09/10/2022
Uma das lideranças empresariais mais engajadas na questão ambiental, o empresário Guilherme Leal, co-fundador da Natura, sabe que as mudanças positivas na sociedade dependem da política. Tanto é assim que, em 2010, ele foi vice na chapa de Marina Silva à Presidência da República.
Em entrevista ao Estadão na sexta-feira, ele afirmou que esse envolvimento direto nas eleições ficou para trás, mas isso não quer dizer ficar isento politicamente, especialmente em um momento em que vê riscos à democracia com uma eventual reeleição de Jair Bolsonaro (PL): ?Eu acho que um segundo mandato (de Bolsonaro) é perigoso.? Diante dessa apreensão, Leal afirmou que seu voto é de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 30 de outubro, embora tenha críticas às gestões petistas no que se refere à condução da economia, especialmente no governo de Dilma Rousseff.
Ele também apontou a tendência do PT de ?olhar para trás? na hora de governar, mas vê uma oportunidade para o petista em um eventual novo mandato: ?Lula tem chance de ser um líder mundial na questão ambiental?. O empresário disse que o mundo espera que o Brasil retome o papel de liderança na agenda de preservação do planeta.
Ele afirmou que esse protagonismo do País nas discussões globais sobre o clima é nulo caso Bolsonaro seja reeleito e disse que, no exterior, a mudança de percepção sobre o Brasil é bastante clara: ?O País deixou de ser protagonista nos acordos climáticos para se tornar um pária (na questão ambiental)?.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Estamos em uma encruzilhada em relação à sustentabilidade?
Acho que tem uma oportunidade fantástica para o Brasil, mas o País deixou de ser protagonista nos acordos climáticos para se tornar um pária (na questão ambiental). Isso pode nos tirar do bonde da história.
Temos uma oportunidade única porque temos o melhor e mais importante capital natural do planeta. Podemos ser uma potência econômica, ambiental e agrária. Mas estamos em uma política totalmente contrária, de dilapidação do capital natural, uma apropriação por poucos que não gera prosperidade: garimpo, grilagem e desmatamento. É uma apropriação por poucos que gera pobreza e miséria para muitos.
Como mudar essa agenda?
Ainda em 2010 (quando Leal foi vice na chapa de Marina Silva), a gente já tentava colocar isso na agenda. Eu acho que os candidatos da época, Lula e José Serra, estavam olhando para trás naquele momento, embora tanto o governo do FHC quanto os governos do Lula tenham sido bons. Desde aquele momento já se tinha a ideia de olhar nosso patrimônio natural e investir em educação, que pode se transformar em ciência e tecnologia e, posteriormente, em riqueza a ser distribuída.
O sr. acha que a preocupação com o meio ambiente se reflete na sociedade?
O ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles foi eleito deputado federal, apesar da criticada gestão na pasta.
O que a gente vê nas pesquisas é que o brasileiro é majoritariamente contra o desmatamento. Mas então qual é o fenômeno que fez isso (a eleição de Salles) acontecer?
Acho que tem uma visão, em uma parcela relevante da população, de que ser a favor do agronegócio significa ser a favor do desmatamento. É uma visão equivocada.
Acho que o agronegócio e a conservação inteligente deveriam ser parceiros, pois é claro que a chuva que rega o agronegócio depende da integridade da Amazônia. Além disso, o trânsito do Brasil no comércio internacional depende de uma política responsável de meio ambiente.
Muitos empresários, inclusive sócios da Natura, votaram na Simone Tebet no primeiro turno. O sr. também foi de Tebet? Ela tinha essa visão de agronegócio e sustentabilidade?
Acho que sim. Entendo que a diversidade é muito importante, e acho que a Simone tem qualidades importantes de conciliação, de promoção do diálogo. Ela se comportou muito bem nos debates.
Mostrou sobriedade, inteligência e articulação. Acho que ela era uma opção bastante interessante. Nesse processo de aproximação, não existe consenso absoluto sobre nada, o que tem de se buscar é convergência, com diálogo inteligente, respeitoso e bem informado.
Voltando ao foco na sustentabilidade, sua escolha de voto é óbvia?
Eu acho que é. Já tomei a minha decisão, porque o governo atual não tem se mostrado, ao longo desses quatro anos, comprometido com a democracia e com o diálogo. Educação, que é outra base do que falo, nós tivemos quatro ministros, sendo que vários foram alvos de acusações. Na questão ambiental, (o governo) foi na contramão. Por mais que o negacionismo imperasse, os satélites mostram como disparou o desmatamento.
E o desmanche institucional do Ibama e de todos esses organismos que deveriam zelar pela preservação e pela aplicação das leis. Noventa por cento do desmatamento (no Brasil) é ilegal, isso está provado. A verdade é que esse governo desmanchou a estrutura que poderia fazer com que a lei fosse cumprida. A criminalidade hoje é um problema seriíssimo na Amazônia. Hoje realmente a situação está bem pior do que era cinco ou seis anos atrás.
Seu voto no Lula é convicto? Nos últimos dias alguns empresários declararam quase um voto envergonhado.
Não acho que meu voto seja envergonhado, mas espero que o Lula tenha aprendido com o passado. Ele é uma liderança política inquestionável, um dos maiores líderes políticos que nós tivemos na capacidade de comunicação com os eleitores.
Mas é óbvio que eu tenho enormes divergências com o Lula.
Espero que o Lula possa liderar um projeto de grande entendimento. Espero que ele tenha aprendido com as várias experiências não tão positivas do passado e que tenha uma visão de futuro. Ele tem a chance de ser o líder mundial na questão ambiental. O Brasil pode ser, de fato, um grande protagonista dessa próxima década no mundo. Em um mundo com Rússia e China de um lado e com a União Europeia militarizada, a América Latina, que é uma grande produtora de alimentos e de serviços ambientais, tem uma oportunidade única.
Então, o Lula pode se transformar em alguém que passa para a história, não pelo que ele fez, mas pelo que pode vir a fazer. Se ele não fizer por convicção, o fará por inteligência política. É algo que eu não acredito que possa acontecer com o atual presidente: tornar o Brasil o maior provedor de alimentos, de serviços ambientais e uma liderança na transição para a economia de baixo carbono.
O sr. falou que a democracia é outro pilar de sua visão política. Há risco para a democracia brasileira?
Vejo risco, sim. Mais de uma vez tive oportunidade de aderir a movimentos coletivos que demonstravam preocupação com o questionamento das eleições, com o ataque às instituições e aos Três Poderes. E me preocupa mais ainda um eventual segundo mandato do presidente Jair Bolsonaro. Os elementos (de controle desse risco) que se tinham no Congresso ficaram tremendamente fragilizados com os resultados da eleição de 2 de outubro. Este quadro então me deixa muito preocupado com relação à democracia.
Temos visto vários exemplos internacionais onde a democracia é erodida por dentro. Eu acho que um segundo mandato (de Bolsonaro) é perigoso.
Se existe esse risco à democracia, por que o empresariado resiste tanto a tomar um lado politicamente? Não posso deixar de tirar a responsabilidade do outro lado. O lulopetismo, em 16 anos, deixou muitas marcas ruins, como a Lava Jato. E essas marcas estão muito presentes, há muito antipetismo. E tem um conservadorismo na sociedade que é crescente. São posições que cada um tem o direito de ter, de ser mais ou menos progressista.
Se estiver dentro da democracia, tudo bem. O que preocupa é esse conservadorismo exacerbado, que leva a uma desconstrução da institucionalidade democrática.
O sr. circula internacionalmente, por causa da Natura. Mudou muito a imagem do Brasil lá fora?
Mudou muito. O Brasil já foi o país da Bossa Nova, de uma seleção de futebol maravilhosa que encantou o mundo, do jeito amável do brasileiro? Agora as pessoas criticam o presidente, dizem ?como vocês fazem isso?? ou ?vocês estão acabando com a Amazônia, tocando fogo em tudo?
Fonte: O Estado de S.Paulo
