Por Lingling Wei, Stella Yifan Xie e Natasha Khan — Dow Jones Newswires
11/04/2022 05h02 Atualizado há 7 horas
Após dois anos recorrendo a “lockdowns” duros e amplos para controlar a covid-19, o líder chinês Xi Jinping tentou algo novo em Xangai. Ciente do custo econômico e da irritação pública com a estratégia “covid-zero”, Xi deu à cidade certa liberdade para enfrentar o surto, dizem fontes a par das decisões do governo. A ideia foi deixar Xangai impor lockdowns só nos bairros mais afetados. Se bem sucedida, a estratégia ofereceria um modo de coexistência com o vírus.
Mas, em vez disso, a cidade mais populosa da China viu os casos de covid-19 dispararem quase cinco vezes na última semana. Embora baixo pelos padrões ocidentais, o número de casos em Xangai é recorde no país. Agora, Xi enfrenta um surto descontrolado e o retorno dos lockdowns.
O surto de Xangai, dizem autoridades locais, se espalhando. Alarmado, Xi ordenou o retorno da velha cartilha: desde meados de março, mais de 70 cidades, que respondem por cerca de 40% do PIB da China, implementaram medidas restritivas de controle da covid-19.
Com mais de 25 milhões de habitantes, Xangai está num lockdown tão rígido como os decretados antes no país. Famílias temem ficar sem comida e pais tentam desesperadamente evitar serem separados de filhos infectados.
“Nada é mais importante do que eliminar o vírus”, disse Xi a líderes do alto escalão no fim de março, segundo afirmou uma fonte.
O surto da variante ômicron na China mostra a dificuldade que o país está tendo para abandonar a estratégia de “covid-zero”, de usar de lockdowns rígidos para anular até mesmo surtos pequenos. A estratégia salvou vidas e foi eficaz no começo da pandemia, reforçando a visão de Xi de que a China havia se saído melhor que o Ocidente.
Mas, desde então, a covid-19 tornou-se mais contagiosa, a economia chinesa ficou mais frágil e os riscos para Xi, maiores. Ele busca este ano um terceiro mandato de cinco anos como líder do país.
“Xi está encurralado”, diz Minxin Pei, professor de ciências políticas do Claremont McKenna College e editor da “China Leadership Monitor”, publicação trimestral sobre política chinesa. “Mudar agora a política de covid-zero despertaria mais dúvidas sobre sua liderança. É politicamente inviável.”
Alguns economistas já dizem que a economia crescerá bem menos que a meta oficial de cerca de 5,5% para 2022. Para compensar as perdas econômicas causadas pelos lockdowns, a China terá de elevar o gasto público com infraestrutura e outros grandes projetos, aumentando os níveis já altos de endividamento, dizem economistas.
Os principais líderes da China acreditam que confinar os moradores em suas casas durante surtos é a maneira mais eficaz de manter o número de mortes baixo e evitar sobrecarregar o sistema de saúde.
Wu Zunyou, epidemiologista-chefe do Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças, disse num fórum público em novembro que a China teria tido cerca de 260 milhões casos de covid-19 e mais de três milhões de mortes se tivesse adotado restrições mais frouxas, como os EUA. A China relatou menos de 260 mil casos e menos de 5.000 mortes, comparado aos 80 milhões de casos e quase um milhão de mortes nos EUA.
Os custos econômicos e sociais da estratégia chinesa subiram com o surgimento de variantes mais contagiosas. As vendas no varejo, o turismo e o setor manufatureiro sofrem com os lockdowns, fechamentos de lojas e proibição de viagens. Uma população que em grande parte apoiou inicialmente a “covid-zero”, cansou-se dos limites rígidos às rotinas do dia-a-dia.
Alexandra Wang, 33, que trabalha numa multinacional, disse que a gestão da pandemia pelo governo a faz pensar em deixar a China. O conjunto de apartamentos em que ela e 500 outras famílias moram, em Xangai, entrou em lockdown em 24 de março devido a alguns poucos casos de covid. Três dias depois, toda a cidade entrou em confinamento. “Para mim foi um choque total, especialmente porque as autoridades negaram que haveria um lockdown.”
Wang diz que está ficando sem alimentos. Na segunda-feira, ela recebeu a primeira entrega de alimentos do governo: duas abobrinhas, um pacote de leite, dez salsichas, macarrão e carne enlatada.
Antes do surto mais recente, Xi e outras autoridades viam Xangai como um modelo para o objetivo de longo prazo de conviver com o vírus, segundo fontes. Administrada por um aliado próximo de Xi, a cidade nunca teve problemas sérios. Os poucos casos nos últimos dois anos foram contidos com lockdowns limitados de prédios e bairros. Ao contrário do resto da China, o uso de máscara não foi amplamente adotado na cidade.
Mas a chegada de um fluxo de visitantes de Hong Kong, que fugia de um surto lá, mudou tudo. Muitos permaneceram em hotéis de Xangai, onde, segundo autoridades, o vírus se espalhou no começo de março para os funcionários desses hotéis, suas famílias e contatos. Na ocasião, as autoridades da cidade disseram que lockdowns amplos não seriam necessários.
Xi pediu medidas de controle da covid que minimizassem o impacto para a população. Mas, falando à cúpula do partido, ele deixou claro que a China não pode recuar em sua abordagem dura contra a covid, mesmo que isso signifique crescimento econômico menor.
Poucos dias depois, Xangai iniciou um lockdown em dois estágios. Na ocasião, o epidemiologista-chefe Wu disse que Xangai não agiu de forma decisiva no surto e perdeu a chance de controlá-lo.
Em Xangai, as pessoas com covid-19 estão confinadas em casa, e o acesso a cuidados médicos para os que estão doentes é limitado.
As autoridades locais não informaram nenhuma morte relacionada à covid. Mas o “Wall Street Journal” apurou que em um só hospital houve mais de 20 mortes.
Um vídeo com crianças chorando num hospital em Xangai, após terem sido separadas dos pais, causou indignação nacional, elevando a sensação de desamparo.
Fonte: Valor Econômico
