Embora não existam evidências concretas de uma migração em larga escala dos investidores globais para longe dos títulos do Tesouro americano, o Deutsche Bank chama atenção para um dado que pode indicar o início de um movimento relevante. No relatório semanal H.4.1 do Federal Reserve, as posições em custódia de Treasuries dos EUA detidas por bancos centrais estrangeiros recuaram em 11 das últimas 14 semanas — atingindo na semana passada o nível mais baixo em mais de 13 anos.
Segundo os estrategistas do banco alemão, as saídas começaram em abril – mês marcado pelo anúncio das tarifas de Donald Trump a seus parceiros comerciais – e aceleraram em agosto, após a postura mais branda do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, no simpósio de Jackson Hole.
“Importante notar que essa última movimentação ocorre em meio à disparada do ouro, sugerindo uma possível conexão — como um ou mais bancos centrais estrangeiros realocando suas reservas de Treasuries em ouro”, escrevem os profissionais de pesquisa econômica do Deutsche.
Segundo eles, nem todos os bancos centrais utilizam o serviço de custódia do Fed para seus Treasuries, e mesmo os que o fazem podem manter apenas parte de suas posições lá. Assim, os dados refletem apenas uma fração da atividade oficial estrangeira.
“Ainda assim, as movimentações nas custódias do Fed historicamente acompanham as variações nos dados da TIC [Treasury International Capital] sobre as posições oficiais estrangeiras em Treasuries. A próxima divulgação do relatório TIC pode confirmar a queda observada nas custódias do Fed em agosto — e talvez até indicar quais países reduziram suas posições. Infelizmente, as publicações do TIC estão suspensas até o fim do ‘shutdown’ do governo”, apontam.
Na visão dos profissionais, sinais no mercado de títulos de uma aposta no ‘debasement trade” provavelmente incluiriam uma acentuada inclinação da curva de juros, puxada por altas nos rendimentos dos Treasuries de longo prazo, à medida que o prêmio a termo dos títulos aumentasse. Além disso, as expectativas de inflação implícitas nas TIPS [Treasury Inflation Protected Securities, – as NTN-Bs dos Estados Unidos] de longo prazo também subiriam a partir dos níveis atuais. “O mercado ainda oferece poucas evidências de uma aposta consistente nesse tipo de ‘debasement trade”, apontam.
Ainda assim, segundo os profissionais, o risco de tal cenário justifica considerar possíveis respostas de política econômica. “O Tesouro, por exemplo, poderia recorrer a instrumentos mais agressivos de gestão da dívida, ampliando recompras e reduzindo a emissão de papéis longos para estabilizar a parte longa da curva. Também é concebível uma intervenção do Fed, seja por preocupações com estabilidade financeira, seja por pressões políticas”, concluem os estrategistas da instituição financeira.
Fonte: Valor Econômico
