O mercado parece se manter em um consenso de que o dólar mais fraco globalmente tem funcionado como uma “anestesia” que mantém os ativos domésticos em um ambiente mais positivo no curto prazo. Essa percepção foi notada por economistas de mercado que estiveram nas reuniões trimestrais com diretores do Banco Central nesta sexta-feira (27). Embora existam algumas diferenças pontuais de avaliação, o consenso das falas aponta para uma atividade econômica resiliente no Brasil; uma inflação um pouco mais benigna, mas que segue acima da meta; e uma política fiscal estimulativa, que continua a ser o principal problema do Brasil.
O Valor conversou com economistas que estiveram nos dois encontros que a autoridade monetária promoveu. No geral, os diretores do BC que participam desses encontros trimestrais pouco falam e tentam não dar pistas sobre eventuais passos na condução da política monetária. E, nos encontros desta sexta, houve algum consenso em torno da conjuntura, mas com avaliações divergentes sobre a gradação em determinados tópicos, além de discussões mais aprofundadas sobre crédito e sobre a questão fiscal.
Nos dois encontros, predominou a visão de um dólar mais fraco globalmente, o que seria positivo para o Brasil, ao se ter em vista a forte valorização do real observada neste ano. Houve, ainda, algum debate sobre a percepção de uma maior fragilidade institucional nos Estados Unidos, diante da possibilidade de o presidente Donald Trump indicar um “shadow chair” (“presidente sombra”, em tradução livre) para o Federal Reserve (Fed), a fim de pressionar o banco central americano por reduções nas taxas de juros.
Em um dos encontros, houve um questionamento sobre a extensão desse movimento positivo de dólar mais fraco e sobre a possibilidade de haver um cenário de maior aversão a risco caso haja uma piora muito forte na credibilidade institucional dos EUA. Além disso, nos dois encontros, economistas se perguntaram se a valorização do real deve continuar e, no geral, avaliaram que o ambiente é positivo.
Nas discussões sobre o ambiente local, há uma convergência para um cenário de atividade econômica mais forte. Nos dois encontros, as projeções para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ficaram em torno de 2,5%, na medida em que os analistas indicaram que as medidas fiscais devem continuar a ter impacto na expansão da atividade. De acordo com um dos participantes, embora a maioria dos cenários indique uma desaceleração da economia, a percepção é que a moderação esperada para o segundo semestre deve ser lenta. “Há uma ala minoritária com PIB perto de 2%”, diz.
Nesse tópico, em particular, chamou atenção na primeira reunião um debate sobre crédito, que se estendeu até o final do encontro e chegou a ultrapassar um pouco o limite de horário estipulado. De acordo com um dos participantes, alguns presentes disseram que havia a expectativa de que o crédito continuaria forte. Outros avaliaram que o efeito do consignado privado ainda não estava tão forte quanto o esperado e que os dados de maio mostraram alguma fraqueza no crédito.
Houve, ainda, um apontamento de um dos presentes de que os spreads de crédito não estavam abrindo muito, o que levou a pedidos para que o BC fizesse estudos sobre o assunto, na tentativa de haver maior clareza para o mercado sobre o tópico. Ainda na primeira reunião, houve quem apontasse para problemas operacionais como justificativa para o consignado privado se mostrar com efeitos mais lentos que os esperados pelos agentes, e o horizonte de julho como possibilidade de a nova modalidade engrenar com mais força.
No campo dos preços, houve algum debate na segunda reunião sobre os reflexos da atividade econômica mais resiliente na inflação, com a chance de os preços seguirem mais pressionados. Nos dois encontros, foi observado algum viés de queda nas projeções para o IPCA deste ano caso o câmbio siga em uma trajetória mais apreciada, ao mesmo tempo em que houve um reconhecimento de um quadro qualitativo melhor nos últimos dados divulgados.
Quanto às discussões sobre política monetária, houve alguns debates sobre se o Banco Central deveria ou não ter fechado a porta para novos ajustes na Selic. Alguns argumentaram que a autarquia poderia ter mantido um discurso mais aberto, com disposição para elevar os juros se necessário, para mostrar comprometimento com a ancoragem das expectativas. No entanto, houve quem apontasse que as expectativas estavam desancoradas devido à política fiscal. “Foi o velho debate de sempre”, comentou um economista ao Valor.
Ainda nesse contexto, é consensual a sensação de que a política fiscal continua a ser a principal pedra no sapato do Brasil. No primeiro encontro, houve quem apontasse que os investidores estrangeiros têm minimizado as questões fiscais domésticas por já estarem de olho nas eleições de 2026, diante da possibilidade de uma mudança de governo e de política econômica. Além disso, um dos presentes trouxe o assunto eleitoral de forma mais aberta, ao dizer esperar que a disputa de 2026 seja bastante apertada e ao avaliar que o mercado não deveria se animar tanto com as eleições devido a essa chance de ser um pleito bastante disputado.
De acordo com outra fonte, houve alguns apontamentos sobre a chance de uma mudança na meta de resultado primário de 2026, que, no momento, é de um superávit de 0,25% do PIB. Para alguns, é possível haver uma mudança já em agosto, enquanto outros defenderam que o governo pode querer levar a questão mais adiante e alterar a meta somente no fim do ano ou no próximo ano. “Mas há uma sensação geral de que a meta do ano que vem não será atingida”, diz.
Fonte: Valor Econômico

