Em evento em Nova York organizado pelo Pacto Global da ONU no Brasil, CEOs, especialistas e executivas discorrem sobre ações para promover pautas femininas
PorNaiara Bertão
Prática ESG (*) — Nova York, EUA
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“Não adianta as mulheres terem espaço na sala, mas elas têm de ser ouvidas e participar da tomada de decisão”. Com essa frase, a CEO do Pacto Global da ONU, Sanda Ojiambo, resumiu um dos principais desafios hoje de mulheres: ocupar as cadeiras de liderança na política, nas empresas, nos governos e nas entidades não-governamentais que ditam as mudanças na sociedade. “Precisamos desafiar a desigualdade de pagamentos (pay gap) e diferença de representatividade nas empresas”, adiciona, durante evento promovido pelo Pacto Global da ONU no Brasil em Nova York (EUA) nesta quarta-feira (13) durante a 68º Comissão sobre a Situação da Mulher (CSW), principal evento de empoderamento feminino e igualdade de gênero das Nações Unidas.
Ela comenta que o direcionamento de dinheiro – público e privado – para combater a desigualdade de gênero “faz diferença” e lembra que o Pacto lançou na semana passada uma plataforma para discutir direcionamento de recursos para a agenda de gênero. “Já avançamos, mas temos que fazer mais.”
Daniela Grelin, coordenadora de projetos no Instituto Avon, lembra que, na “policrise” pela qual o mundo passa, as mulheres são desproporcionalmente afetadas “e não se vê nos esforços de resgatar as mulheres e o tecido social”. Ela cita que apenas 0,2% de todos os recursos destinados ao desenvolvimento e assistência no mundo são, por exemplo, canalizados para o controle, mitigação e reparo da violência, um importante tópico, uma vez que a taxa de violência contra a mulher é alta.
“As mulheres ainda são desproporcionalmente afetadas pela violência, mas são preteridas nas distribuições dos recursos e na decisão sobre como os recursos são alocados”, diz a executiva, no mesmo evento.
Para ela, esse desequilíbrio na distribuição de poder tem a ver com a própria forma como a sociedade funciona: na base da competição. “Aprendemos a trabalhar numa lógica de competição. O setor privado na arena de competição pelo dinheiro e, no setor público, pelo poder. E sobre pouca energia para a colaboração”, diz.
Ela defende investimentos em bases estatísticas para guiar as políticas públicas e privadas e cita o Mapa Nacional da Violência de Gênero, painel interativo de dados da violência contra a mulher, elaborado pelo Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal juntamente com o Instituto Avon e a Organização Social Gênero e Número, um projeto que levou dois anos para ficar pronto.
“Integramos dados do poder legislativo, judiciário e de outras fontes para orientar políticas públicas nacionais, e servir de base de argumentação para gestoras públicas que são preteridas na luta pelo orçamento por falta de dados para justificar seus pedidos”, diz.
Empreendedorismo
É quase impossível, segundo as painelistas, falar sobre empoderamento feminino sem esbarrar no empreendedorismo.
Ana Fontes, fundadora da Rede e do Instituto Mulher Empreendedora e membro do W20, grupo independente e internacional de mulheres para discutir pautas de gênero para as maiores economias do mundo, alerta que o desafio de colocar as mulheres nos espaços de poder tem consequências.
“Temos 85% de homens brancos na política decidindo sobre o combate a violência doméstica, feminicídios, saúde da mulher, e outros assuntos que afetam diretamente nossa vida”, traz. Também cita que a independência financeira é um tema importante para combater a violência doméstica.
“O foco da Rede é a geração de renda porque quando a mulher tem dinheiro, sua situação muda. Quando uma mulher gera o próprio dinheiro, ela se movimenta para sair da relação de violência”, diz. Para Fontes, só vamos mudar o jogo quando as mulheres “mudarem o território do dinheiro e normalizamos as conversas de dinheiro no ambiente feminino também.”
Fontes conta que a organização já direcionou a título de doação R$ 40 milhões nos últimos cinco anos a mais de 45 mil mulheres. As microdoações, de R$ 1 mil a R$ 5 mil, são direcionadas a mulheres em situação de vulnerabilidade social. Outro programa é o Ela Pode, programa em parceria com o Google, que já doou a 2 mil mulheres do Norte e Nordeste. “A transformação social que acontece com a doação desse dinheiro deveria ser política pública, porque um recurso pode mudar a vida da mulher, dos filhos, da família, da comunidade do entorno e aumentar o impacto social”, aponta Fontes.
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A executiva vê também necessidade de intenção e ações propositivas para o ponteiro girar mais rápido e as mulheres não precisarem esperar 131 anos para eliminar a desigualdade (gap) entre gêneros, como calcula o Fórum Econômico Mundial. Ela conta que o W20 está desenhando uma proposta de cinco prioridades para o G20 avançar na agenda feminina, aproveitando que este ano a liderança do grupo é brasileira.
Os temas elencados e que devem ser apresentados na cúpula das maiores economias do mundo (G20) em novembro são: Mulheres empreendedoras e acesso à capital, justiça climática e gênero, economia do cuidado e promoção de mulheres em áreas STEM (Ciência, Estatística, Engenharia e Matemática). “Outra inovação é que para esses cinco temas, nós vamos colocar a questão transversal de raça e etnia. As desigualdades atingem as pessoas de formas diferentes e precisamos olhar para isso é fundamental”, diz Fontes.
No tema de empreendedorismo, plataformas como o Youtube são fontes importantes de independência financeira para mulheres. “Provemos a democratização da informação, a exposição das histórias, e habilitamos mulheres a ganhar dinheiro. O poder de independência é extremamente importante”, comenta Tara Walpert, vice-presidente do Youtube para Américas.
Ela conta que o fato de por muitos anos o Youtube ter tido uma CEO mulher e diretoras e vice-presidentes, também ajuda a criar ferramentas para promover diversidade. Ela conta que são mais de 150 mil empregos em período integral no Brasil gerados a partir dos trabalhos no canal. “Nossa pesquisa mostra que nove em 10 mulheres disseram ter muito mais oportunidades de serem ouvidas e inspirar novas gerações”, comenta.
Lucro e impacto social caminham juntos
Tarciana Medeiros, presidente do Banco do Brasil também acredita na intencionalidade e ações propositivas para acelerar o ritmo de mudanças. Ela explicou em sua fala sobre as ações que o banco está fazendo para promover a igualdade de gênero internamente e inclusão financeira de brasileiras. Dentro de casa, foi constituído um conselho de administração metade feminino e com representantes negros e LGBTQIAP+ e tem três vice-presidentes mulheres em áreas estratégicas, “que fazem o banco funcionar todos os dias”, diz – Varejo, BackOfiice e Tecnologia.
O banco também investiu nos últimos anos em capacitar mais mulheres para ascender a cargos mais altos na instituição. “De que adianta colocar metas de mulheres na liderança se eu não tiver gente preparada para assumir os cargos?”, provoca a executiva que é a primeira presidente mulher da história bicentenária do Banco do Brasil. E também investiu em processos seletivos com esse viés, preferindo mulheres quando concorrerem com pares homens com a mesma qualificação.
Conta que o programa interno de formação de novos líderes aprovou 67 pessoas, sendo 34 mulheres. “Neste período, tivemos nomeações de altos executivos, e 17 são mulheres. É um número importante porque cascateia em outras instâncias e prolifera”, diz. Para ela, mais mulheres em diversos níveis hierárquicos puxam outras mulheres, ampliando a participação feminina.
Da porta para fora, conta que lançou um ano atrás, em 8 de março de 2023, uma plataforma para mulheres que querem empreender com conteúdos sobre saúde, segurança e capacitação. “Uma mulher inclusa financeiramente não é só quem recebe o crédito. O acesso à plataforma para obter crédito é só o primeiro contato. Mostramos quais linhas de crédito são melhores para elas tomarem, outros produtos financeiros, falamos de saúde, temos cursos e consultas para fazerem exames periódicos, orientação de pré-natal e uma série de outras informações concentradas em um só lugar e acessadas de forma simples”, conta Medeiros. “Temos linha de crédito com meio bilhão de reais aprovados para empresas lideradas por mulheres, mas nosso maior desafio é fazer essa informação chegar a quem precisa.
Ela também comenta que está sendo implementado um projeto piloto de uma agência bancária do Banco do Brasil em parceria com o Sebrae e Junta Comercial para ter um “Ponto BB”, como deve ser chamado o ponto de apoio para microempreendedores terem diversos serviços e informações para abrirem ou melhorarem seus negócios em um só lugar. “Para mulheres trans, por exemplo, serem incluídas financeiramente, precisamos levar formalização dos negócios e capacitação para ela se desenvolver no ambiente em que está”, diz a presidente do Banco do Brasil.
Em 2023, conta Tarciana Medeiros, o Banco do Brasil emprestou cerca de R$ 92 bilhões a 292 mil microempresas e a 182 mil empresas com crédito diferenciado, que empregam mais de 500 mil empregos. “As ações precisam de intencionalidade para reduzir distâncias.”
A instituição colocou também cláusulas de diversidade em editais de contratação de fornecedores, e está mapeando dados de gênero e raça na hora da renovação do contrato. Também pede que fornecedores sigam a lei que determina pagamento de salários iguais a homens e mulheres que exercem a mesma função. “Entendemos que é possível trabalhar, dar resultado comercial, mas ter atuação social, ESG”, reforça Medeiros.
Em empregabilidade, foi feita parceria com o Ministério da Igualdade Racial para inclusão e desenvolvimento de jovens negros como menores aprendizes – muitos contratados pelo próprio banco – e a assinatura de termo de cooperação com o Conselho Nacional de Justiça no programa Novos Caminhos, de capacitação, formação, geração de renda e acesso ao mercado de trabalho para jovens órfãos que, quando atingem a maioriadade, têm dificuldade de conseguir bons empregos.
Por fim, Medeiros cita dentro das iniciativas de diversidade com foco em empoderamento financeiro o lançamento no ano passado com o Tesouro Nacional do título público Educa+, que permite que a partir de R$ 30 em investimento as mulheres tenham acesso a um seguro que auxilia mães solo.
O banco é signatário de alguns movimentos da Ambição 2030 do Pacto Global da ONU no Brasil: o Elas Lideram, de igualdade de gênero em cargos de liderança, o “Raça é Prioridade”, de equidade racial, e o “Salário Digno”. “Mais do que falar, é dar exemplo. No momento em que se compromete com metas claras, faz a bola girar”, finaliza Medeiros.
(*) A jornalista viajou a convite do Pacto Global da ONU no Brasil
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Fonte: Valor Econômico