Inflação cobra mais dos mais pobres, sempre ou quase sempre, mas este ano pode ser diferente
Por Felipe Frisch
25/01/2023 05h00 Atualizado há 40 minutos
Carne, leite, combustível, passagem aérea, alface, material escolar. Até o chuchu já ocupou o topo do pouco honroso pódio dos vilões da inflação. Os mais jovens lembrarão de alguns desses momentos por causa dos memes – uma profícua indústria nacional – como a água mineral sendo transportada em carro-forte ou um valiosíssimo colar de tomates.
É verdade que a briga por essa pole position constitui uma disputa acirrada com grandes competidores quase sempre se alternando na liderança do campeonato a cada ano.
Mas a definição do vencedor implicará também a identificação dos derrotados, em geral por estrato social, e com frequência os mais pobres, não apenas devido ao seu menor poder de barganha política, mas por estarem com a renda proporcionalmente mais comprometida com itens básicos como alimentação – sujeita a fenômenos climáticos e conflitos geopolíticos -, além de serviços básicos como luz, gás e água encanada.
Câmbio e boa safra ensejam carestia mais ‘democrática’
Os números do passado recente não nos deixam mentir – pelo menos, não com a consciência tranquila -, como mostra levantamento feito pelo economista André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), a pedido do Valor.
A alta dos alimentos no primeiro ano de pandemia foi de 16,71% para quem ganhava até 1,5 salário mínimo e 10,25% para quem recebia o equivalente a mais de 11,5 vezes a remuneração básica oficial. O resultado dessa discrepância é que o Índice de Preços ao Consumidor (IPC-Br) por perfil de renda em 2020 foi de 6,96% para os mais pobres e 4,27% para os mais abastados.
“Alimentação tem que praticamente cair para as famílias mais humildes poderem sentir”, diz Braz. “Quanto menor a renda da família, mais ela concentra o gasto dela em privilegiar a subsistência básica e naquelas despesas para manter o lar como aluguel e condomínio, e despesas com medicamentos.”
Mas os ricos também sofrem com a alta de preços. Em 2021, a inflação ficou mais parecida entre as duas pontas dos grupos de renda, por motivos diferentes, destaca o coordenador dos índices de preços do FGV Ibre, embora reconheça que, mesmo assim, os menos afortunados financeiramente ainda sentiram um pouco mais: 8,87% x 8,72%, praticamente empate técnico.
De um lado, a explicação foi a crise hídrica, que fez a conta de energia – incluindo o preço do gás – subir. Nesse período, a categoria habitação teve inflação equivalente a 13,55% para quem ganhava o mínimo naquele ano, contra 8,15% para quem recebia o máximo de renda considerada no levantamento.
Na outra ponta, pesou a gasolina, que importa pouco para os menos endinheirados, como lembra Braz. Com isso, o grupo transportes representou uma inflação de 18,51% para os mais bem remunerados e 11,27% para quem ganhava menos naquele ano.
Não à toa, o governo anterior centrou o combate à inflação do seu último ano no combustível, forçando a queda de preços por meio da isenção de PIS/Cofins e da Cide-Combustível, além da limitação da cobrança de ICMS, na tentativa de garantir sua reeleição.
Também não sem motivos, não funcionou: enquanto a inflação dos mais ricos ficou em 4,09% em 2022 – com impacto de -4,12% dos gastos com transportes -, a dos mais humildes foi a 4,70%, com o alívio reduzido a -1,99% nos custos de locomoção para esse estrato social.
“Fazer política de preços em combustíveis é bem-vindo, mas tem que escolher bem o combustível. A gasolina é essencialmente um bem de luxo para quem tem carro, até dois algumas vezes, e aí você não pode incluir muitas famílias de baixa renda”, explica o economista, lembrando que o diesel tem papel “muito mais nobre” e sua redução beneficia mais diretamente os pobres porque é o combustível que movimenta a frota de ônibus urbano, o frete nas estradas e as máquinas no campo.
Grande incógnita
Para este ano, Braz avalia que a inflação é “uma grande incógnita porque tem a questão cambial, que é sempre comprometida quando a gente tem problemas fiscais e nós já observamos o endividamento público e uma estratégia um pouco frágil e ambiciosa de não aumentar essa dívida pública. A gente corre o risco de ter uma queda de credibilidade e essa queda de reputação acaba influenciando o nosso câmbio. E o câmbio faz a inflação chegar para todos, ricos e pobres. Para os ricos, pelos combustíveis. Para os pobres, pelos alimentos”.
Ele lembra que o problema fiscal passa ainda pela renúncia de tributos que o governo fez sobre os combustíveis, mas que vão voltar em algum momento, encarecendo gasolina e diesel.
Um alívio para a inflação deste ano, no entanto, pode vir justamente dos alimentos. “Observando a expectativa das safras, a gente pode antecipar que este ano talvez seja um ano de menor desafio.”
“De modo geral, aposto que inflação de 2023 tende a ser um pouco mais democrática pela possibilidade de a gente ter uma alimentação com inflação menor”, diz o economista.
Felipe Frisch é editor-assistente
E-mail: felipe.frisch@valor.com.br
Fonte: Valor Econômico