olhos vermelhos.
Quanto aos remédios artesanais de produção caseira para uso na família, Pierro diz que é importante que sejam feitas testagens para evitar grandes variações entre as extrações. “O padrão farma não dá surpresa, você sabe o que vai receber e quais os efeitos mais prováveis”, diz o médico.
Na avaliação da Associação Brasileira da Indústria de Canabinoides (BRCann), a produção de remédios nas associações fazia sentido quando havia certa escassez do produto no mercado brasileiro. “Mas nos últimos anos, a quantidade de empresas oferecendo produtos no Brasil, seja pelas farmácias, seja pela importação, aumentou exponencialmente”, diz Tarso Araujo, que preside a entidade.
“Então, a meu ver, à medida que o mercado amadurece e é capaz de oferecer uma variedade cada vez maior de produtos a preços cada vez menores, a tendência é que o consumidor final não precise recorrer a um produto artesanal.” E avalia: “no futuro pouca gente vai preferir plantar cannabis em vez de comprar na farmácia.”
Fonte: Valor Econômico