Por Anaïs Fernandes — De São Paulo
13/04/2022 05h00 Atualizado há 2 horas
Ítalo Franca, do Santander: revisão para cima da inflação acabou eliminando parte do ganho deste ano — Foto: Divulgação
1 de 2 Ítalo Franca, do Santander: revisão para cima da inflação acabou eliminando parte do ganho deste ano — Foto: Divulgação
Ítalo Franca, do Santander: revisão para cima da inflação acabou eliminando parte do ganho deste ano — Foto: Divulgação
A disparada da inflação deve praticamente anular a tentativa do governo de oferecer sustentação à renda das famílias e, consequentemente, ao consumo com medidas de estímulo fiscal como a liberação de recursos do FGTS a partir deste mês, aponta um estudo do Santander.
Os economistas Gabriel Couto e Ítalo Franca estimam que os saques – até R$ 1 mil por trabalhador, podendo somar de R$ 25 bilhões a R$ 30 bilhões – adicionarão, em 2022, 0,6 ponto percentual ao crescimento da massa salarial real ampliada, que engloba salários, benefícios previdenciários e transferências federais. Ainda assim, a projeção de variação para esses rendimentos totais praticamente não mudou entre o relatório de outubro e o publicado hoje pelo banco: passou de 3,3% para 3,2%, após tombo de 8% em 2021.
Isso ocorreu porque o aumento da projeção de inflação de 6% para 7,9% compensou o ganho esperado com os saques, explicam Couto e Franca. A inflação mais alta reduz o crescimento real da renda média. Isso já é observado. Ao mesmo tempo em que a população ocupada tem crescido até acima do esperado, a renda real do trabalho atingiu mínimas históricas, sentindo o choque inflacionário mais persistente, além de salários de entrada mais baixos para quem retorna ao mercado de trabalho, aponta Couto.
“Tivemos surpresas inflacionárias consideráveis nos últimos meses e isso impacta diretamente a renda real. O grande ponto que podemos tirar dessa atualização é que, mesmo com a liberação de recursos do FGTS que passamos a incluir, a piora do quadro inflacionário corroeu essa renda”, afirma o economista.
Embora os estímulos fiscais tenham papel importante, reconhecem Couto e Franca, o impacto da inflação na renda total da economia é maior. Por exemplo: o crescimento projetado de 3,2% para a massa ampliada neste ano contempla estímulos fiscais, saques do FGTS e o IPCA de 7,9%. Neste caso, o crescimento real da renda média é de 0,4%. “Já é bem modesto, principalmente quando a gente olha para o que aconteceu com a renda média no ano passado, quando teve queda de mais de 4%”, lembra Couto.
Se apenas a previsão de inflação subir para 9%, o comportamento da renda média real passaria a ser de queda, reduzindo o crescimento da massa ampliada para 2,5%. Caso o IPCA seja mantido em 7,9%, mas o cenário deixe de contemplar saques do FGTS, também haveria redução no avanço da massa ampliada, mas a perda seria um pouco menor, com crescimento de 2,8%.
O crescimento da massa salarial ampliada neste ano vem, segundo o relatório, da recuperação do mercado de trabalho, da ampliação do Bolsa Família/Auxílio Brasil (de R$ 35 bilhões para R$ 89 bilhões) e do reajuste dos benefícios previdenciários pela inflação, que fechou 2021 em dois dígitos.
Franca chama a atenção para o efeito descasado de uma inflação mais alta sobre a massa salarial expandida. “Para o valor do ano, acaba diminuindo. Quanto mais alto for [o índice de preços], mais você deflaciona por um número maior, mais corrói essa renda que já está dada – o salário mínimo e os valores dos benefícios estão fixados. Acaba levando um valor de correção maior para o salário mínimo no ano que vem, porém, esse aumento só vai ser observado se a inflação convergir para a meta. A gente acabou perdendo um pouco do ganho deste ano porque estamos revisando a inflação para cima.”
Em relação a 2023 e 2024, as estimativas do Santander para o crescimento dos rendimentos expandidos são menores, com altas de 1% e 1,8%, respectivamente. As previsões consideram um IPCA de 4% no próximo ano e de 3% em 2023. No cenário de inflação alta do Santander (com um índice de preços de 5% em 2023 e de 4% em 2024), a massa salarial real expandida recuaria 1% no ano que vem e cresceria apenas 0,4% em 2024.
Se as previsões do cenário-base do Santander se confirmarem, a massa salarial real total atingirá os níveis de 2019 apenas em 2024. “Conforme as pessoas que estão entrando no mercado de trabalho demorem a retomar o nível salarial pré-pandemia e a inflação continue em níveis um pouco mais incômodos, a gente imagina que essa retomada do rendimento médio seja um pouco mais vagarosa, por mais que a gente já tenha recupera os níveis de ocupação pré-covid”, diz Couto.
Segundo os economistas do Santander, as projeções para os rendimentos totais são consistentes com as perspectivas de uma atividade econômica em que o consumo das famílias avança 0,8% em 2022, permanece estável em 2023 e cresce 1,5% em 2024.
“Nosso cenário para consumo se mantém, até porque a nossa projeção de PIB está estável há bastante tempo em 0,7% para 2022. O cenário ainda é de um consumo com alguma resiliência, pautado não só no crescimento estimado da massa salarial ampliada, mas também em algo remanescente do processo de abertura da economia que ainda deve participar desse crescimento ao longo de 2022, principalmente agora no primeiro semestre”, afirma Couto.
O Santander estima que a elasticidade de longo prazo entre a massa salarial real e o consumo das famílias é próxima de 1,05 – ou seja, cada aumento de 1% dessa massa eleva o consumo em 1,05%. Durante a pandemia, observam os economistas, essa elasticidade chegou a saltar para além de 1,5, o que provavelmente ajudou na recuperação da atividade em 2021. Para os próximos períodos, no entanto, ela deve retornar a níveis mais próximos de seus valores pré-covid (cerca de 1), dizem.
“A implementação da vacinação foi crucial na recuperação da atividade doméstica e no aumento da mobilidade social; agora, acreditamos que o foco será na convergência da inflação”, conclui o relatório.
Fonte: Valor Econômico