Os EUA advertiram ontem Israel para que tome “ações urgentes e sustentadas” para melhorar a terrível situação humanitária na Faixa de Gaza em 30 dias ou a ajuda militar de Washington pode estar em risco. Em um raro ultimato público ao governo do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, a mensagem chega pouco depois de militares israelenses admitirem que seus estoques de projéteis de defesa estão nos níveis mais baixos desde o início da guerra, há um ano.
Ao mesmo tempo, em outra concessão a Washington, os militares israelenses se comprometeram a limitar sua retaliação ao Irã — pelos ataques de mísseis contra o território israelense no dia 1 — a bases militares, segundo funcionários americanos. A Casa Branca vinha há dias tentando dissuadir Israel de um plano de atacar instalações nucleares e petrolíferas iranianas, o que eventualmente causaria tensão no mercado internacional de petróleo.
Na carta enviada às principais autoridades israelenses e assinada por dois secretários dos EUA — o da Defesa, Lloyd Austin, e o de Estado, Antony Blinken —, Washington delineou uma série de medidas que o governo de Joe Biden espera que Israel tome no próximo mês para reverter a deterioração das condições humanitárias na Faixa de Gaza. Blinken e Austin acrescentaram que o “fracasso” em tomar medidas para implementar suas demandas poderia ter “implicações” para a política e a lei dos EUA que regem a ajuda militar.
Para alguns analistas, a dependência de Israel dos mísseis interceptadores americanos tem ajudado a Casa Branca no esforço diplomático para dobrar as posições de Netanyahu que pareciam inflexíveis até a semana passada. Os EUA tentam ajudar a fechar essas brechas no arsenal iraniano e querem enviar uma bateria de mísseis antimísseis Terminal High-Altitude Area Defense (Thaad).
“O problema dos baixos estoques de munição de Israel é sério”, disse Dana Stroul, ex-encarregada sênior de defesa dos EUA para o Oriente Médio. “Se o Irã responder a um ataque israelense com uma campanha aérea maciça, e o Hezbollah também participar, as defesas aéreas de Israel ficarão sobrecarregadas”, disse, destacando que os estoques dos EUA não são ilimitados. “Os EUA não podem continuar abastecendo a Ucrânia e Israel no mesmo ritmo. Estamos chegando a um ponto crítico.”
Boaz Levy, diretor-executivo da Israel Aerospace Industries, empresa estatal que fabrica os interceptores Arrow usados para derrubar mísseis balísticos, disse que a produção opera em três turnos para atender às demandas.
“Algumas de nossas linhas estão funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana. Nosso objetivo é cumprir com o atendimento a todas essas demandas”, disse Levy, acrescentando que fabricar interceptores não é “uma questão de dias”. Embora Israel não revele o tamanho de seus estoques, ele ressaltou: “Não é segredo que precisamos reabastecê-los.”
Enquanto isso, na frente norte, o exército de Israel já teria ordenado a pessoas que vivem em mais de um quarto do Líbano fujam, de acordo com cálculos da ONU. A Agência das Nações Unidas para Refugiados, Acnur, divulgou a estimativa ontem, um dia após militares israelenses alertarem os civis para esvaziarem outras 18 aldeias no sul do Líbano.
Mais de 1 milhão de pessoas deixaram suas casas no Líbano em menos de um mês, de acordo com o governo, um dramático movimento forçado da população em um país de apenas 5 milhões de habitantes.
Rema Jamous Imseis, diretora do Acnur para o Oriente Médio, disse a jornalistas em Genebra que “mais de 25% do Líbano estão sob uma ordem direta de evacuação militar israelense”. “As pessoas estão atendendo a esses chamados para evacuar e estão fugindo com quase nada”, acrescentou ela, dizendo que 80% dos abrigos abertos pelo governo libanês — a maioria em escolas — agora estão lotados.
Fonte: Valor Econômico
