Por Adriana Cotias, Valor — São Paulo
11/05/2023 23h44 Atualizado há uma hora
O Brasil e o mundo estão num estágio de fim de ciclo de juros altos, o cenário é estruturalmente ruim, mas quem colocou recursos em dólar não para de perder dinheiro, observou Carlos Woelz, sócio-fundador da Kapitalo.
“O governo é ruim, o [Gabriel] Galípolo [secretário da Fazenda, indicado para a diretoria de política monetária do Banco Central] tem passagem pelo setor privado, mas toda a bagagem intelectual é de péssima aplicação [ao regime de metas de inflação]. Falando de um novo BC comandado por uma pessoa como ele, ou de perfil parecido, significa [não ter contraponto] a um fiscal piorando barbaramente, com chance razoável de desaceleração da economia global, um cenário horrível e o real não para de se apreciar”, afirmou o gestor ao participar de evento da XP.
Na sua avaliação, o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro tinha um controle melhor do gasto público, mas quem vinha carregando reais só perdeu dinheiro. Quando o presidente Lula assumiu, os preços já estavam extremamente depreciados, com a bolsa e o real baratos. “O cenário é ruim, mas por posicionamento e preço, os ativos performaram muito bem. Acho que vai continuar enquanto não tiver um choque da economia global modificando realmente os termos de troca”, afirmou Woelz.
O gestor disse que vem perseguindo um “trade short” (vendido) em países emergentes, de grande sensibilidade à desaceleração da economia global, mas nesse grupo ele nem acha que o Brasil seja o melhor mercado para apostar contra, porque tem “carrego e custo de oportunidade em juros reais muito altos”, com o balanço do setor externo relativamente ajustado.
É uma estratégia que não tem trazido ainda resultados, reconheceu, porque rapidamente as curvas de juros nos Estados Unidos passaram a embutir cortes nas taxas. “É um momento que tem que operar num tamanho mais moderado, mas a gente vai perseguir as teses que acredita.”
A resistência da bolsa americana em particular, o executivo da Kapitalo creditou à manutenção do emprego e da renda, com o público de varejo direcionando parte da poupança para as ações, algo que só diminui quando houver de fato o enfraquecimento do mercado de trabalho. “Vai cair quando o consumo também cair.”
No Brasil, Woelz comentou estar aplicado em juros longos, apostando que as taxas futuras serão mais baixas por bem ou por mal. Ou o BC vai ser bem sucedido no combate à inflação e a Selic de fato cai, ou por uma política fiscal mais expandida que vai manter os índices de preços em níveis mais elevados.
Woelz disse não estar “muito vendido” em Brasil, posição que rendeu frutos no pós-eleições, mas afirmou ter dificuldade de pegar esse movimento de curto prazo dos ativos locais porque está muito pessimista. “Em termos de fundamentos, eu aplicaria mais, mas acho complicado saber qual é o prêmio justo, quanto preciso receber a mais para correr o risco de piora da política econômica.”
O gestor considera que enquanto a economia segue crescendo, ok, mas se o Brasil desacelerar na esteira da perda de ritmo global, o governo vai lutar contra o freio. A consequência pode ser um quadro fiscal pior, embora com menos espaço para “fraudar as contas públicas” como no passado, e de uma inflação mais elevada.
Fonte: Valor Econômico

