Por Felipe Saturnino e Gabriel Roca — De São Paulo
11/04/2022 05h03 Atualizado há 7 horas
Os números de inflação do mês de março, que vieram bem acima das expectativas de consenso, voltaram a ampliar a desconfiança do mercado de que o Banco Central (BC) conseguirá cumprir o objetivo de encerrar o ciclo de alta de juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em maio.
O ceticismo dos agentes financeiros ficou refletido no aumento das apostas em torno de uma taxa no fim do ciclo mais alta do que o Banco Central havia sinalizado em sua última reunião de política monetária, de 12,75%. A surpresa negativa com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) impulsionou as taxas futuras a precificarem uma Selic de cerca de 13,25% para o fim de 2022.
“Em termos de política monetária, o resultado de hoje [sexta-feira] reforça nosso cenário de que o Banco Central precisará revisar suas projeções de inflação de 6,3% para 2022 e 3,1% para 2023 e, em seguida, rever seu cenário-base para a política monetária de interromper o ciclo de aperto em maio. Mantemos nossa aposta de que o Banco Central aumentará a taxa básica de juros em 1 ponto percentual em maio, 0,75 ponto percentual em junho e 0,50 ponto percentual em agosto, para 14%”, escreveram em relatório os profissionais do Credit Suisse.
Há também cenários de taxas de juros ainda mais altas no Brasil. Segundo o economista-chefe do Haitong para Brasil e professor da Fundação Getulio Vargas, Marcos Ross, a alta de preços disseminada pode obrigar o Copom a elevar a taxa de juros para além de 14%.
“Pensando no balanço de riscos, não tem como achar que o BC vai ficar confortável com esse dado, é um número que vai ter impacto nas expectativas. Creio que a realidade vai se impor e o Copom não vai parar o aperto em maio”, diz.
Após a divulgação do índice, o Haitong revisou a estimativa de IPCA para 2022, de 6,8% para 7,4%, e para 2023, de 3,7% para 4,1%. O cenário básico do banco para a Selic é de que o BC deverá optar, no fim das contas, por fazer um fim de ciclo gradual – a autoridade monetária vinha sinalizando intenção de fechar a alta de juros no próximo Copom, em maio. “Vemos mais uma alta de 1 ponto e uma redução do ritmo, de 0,75 ponto em junho e 0,5 ponto em agosto”, afirma Ross, citando a projeção do banco de Selic ao fim do ciclo em 14%.
Em um cenário alternativo, o Haitong prevê que as doses menores de aperto previstas para junho e agosto podem aumentar, diante da inflação corrente pressionada e disseminada. “O risco é, em vez de vir mais uma [alta de] 0,75 ponto, vir uma de 1 ponto, e o 0,5 ponto de alta virar um 0,75 ponto”, afirma. “Por isso imagino, em um cenário alternativo, que a Selic pode ultrapassar os 14%.”
No Bank of America (BofA), o dado gerou uma revisão da expectativa de inflação de fim de ano para 8,0% em 2022 e 4,5% em 2023. “Tudo somado, isso corrobora nossa visão de que o BC não será capaz de interromper o ciclo de aperto em maio. Esperamos uma última alta de 0,50 ponto em junho, elevando a Selic para 13,25%, mas os riscos estão para cima”, escrevem profissionais do BofA, em relatório assinado pelo chefe de economia para Brasil e estratégia para América Latina, David Beker.
A equipe de macroeconomia e estratégia do BTG chama a atenção para a manutenção da média dos cinco núcleos acompanhados pelo Banco Central em patamar bastante elevado, de 0,98% na comparação mensal em março, e de 9,01% na comparação anual, a maior desde dezembro de 2003.
“Entendemos que a manutenção desta métrica no nível atual vai em linha com o caráter persistente do componente subjacente, o que pode impactar a continuidade do guidance do BC de encerrar o ciclo de ajuste da Selic na próxima reunião. Além da elevação de 1 ponto em maio, esperamos mais uma alta de 0,5 ponto percentual em junho, levando a Selic terminal para 13,25%”, afirmam os profissionais.
Para a Armor Capital, a leitura de março do IPCA diminuiu a probabilidade de que o BC consiga encerrar o ciclo nos 12,75%, como vinham sinalizando autoridades da instituição, mas ainda não foi suficiente para que as projeções de Selic fossem revisadas.
“Antes do dado, estava claro para mim que ele ia dar 1 ponto de alta e parar. Mas agora esse ‘game’ está mais equilibrado, é um ‘close call’”, afirma Andrea Damico, sócia e economista-chefe da gestora.
Assim, a profissional ainda avalia que o BC deve encerrar o aperto na próxima reunião do Copom, na esteira de “sinalizações contundentes” de dirigentes da autoridade. Segundo ela, no entanto, “não é natural” que o BC termine o processo de aumento da taxa Selic com a inflação corrente e os núcleos de inflação ainda em patamares elevados.
A expectativa da Armor é que a alta da Selic acabará na próxima reunião do Copom, com taxa de 12,75%, mas Damico aventa a possibilidade de o Banco Central seguir aumentando a taxa por mais duas reuniões. “Talvez o BC não se disponha a dar mais uma alta de 1 ponto e possa dar duas de 0,5 ponto”, afirma.
Fonte: Valor Econômico
