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Um início de ano que vinha sendo marcado por números resilientes e boas perspectivas, mas que acabou tomado pelas incertezas locais e pela turbulência global com o conflito no Oriente Médio entre os Estados Unidos e o Irã.
Esse é o cenário desenhado pelos números do primeiro trimestre divulgados pelas empresas não financeiras e pelo tom dado por executivos nas teleconferências para comentar os resultados.
Os dados compilados pelo Valor Data de 342 companhias de capital aberto mostram que o lucro durante o primeiro trimestre caiu 4,2% na comparação anual, para R$ 46,3 bilhões, enquanto as receitas chegaram a R$ 877,8 bilhões, aumento de 5% sobre o mesmo período de 2025. A inflação média no período ficou perto de 4,14% ao ano.
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Os números mostram o impacto dos juros altos na contas das empresas, dado que a taxa Selic em 14,25% ao fim do primeiro trimestre de 2025 subiu para 14,75% ao fim de março deste ano. Olhando apenas o resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda), houve alta de 5,2%, para R$ 171,3 bilhões.
Para analistas ouvidos pelo Valor, os resultados do primeiro trimestre poderiam ser considerados neutros, embora com sinais claros de deterioração. Essa desaceleração fica evidente quando comparado o crescimento anual de 14% nas receitas que as companhias tiveram nos três primeiros meses de 2025 sobre igual período do ano anterior, como mostram os dados do Valor Data.
Ricardo Peretti, estrategista do Santander, diz que, embora tenha havido crescimento nas métricas de desempenho, o ímpeto visto no fim de 2025 e início deste ano arrefeceu. “A sensação é que a disparada do petróleo, por conta da guerra no Irã, teve impacto no último mês, principalmente nas linhas de frete e custos de matéria-primas”, diz. “Se eu fosse classificar a temporada, diria que ela foi neutra, os números não vieram muito longe do que esperávamos.”
“Entramos no ano com uma confiança na trajetória de queda de juros e a guerra meio que atrapalhou isso, tivemos uma temporada do quarto trimestre positiva e agora claramente deu uma piorada”, explica Daniel Gewehr, estrategista-chefe do Itaú BBA. “Tivemos mais empresas mostrando resultado abaixo do esperado do que o contrário.”
Carlos Eduardo Sequeira, chefe de pesquisa do BTG Pactual, corrobora a visão de resultados “mais para fracos”, mas ressalta que o setor de commodities e as injeções de estímulos governamentais funcionaram como importantes amortecedores para evitar um desempenho pior consolidado.
O ponto de inflexão foi a disparada dos preços dos combustíveis e fretes, impulsionada pelo conflito no Oriente Médio, sentido com maior intensidade em março, gerando uma preocupação generalizada sobre a capacidade das empresas de repassar esses custos ao consumidor final.
Nas teleconferências, o discurso dos executivos, que influenciou o diagnóstico dos analistas, indicou que não há espaço para erros e mudança de foco. A palavra de ordem é “preservação de margens” e “desalavancagem” em meio ao atual cenário geopolítico internacional e incertezas domésticas.
Empresas como CSN e Gerdau reiteraram a prioridade na redução do endividamento, com as companhias esperando que medidas de defesa comercial ajudem a mitigar a pressão de importados, enquanto a Vale mantém a aposta na flexibilidade e resiliência de seu portfólio de mineração para enfrentar a volatilidade global.
A PetrobrasCotação de Petrobras e a WEG também compartilharam a tônica de eficiência. Enquanto a estatal foca na maximização de retornos e disciplina de capital diante da volatilidade do Brent, a WEG sustenta uma visão positiva baseada na carteira robusta, mesmo estando atenta às pressões inflacionárias que impactam a cadeia produtiva.
Olhando para o setor doméstico, a avaliação dos analistas é que houve uma desaceleração nos resultados em linha com a menor atividade econômica do período, impactada por menor consumo e um acesso ao crédito bastante limitado por conta dos juros altos.
No setor de varejo, a C&A, após um ajuste no sortimento no fim de 2025, entende que o foco agora é a precisão na estratégia para evitar estoques excessivos. Já o grupo Casas Bahia reforçou que o objetivo é a monetização do ecossistema e uma política de crédito rigorosa.
Empresas ligadas ao consumo de alta renda, mais resilientes, como a joalheria Vivara, buscam proteger suas margens através do poder de suas marcas e da internalização de processos produtivos, visando manter o patamar de rentabilidade para driblar os efeitos da alta nos custos.
O consenso entre analistas e executivos é de que o segundo trimestre será de ajustes, uma vez que o impacto dos custos de combustíveis e fretes, que veio apenas no fim do primeiro trimestre, terá seu efeito cheio sentido agora.
O preço médio do barril do Brent, que foi de US$ 74,90 no fim do primeiro trimestre de 2025, para US$ 78,38 ao fim de março e está acima de US$ 100 até o momento neste segundo trimestre, trará efeitos positivos para exportadoras, como PetrobrasCotação de Petrobras e Prio, mas vai aumentar custos de forma generalizada para empresas domésticas.
“Os principais temas seguem concentrados nas perspectivas para a demanda, na evolução da inadimplência e na capacidade das empresas de preservar margem de lucro em um cenário desafiador”, diz David Beker, chefe de economia para Brasil e de estratégia para América Latina do Bank of America (BofA). Sequeira, do BTG, acredita, no entanto, que estímulos governamentais ao consumo podem evitar a estagnação total. “O governo está injetando muitos recursos na economia para estimular o consumo em várias áreas, e quando implementados, vai ter impacto positivo na economia doméstica.”
Um ponto de atenção para os investidores é a mudança no fluxo de capital estrangeiro. Após um início de ano intenso, em que o Brasil foi visto como um “porto seguro” e foi alvo de uma entrada massiva de recursos, houve uma rotação para outros mercados emergentes, notadamente a Ásia.
Fonte: Valor Econômico