Por Gabriel Caldeira — De São Paulo
17/07/2023 05h02 Atualizado há 5 horas
O dólar teve uma das semanas de maior depreciação em relação a moedas de outras economias desenvolvidas da história recente, puxado por dados de inflação nos Estados Unidos, que mostraram os preços mais próximos da meta de 2% do Federal Reserve (Fed). O índice DXY, que mede a variação do dólar ante uma cesta de seis moedas fortes, começou a semana passada ao redor dos 102 pontos e baixou para a casa dos 99 pontos, menor nível desde abril de 2022.
Principal fator para o desempenho fraco da divisa americana, a redução da inflação nos EUA apoiou o argumento de que o Fed poderá encerrar seu ciclo de aperto monetário em breve.
“Os mercados voltaram ao modo de baixa inflação e crescimento moderado”, disse o chefe de câmbio do banco de investimentos Jefferies, Brad Bechtel ao Valor. Ele se refere ao que é chamado no mercado de cenário “Goldilocks”, quando a economia não está tão aquecida nem fraca demais.
O analista, porém, questiona a percepção do mercado. Para Bechtel, a atividade nos EUA ainda está indo bem e o Fed, por ora, não deu sinal de que vai alterar a postura conservadora. Além disso, historicamente o dólar só costuma depreciar quando a economia americana tem desempenho pior que a de outros países desenvolvidos.
“Acho que muito do movimento [de queda do dólar] é temporário e provavelmente está chegando ao fim”, diz Bechtel. Para ele, no restante do ano, o DXY vai oscilar entre 100 e 105 pontos, e só tomará uma direção mais firme quando o mercado tiver clareza sobre a evolução da economia dos EUA.
O estrategista Alex Cohen, do Bank of America, também não enxerga fundamentos suficientes para sustentar o dólar mais fraco por muito tempo. “Também estamos pessimistas em relação ao dólar a longo prazo, mas sentimos que o mercado mais uma vez está se precipitando. Se a economia dos EUA continua tão forte, por que o Fed se apressaria em cortar os juros? Se o mercado de trabalho está tão apertado, como a inflação pode continuar caindo em direção à meta? Se os dados dos EUA estão muito melhores que o resto do mundo, como o dólar pode continuar enfraquecendo?”, questiona Cohen.
O estrategista do BofA se diz “particularmente cético” quanto ao recuo do dólar ante o iene. Para ele, qualquer mudança na política do Banco do Japão (BoJ) de controle dos juros deve ter efeito mínimo no câmbio. “Enquanto o BoJ seguir com a política monetária não convencional, é difícil para o iene sustentar alta”, diz Cohen, em nota.
Já Bechtel destaca a apreciação do euro e da libra como movimentos que “não fazem sentido”. Segundo ele, no atual cenário, em que a economia americana parece mais forte que as da zona do euro e do Reino Unido, não há justificativa no diferencial de juros ou na perspectiva para a política monetária que explique a força das moedas europeias.
Hoje, o mercado precifica entre duas e três altas adicionais de juros do Banco Central Europeu (BCE), o que deixaria a taxa básica da zona do euro entre 4% e 4,25%, abaixo da taxa terminal de 5,5% esperada para os EUA. Já no Reino Unido, o juro pode terminar o atual ciclo de aperto do Banco da Inglaterra (BoE) acima de 6%, conforme projeções recentes, dada a persistência da inflação no país. No entanto, a atratividade da libra está prejudicada desde a crise orçamentária do governo da ex-premiê Liz Truss, em setembro do ano passado, lembra o analista do Jefferies.
Para 2024, o cenário do dólar é ainda mais incerto, uma vez que depende de como a economia dos EUA e a atividade global como um todo vão evoluir. Assim, os estrategistas Alan Ruskin e George Saravelos, do Deutsche Bank, traçam alguns cenários para o dólar e identificam duas situações em que o dólar deve mostrar força contra as principais moedas globais.
Primeiro, há a chance de um “pouso forçado” tanto da economia global quanto dos EUA. Assim, a condição de reserva de segurança beneficiaria o dólar. Outro cenário positivo para a divisa seria o de resiliência tanto da atividade quanto da inflação nos EUA, em que o Fed estenderia o aperto monetário, com juros acima de 6%.
Fonte: Valor Econômico

