Por Liane Thedim — Do Rio
11/05/2023 05h02 Atualizado há 4 horas
Foi um “boom” em 2020: juros em patamares mínimos históricos (2% ao ano) e mais tempo em casa na quarentena para se informar e buscar alternativas levaram muitos brasileiros às plataformas digitais em busca de retornos maiores. Era o empurrão que faltava para uma massa de investidores chegar ao até então restrito segmento das gestoras de recursos independentes. A lua de mel foi fugaz. O vento começou a mudar já no ano seguinte e assim seguiu em 2022, com forte queda na captação principalmente de fundos multimercados e de ações.
Neste ano, somente até abril, a indústria amarga captação líquida negativa de R$ 118 bilhões. E, com a perspectiva de redução lenta e gradual dos juros de 13,75%, a fase ruim parece não ter hora para acabar. As assets – que, diante da onda de clientes, mudaram processos, criaram produtos específicos para o varejo e investiram em canais de comunicação direta com o cliente -, no entanto, não veem mais volta nesse caminho.
“É um pêndulo. É natural que diante da alta dos juros e das incertezas o investidor busque títulos isentos de Imposto de Renda, por exemplo, o que acabou levando a uma migração do dinheiro das plataformas para os grandes bancos novamente”, diz Pedro Rudge, fundador da Leblon Equities e diretor da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). “Mas a ponte não se quebrou, e não vamos voltar ao patamar anterior de predominância das grandes instituições financeiras.”
Em 2020, os fundos de ações tiveram captação líquida positiva de R$ 72,9 bilhões e os multimercados, R$ 103,9 bilhões, enquanto a tradicional renda fixa, queridinha dos brasileiros, amargou saída de R$ 37,3 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Em 2021, a situação já mudou significativamente, com o segmento de renda fixa fechando positivo em R$ 232,6 bilhões, e ações e multimercados ainda positivos mas bem menores: R$ 5,4 bilhões e R$ 68,5 bilhões respectivamente. E em 2022, o saldo já foi negativo em R$ 27,1 bilhões (ações) e R$ 86,3 bilhões (multimercados).
Marcio Verri, sócio e CEO da Kinea, fundada há 15 anos em sociedade com o Itaú, afirma que é um processo normal de educação, mas diz que as gestoras que conseguirem passar desse momento difícil vão se beneficiar novamente. “Os resgates estão sendo doloridos para muitas assets, que perderam bastante. Mas a maioria está saudável e conseguirá passar pela seca, mantendo talentos e capacidade de entregar uma boa perfomance.”
Ele lembra que quem assessorava o investidor antes era o gerente do banco, mas as plataformas (XP, BTG, Órama, Genial etc) desafiaram o modelo. “O investidor não aceita mais a conversa básica. Quando houver o retorno, quem tem o cliente é que vai capturar, e as plataformas estão fortíssimas”, diz o executivo.
E ainda há muito o que explorar no Brasil: Rudge, da Leblon Equities, lembra que ainda há grande parcela de recursos investidos na caderneta de poupança – o estoque é de R$ 967,5 bilhões, segundo o Banco Central -, o que representa um amplo campo de atuação.
Chegar ao consumidor final sozinhas é um desafio, dizem as assets. A Kinea, por exemplo, que tem R$ 76 bilhões sob gestão, sendo de 35% a 40% listados em plataformas, investiu em canais de comunicação direta com o cliente, via redes sociais, mas Verri admite que é um conteúdo mais consumido pelos assessores (os antigos agentes autônomos). “Adoraria que chegasse ao cliente, mas fica mais entre os agentes mesmo. Estamos buscando capacidade de comunicação para reter recursos”, afirma.
Fundada em julho de 2021, a Kínitro Capital perdeu a primeira onda das plataformas, mas de um ano para cá começou a investir no canal e em comunicação direta com o cliente, de olho na próxima. “Nosso desempenho no varejo vem sendo uma surpresa agradável. As plataformas são importantíssimas como motor de captação, o que pulveriza o passivo das gestoras”, diz Carlos Carvalho, diretor de gestão da asset. Para ele, uma nova geração de investidores, sem a cultura rentista, está avançando no país, com mais exposição a risco e visão de longo prazo.
Rudge, da Leblon, explica que as grandes assets não iam atrás do público de varejo por demandar força de vendas interna. “A estrutura das empresas é enxuta. Nas plataformas, com o agente autônomo como intermediário, o cliente liga para o assessor dele.” Ele ressalta que não foi só o investidor pessoa física que saiu dos fundos com renda variável, principalmente os multimercados e os de ações. “Family offices e fundos de pensão também estão migrando para os títulos isentos. É um cenário desafiador”, afirma.
Gestores que preferiram não se identificar, porém, apontam outra causa para a debandada: dizem que a atuação dos assessores de investimentos é responsável por uma parcela significativa dos saques vistos desde 2021. “População teve acesso a produtos sofisticados, mas não entendeu que não era renda fixa. Só que tem risco. Falta orientação do agente”, afirma um deles. Outro diretor de asset diz que há um conflito claro entre as recomendações e a comissão que o assessor recebe dos fundos. “Muitos dão prioridade que oferecem a maior remuneração.”
A Ártica Asset Management, que tem R$ 200 milhões sob gestão em seu fundo de ações Long Term criado há dez anos, optou por não ter acordo com plataformas. “É tentador ter um terceiro captando, mas é complicado. O cliente investe sem conhecer e, quando o mercado vira, seca tudo, o que inclusive aumenta a volatilidade. O cliente pula de galho em galho, sai na baixa. O assessor de investimentos ganha quando vai bem e não perde quando vai mal”, critica Ivan Barboza, gestor do fundo. Segundo ele, as plataformas, depois da forte alta dos juros, se tornaram um canhão para a renda fixa, “que é mais fácil de vender”.
Já André Miceli, professor e coordenador do MBA em marketing e inteligência de negócios digitais da Fundação Getulio Vargas, vê uma conjunção de fatores: falta de maturidade e educação financeira do investidor, busca por segurança natural em tempos de crise e falta de orientação correta de assessores. “Não dá para generalizar. A cultura rentista é alta no Brasil, pode ter sim influenciado nesse processo, mas a escolha pela renda fixa é natural neste momento”, analisa.
Para ele, a cultura vai mudando aos poucos. E lembra da resolução da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que entra em vigor em outubro e obriga o assessor a divulgar quanto recebe da instituição financeira. “É um passo importante para aumentar a transparência. Claro que é possível que ainda haja interferência nas recomendações, mas acima de tudo os investidores estarão cientes de que conflitos de interesse podem existir nesse tipo de negócio”, conclui.
Procurada pelo Valor, a Associação Brasileira dos Assessores de Investimentos (Abai), diz que “o termo de ciência do investidor, previsto na resolução 178 da Comissão de Valores (CVM) e as informações sobre remuneração e conflitos de interesse, que o intermediário deverá prestar aos seus clientes, conforme a resolução CVM 179, reforçam, entre outras medidas, a importância da relação entre os distribuidores e os assessores de investimentos com os seus clientes e estabelece ainda mais confiança entre as partes”. Para a Abai, a transparência, “prática que já é comum em muitos casos, trará mais clareza na forma de tratar a atividade e facilitará a gestão no dia a dia do assessor”.
Fonte: Valor Econômico
