A discrepância entre as posturas das autoridades monetárias da América Latina, inclusive, foi um dos motivos para a quebra de sincronia entre as moedas, observada na primeira metade do ano, quando as divisas mais líquidas da região anotaram valorização ante o dólar. Se, até junho, a moeda americana acumulava no ano queda de 5,5% a 14% em relação ao real e aos pesos chileno, mexicano e colombiano, agora o dólar acumula, até o fim de setembro, apreciação superior a 5% contra a divisa do Chile, enquanto recua 16% contra o peso colombiano.
Essa quebra passou a ser observada com atenção principalmente após a disparada dos juros americanos. Ainda que não seja uma razão única que explique a abertura da curva de juros nos EUA, a perspectiva de que as taxas ficarão altas por mais tempo tem pesado mais. O chefe da mesa de câmbio do Itaú Unibanco, Ronie Germiniani, aponta que o fato de o Fed não indicar que vai cortar juros ou que eventualmente pode até subir mais uma vez é motivo para as divisas da América Latina performem mal.
“O que vai diferenciar uma divisa da outra neste momento são seus fatores idiossincráticos. E o fator característico principal das moedas são os juros. Por isso, o mais importante agora é observar qual banco central está mais adiantado em cortar juros e qual está mais atrasado”, diz.
O BC colombiano manteve suas taxas inalteradas em 13,25% na última semana, enquanto a autoridade do México também não mudou sua taxa básica, de 11,25%. Já o Banco Central no Brasil iniciou o afrouxamento da política monetária diminuindo duas vezes a Selic, no total de 1 ponto percentual, a colocando em 12,75%. O BC do Chile, por sua vez, deu início ao seu processo de flexibilização reduzindo seus juros em 1,75 ponto percentual nas suas últimas reuniões, deixando as taxas em 9,5%.
Germiniani observa que o comportamento mais prematuro ou mais tardio dos bancos centrais do Chile e da Colômbia resultou em um descolamento mais forte das moedas em relação aos seus pares, apresentando a pior e a melhor performance frente ao dólar, respectivamente. “O banco central chileno iniciou seu corte de juros de forma mais agressiva e, por isso, vemos a moeda do Chile como a que mais sofre”, diz. “Já o peso colombiano está valorizando mais do que os pares porque o BC da Colômbia está atrasado. Por lá, não há corte de juros pois a inflação está alta.”
No caso específico do Brasil, o gestor de moedas do Opportunity Total, Valter Unterberger, diz que a comunicação e a postura do Banco Central foram muito importantes para que o câmbio não fosse contaminado pelo processo de flexibilização. “Como o mercado estava dividido em relação ao primeiro corte, se seria de 0,25 ou 0,50 ponto percentual, quando o BC optou por uma redução inicial mais forte, o mercado, após a decisão, chegou a precificar uma aceleração, de 0,75”, explica. “Mas na reunião seguinte o BC colocou que 0,50 ponto seria o passo, não deixando o mercado correr na frente”, diz.
Tal cautela não foi observada no caso do Chile. Unterberger lembra que houve uma surpresa com o corte de 1 ponto percentual e depois a moeda seguiu um processo de desvalorização frente ao dólar. “Por conta disso, na decisão seguinte, o BC optou por uma redução menor, de 0,75 ponto. O problema de você começar cortes de juros com 1 ponto e depois cair para 0,75 é que você deixa uma mensagem clara de que errou a mão.”
Para além da política monetárias, Germiniani, do Itaú, ressalta a relevância de outros fatores idiossincráticos dos países, como o desempenho econômico, os respectivos cenários políticos e a questão fiscal. Sobre este último, ainda que haja ruídos no Brasil, ele diz não ver as incertezas contaminando o câmbio.
Se ainda não estão se refletindo no câmbio, essas incertezas fiscais podem vir a pesar logo. Em relatório a clientes, a Bradesco Asset Management (Bram) aponta que, desde 2004, toda vez que houve queda do diferencial de juros entre Brasil e EUA, o comportamento da taxa de câmbio passou a depender mais de medidas de risco país, como o Credit Default Swaps (CDS, prêmio de juros dos títulos públicos emitidos em dólar no mercado externo). Por isso, “o comportamento da política fiscal passa a ser ainda mais relevante para que a taxa de câmbio suporte a queda do diferencial de taxa de juros”.
Ainda segundo o documento organizado pelo economista-chefe da Bram, Marcelo Toledo, e sua equipe, hoje há amortecedores importantes para a contenção dos efeitos de redução desse diferencial. Entre eles está o nível real da taxa de câmbio, que permanece depreciado historicamente; e as contas externas, que estão em nível sustentável, com déficit em conta corrente ao redor de 2% do PIB. Os economistas alertam, porém, que “uma depreciação inesperada e intensa do real poderia levar a uma interrupção antecipada da redução da taxa de juros”.
Fonte: Valor Econômico
