Os dados recentes sobre o crédito rural subsidiado por depósitos à vista e de poupança apontam uma tendência: sua substituição por fontes das próprias instituições financeiras, a custos de mercado. No primeiro quadrimestre da safra 2024/2025, entre julho e outubro, os desembolsos de crédito rural caíram 24,5% em relação ao mesmo período do ano safra 2023/24, somando R$ 152 bilhões, segundo dados extraídos do Banco Central em 10 de novembro e compilados pelo Valor. Já os financiamentos por meio de Cédulas de Produto Rural (CPRs) bancárias cresceram 58,8% de julho a setembro passados, em comparação ao mesmo período de 2023, saindo de R$ 65,8 bilhões para R$ 104,5 bilhões.
“Está se acelerando aquela tendência de, cada vez mais, as fontes livres financiarem mais o agronegócio e as fontes direcionadas, a cada ano, perderem representatividade. Só no último plano safra, incluindo Pronaf (para agricultura familiar), que foi de R$ 410 bilhões, já se viu mais de mais de R$ 200 bilhões virem da carteira de recursos livres dos bancos”, ressalta o diretor de agronegócio do BradescoCotação de Bradesco, Roberto França, lembrando, ainda, que o Banco Central (BC), apesar da redução dos depósitos a vista e de poupança, manteve em 30% o percentual desses recursos que os bancos devem direcionar exclusivamente para o crédito rural a taxas subsidiadas.
O BC também vem mantendo o valor máximo do crédito dependendo do perfil do produtor. “Os grandes produtores não podem tomar mais de R$ 3 milhões já há uns cinco ou seis anos safra. O médio produtor só pode tomar até R$ 1,5 milhão também já nos últimos cinco anos e o Pronaf, para a agricultura familiar, é de R$ 250 mil”, relata França, a bordo de uma carteira que fechou setembro em cerca de R$ 120 bilhões. “Só que a demanda por crédito nos últimos cinco anos cresceu bastante. O crédito rural vem perdendo representatividade no financiamento porque o produtor não consegue mais se financiar, na totalidade, com o recurso obrigatório”, acrescenta.
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O diretor da Confederação Brasileira das Cooperativas de Crédito (Confebras), Celso Régis, considera que o crédito rural, com taxas de juros e de financiamento adequados para o setor, deveria integrar o Orçamento da União, dada a importância do agronegócio para a economia. No entanto, o que temos experimentado, segundo ele, é um declínio da importância do crédito rural por parte do governo. “Não tem cabimento termos uma redução de mais de 20%, praticamente 25%, entre a safra 2023/2024 para a safra de 2024/2025. Realmente, estamos muito preocupados com essas perdas de fonte de recursos oficiais para o agronegócio brasileiro.”
O técnico de planejamento e pesquisa do Instituto de Planejamento e Economia Aplicada (Ipea), José Eustáquio Ribeiro Vieira Filho, atenta para outra mudança: multinacionais como Bayer e Cargill, entre outras, financiando a produção e a comercialização. “A Bayer abriu sua primeira loja no mundo no ano passado em Rio Verde (GO). Eles vendem soluções tecnológicas, vendem seguro, comercializam e realizam fretes. Estão em praticamente todas as etapas da produção, do produtor até o consumidor final”, observa o pesquisador, para quem “o mercado privado é cada vez mais representativo e o desaquecimento da economia por questões conjunturais prejudica o financiamento” – o que explica a queda nas contratações do crédito rural.
No âmbito da conjuntura, o diretor de agronegócio do banco Santander, Carlos Aguiar, destaca três fatores: a queda nos preços dos produtos, a baixa nos preços dos insumos e a elevação da taxa básica de juros, a Selic, por parte do BC. “Houve uma queda de preço muito relevante na soja e no milho, principalmente, o que afetou bastante a renda do produtor. Quando a renda é afetada, a capacidade de pagamento também reduz e, por isso, a inadimplência está alta – mais alta do que nos últimos cinco anos, pelo menos, senão até nos últimos oito anos”, sublinha Aguiar. A queda no preço dos insumos (de algo como 50%, segundo França, do BradescoCotação de Bradesco) significa que o produtor precisa de menos dinheiro em caixa. Por outro lado, a alta da Selic eleva os custos de todo o crédito, fazendo o produtor ser mais criterioso na tomada de empréstimos.
A somatória desses fatores é um mercado “engazopado, que não vai nem para um lado nem para outro”, diz o diretor do Santander, que projeta o mesmo cenário “por esta safra e mais uma”, apesar das perspectivas de novos recordes de produção em 2024/25.
Entretanto, o diretor de novas estruturas financeiras da TerraMagna, David Télio, antecipa volumes ainda maiores de crédito privado participando dos financiamentos do agronegócio em 2025. O diretor da fintech confia no emprego intensivo de tecnologia para reduzir a burocracia do crédito, na ampliação dos recursos para o agronegócio por parte do mercado de capitais e, subsequentemente, nos fundos de investimentos no agronegócio, os Fiagros. “Este será o futuro dos financiamentos do agronegócio”, afirma Télio.
Fonte: Valor Econômico
