Por Bloomberg
03/04/2023 09h33 Atualizado há uma hora
A Opep+ surpreendeu o mercado ao anunciar umcorte na produção de petróleo de mais de 1 milhão de barris por dia, ao contrário de indicações anteriores de que não mexeria na oferta, o que representa um novo risco para a economia global.
É uma redução significativa para um mercado – apesar das recentes flutuações de preços – cuja oferta sinalizava aperto até o final do ano. Os contratos futuros de petróleo chegaram a dar um salto de 8% em Nova York nesta segunda-feira, enquanto os preços da gasolina também subiram. Com o aumento das pressões inflacionárias, bancos centrais do mundo todo podem ser obrigados a manter as taxas de juros elevadas por mais tempo.
A Arábia Saudita liderou o cartel ao prometer reduzir a oferta em 500 mil barris por dia. Outros membros, incluindo Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Argélia, também planejam cortar a produção, enquanto a Rússia disse que o corte em vigor de março a junho vai continuar até o fim de 2023.
“A Opep+ claramente quer um preço mais alto”, disse Gary Ross, consultor de petróleo veterano que agora é gestor de hedge funds da Black Gold Investors. O grupo continua a ser “proativo e à frente da curva, e tenta arrancar os preços do petróleo das garras” da percepção macro.
Qualquer aumento nos custos dos combustíveis de transporte tende a ser monitorado de perto por políticos nos EUA, especialmente antes do verão no hemisfério norte, quando mais pessoas viajam e tiram férias.
Os principais analistas divulgaram projeções com o barril de petróleo a US$ 100 após a decisão. Alguns esperam que os saldos mundiais de oferta e demanda entrem em déficit antes do esperado. Essa visão se refletiu no fortalecimento do chamado “backwardation” do Brent – onde o prêmio de embarques imediatos aumenta em relação aos suprimentos posteriores, em um sinal de aperto observado de perto.
A decisão surpresa pode mais uma vez aumentar as tensões entre Estados Unidos e Arábia Saudita, um parceiro regional cuja relação com o governo de Joe Biden tem sido tensa. A Casa Branca disse que os novos cortes são imprudentes.
O impacto inicial dos cortes, a partir do próximo mês, somará cerca de 1,1 milhão de barris por dia. A partir de julho, devido à extensão da redução de oferta existente na Rússia, haverá cerca de 1,6 milhão de barris por dia a menos de petróleo no mercado do que o esperado anteriormente. A Rússia havia decidido inicialmente reduzir a produção em março, em retaliação contra as sanções ocidentais provocadas pela invasão da Ucrânia.
O governo saudita disse no domingo que as reduções são uma “medida de precaução destinada a apoiar a estabilidade do mercado de petróleo”.
As relações entre Arábia Saudita e EUA estão tensas desde o ano passado, quando os esforços da Casa Branca para persuadir o reino a bombear mais petróleo fracassaram.
No domingo, a Casa Branca afirmou que a decisão da Opep+ não era aconselhável nas atuais condições do mercado. O governo Biden também disse que os EUA trabalharão com produtores e consumidores com foco nos preços da gasolina para os americanos.
Interesse econômico
A medida no domingo – anunciada um dia antes da reunião do Comitê de Monitoramento da Opep+ – foi uma forma inédita de decidir a política do grupo, que teve que se adaptar nos últimos anos, primeiro ao choque de demanda causado pela pandemia, e agora à guerra na Ucrânia e às consequências das sanções.
Até sexta-feira, os delegados indicavam nos bastidores que não havia intenção de mudar seus limites de produção.
De sua parte, a Arábia Saudita embarca em uma enorme onda de gastos na casa dos trilhões de dólares para transformar sua economia em um polo turístico e num centro global de logística e negócios. Embora grande parte desse gasto seja impulsionado por alguns fundos soberanos que podem não se beneficiar diretamente dos preços mais altos do petróleo, autoridades do governo disseram que usarão os excedentes para ajudar a acelerar os investimentos domésticos.
“Vemos essa decisão como apenas mais uma indicação de que a liderança saudita está tomando suas decisões de produção de petróleo com uma visão clara de seus próprios interesses econômicos”, disse Helima Croft, chefe de estratégia de commodities da RBC Capital Markets.
Fonte: Valor Econômico

