Por Ellen Zhang e Marius Zaharia — Reuters, de Pequim e Hong Kong
06/02/2024 05h02 Atualizado há 5 horas
Quando Kris Lin, dono de uma fábrica de lâmpadas na China, recebeu o primeiro pedido deste ano de um cliente estrangeiro próximo, ele se deparou com um duro dilema: aceitar e ter prejuízo ou dizer aos funcionários que não precisariam retornar ao trabalho depois do Ano Novo Lunar.
“Era impossível perder esse pedido”, diz Lin, que planeja reabrir sua fábrica em Taizhou, cidade do leste da China, com metade de sua capacidade após o feriado de 10 a 17 de fevereiro. “Poderia ter perdido aquele cliente para sempre e isso colocaria em risco o sustento de muitas pessoas. Se adiarmos a retomada da produção, as pessoas poderão começar a duvidar de nosso negócio. Se os boatos se espalharem, isso afetaria as decisões de nossos fornecedores.”
Uma prolongada deflação nas fábricas ameaça a sobrevivência dos exportadores chineses de menor porte, que enfrentam uma guerra de preços implacáveis em negócios que estão encolhendo, com os juros mais altos no exterior e o crescente protecionismo comercial comprimindo a demanda.
Os preços ao produtor vêm caindo há 15 meses, reduzindo as margens de lucro ao ponto em que a produção industrial e os empregos correm agora o risco de agravar os problemas econômicos da China, que incluem a crise no setor imobiliário e uma crise de dívida.
Cerca de 180 milhões de empregos estão relacionados às exportações, segundo dados de 2022 do Ministério do Comércio.
Raymond Yeung, economista-chefe da ANZ para a China, diz que resolver o problema da deflação deveria ser uma prioridade política maior do que alcançar a meta de crescimento de cerca de 5% para este ano. “As empresas reduzem os preços dos produtos e então os salários dos funcionários. Depois, os consumidores não compram – isso pode virar um ciclo vicioso.”
Os lucros das empresas chinesas do setor industrial caíram 2,3% no ano passado, somando-se à queda de 4% em 2022, ano prejudicado pela pandemia de covid-19. Uma pesquisa oficial mostra que a atividade manufatureira contraiu pelo quarto mês seguido em janeiro, enquanto os pedidos de exportação caíram pelo décimo mês seguido.
Para Lin, isso significa que o pedido de US$ 1,5 milhão que seu cliente fez foi 25% menor que um similar do ano passado. Ele ficou 10% abaixo do custo de produção.
As exportações mais fracas significam que as autoridades precisam recorrer a outras alavancas para atingir sua meta de crescimento, aumentando a urgência do estímulo ao consumo interno, segundo analistas. “Quanto mais ‘reequilibrado’ for o crescimento, mais rapidamente essa pressão de baixa sobre os preços e as margens vai se dissipar”, diz Louis Kuijs, economista-chefe da S&P Global para a Ásia-Pacífico.
Fonte: Valor Econômico
