Por Pedro Boainain
04/07/2023 05h02 Atualizado há 4 horas
Uma crise técnica em 2019 causada pelo descasamento entre a cotização curta de alguns fundos e a baixa liquidez dos seus ativos de crédito; a pandemia em 2020, que fez investidores se depararem com rentabilidades negativas em fundos de baixíssima volatilidade; a fraude bilionária e decorrente recuperação judicial de uma até então empresa “grau de investimento” em janeiro de 2023. Em menos de cinco anos, três eventos extremos resultaram em rentabilidades negativas que surpreenderam investidores, levando a resgates em massa de fundos de crédito.
Contraditoriamente, na ambiguidade típica do universo de investimentos, essa sequência de eventos negativos gerou aprendizados e oportunidades – tanto sob a ótica dos gestores de recursos quanto dos investidores – que têm ajudado a acelerar o desenvolvimento da indústria de crédito privado.
No caso dos gestores, a dinâmica é relativamente simples: eventos extremos arrastam o que é bom e o que é ruim sem distinção, preços se desvalorizam e oportunidades surgem atraindo quem antes não estava no mercado. A liquidez do mercado e a competição aumentam e os gestores aprimoram seus processos de investimentos. Os despreparados e imprudentes ficam pelo caminho.
Assim, nos últimos anos, aumentou significativamente a diversidade de empresas que captam recursos no mercado de capitais, o número de transações no mercado secundário com a participação de tesourarias de bancos e fundos multimercados, a variedade das estratégias de crédito, a regulação e a transparência de informações aos investidores.
Constatação dessa evolução foi a reação funcional e organizada do mercado de capitais aos eventos e fortes resgates deste ano, com um ajuste moderado dos preços dos ativos de crédito que, em apenas cinco meses, já começa a ser percebido como oportunidade de ganhos por diversos agentes do mercado.
No caso dos investidores, os eventos de 2019 e 2020 mostraram de maneira contundente que a renda fixa tem preço variável, e o evento de 2023 deixou evidente que em crédito privado nem a renda é necessariamente fixa, pois, assim como em qualquer transação de empréstimo, há o risco de inadimplência, de default.
Esses aprendizados através dos erros e das crises são caros. O caso isolado de Americanas resultou em perdas, na média, entre 0,5% e 2,0% para os investidores de fundos que deram crédito para a empresa, mas tiveram como consequência resgates de 10% a 50% do patrimônio desses fundos, arrastando de forma generalizada o valor de outros ativos de qualidade e gerando perdas adicionais aos investidores. Ruim e desnecessário para quem vendeu. Oportunidade excepcional para quem entende os riscos com profundidade e aproveita o momento para escolher bons ativos a preços descontados.
Hoje, há assimetrias, falta de transparência e deficiências de entendimento importantes nesse mercado que ainda levam à tomada de riscos não conscientes por parte dos investidores e a uma miopia na diferenciação entre as alternativas existentes. Para selecionar apenas duas que por vezes fazem o ruim parecer bom e o bom parecer ruim: as diferenças de regras e critérios de marcação a mercado e a seleção de ativos ou de fundos de crédito considerando apenas a taxa de remuneração do crédito, com avaliação superficial do seu risco.
Nesse contexto e, especialmente após crises como a recente, o fundo que rendeu bem ou o ativo de boa remuneração, por vezes, escondem simplesmente uma perda não realizada ou uma marcação desatualizada dos ativos da carteira. Já o fundo que sofreu em meio a uma crise pode já ter realizado as suas perdas e ter maior potencial de rentabilidade.
São os gestores com robustez de estrutura, experiência e capacidade de análise e gestão que vão entregar resultados consistentes ao longo do tempo e potencializá-los nos momentos de maior oportunidade como o atual, no qual (1) o técnico está mais leve, com um arrefecimento do fluxo de resgates de fundos de crédito que hoje caminha em direção à neutralidade; (2) o fundamento macro desafiador abre espaço para aqueles que têm capacidade de navegar em cenários de risco e identificar os melhores ativos e setores para se posicionar; (3) a remuneração de muitos ativos de crédito está em níveis nominais e relativos expressivos (spreads médios de títulos corporativos em torno de CDI + 3,0% ao ano), atraindo cada vez mais investidores e iniciado um movimento de valorização de ativos que pode se tornar estrutural.
Fonte: Valor Econômico
