O acordo temporário de baixa tarifária entre os Estados Unidos e a China, anunciado ontem, tem dois efeitos diferentes para o Brasil, um bom e outro menos bom.
Quando Donald Trump impos contra a China tarifas proibitivas de 145%, cresceu a preocupação no governo e no setor privado no Brasil com o risco de desvio de mercadorias chinesas para o mercado brasileiro e aumentando pressão sobre a indústria nacional.
Ou seja, empresas chinesas precisavam buscar outros mercados para vender as centenas de bilhões de dólares de bens que não poderiam mais comercializar no mercado americano. E o Brasil, vale lembrar, já foi o país para o qual os chineses mais aumentaram percentualmente suas vendas no ano passado.
Ao mesmo tempo, a escalada de guerra EUA-China abriu perspectivas de setores brasileiros conseguirem vender para os EUA em espaços deixados por empresas chinesas que não conseguiriam mais exportar com as tarifas de 145%.
Agora, com o acordo temporário de 90 dias, os EUA baixaram as tarifas de 145% para 30%, e os chineses baixaram de 125% para 10% as alíquotas sobre produtos americanos.
Isso de um lado mitiga o risco de desvio de comércio de produtos chineses para o Brasil, já que com tarifa de novo de 30% Pequim pode sem dificuldades retomar suas vendas para os EUA.
De outro lado, diminui as perspectivas de vários setores brasileiros de ocupar algum espaço dos chineses nos EUA.
Ou seja, não dá para ganhar nas duas pontas.
Vale ver o caso do setor têxtil. Suas exportações para os EUA alcançaram US$ 68 milhões no ano passado, de um total de US$ 113 bilhões importados pelos americano – e desses, em torno de US$ 28 bilhões vieram da China.
Com o tarifaço proibitivo de 145% sobre a China, nos últimos 30 dias houve um aumento de consultas a empresas brasileiras, com potencial de negócios se ampliarem bilateralmente.
Se conseguisse por conta da guerra EUA-China dobrar as vendas texties para o mercado americano, já seria muito bom, nos cálculos de dirigentes do setor.
Mas agora, com o acordo temporário entre Washington e Pequim, Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Textil, reconhece que quanto mais as tarifas ficarem mais palatáveis para os chineses, mais essa oportunidade para o Brasil obviamente fica reduzida.
IO setor têxtil brasileiro atua mais em mercados de nicho, mas ainda assim a China tem vasto leque de produtos de muitos segmentos.
Pimentel diz que a Abit continua monitorando fortemente risco de desvio do comércio da China para o mercado brasileiro.
Um risco que, segundo fonte em Brasília, ainda não se materializou. Com tanta instabilidade causada pelo tarifário trumpiano, leva tempo para as empresas acertar com novos fornecedores, por exemplo.
Em todo o caso, um acordo completo EUA-China, que continuará em negociação, vai certamente ocorrer à custa de terceiros mercados. Isso incluindo no comércio de produtos agrícolas.
O governo brasileiro tem razão de se preocupar com o potencial de outros acordos bilaterais dos EUA também colocarem terceiros países em posição de desvantagem.
Fonte: Valor Econômico

