Por meio de um comunicado que trouxe poucas mudanças e uma postura que se mantém conservadora, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) acertou ao reforçar o seu compromisso com a meta de inflação e afastar a leitura de que o atual ciclo de alta da taxa Selic está perto do fim. A avaliação é de Solange Srour, diretoria de macroeconomia para o Brasil do UBS Wealth Management, em entrevista ao Valor.
Elogiosa em relação ao comunicado divulgado ontem pelo colegiado, Srour pontua que os sinais de desaceleração da atividade econômica são, de fato, incipientes, e não devem balizar as próximas decisões de juros do Copom, que indicou nova alta de juros em sua reunião de maio, após subir a Selic em 1 ponto percentual, a 14,25%.
Valor: Qual a sua avaliação geral sobre o comunicado?
Solange Srour: Achei o comunicado muito bom, trouxe poucas mudanças em relação ao anterior. Ele antevê outra alta de juros se o cenário não melhorar, e também não encerra o ciclo já na próxima reunião [em maio]. Havia ainda um risco de que o balanço de riscos para a inflação mudasse de assimétrico para simétrico, e isso não aconteceu. Por mais que a taxa de câmbio tenha apreciado e tenhamos visto sinais incipientes de desaceleração da atividade, como o próprio BC colocou, acho que dar a sinalização de que os riscos estão simétricos poderia ensejar alguma discussão sobre um menor comprometimento com o alcance do centro da meta. Dado o descolamento das expectativas de inflação, achei muito bom terem reafirmado essa assimetria.
Valor: Acha que o BC buscou afastar a percepção de leniência?
Srour: Acho que existe, sim, uma preocupação dessa nova diretoria do mercado interpretar que o Copom estará mais suscetível à atividade econômica do que a administração passada. Para mim, o Copom mostrou preocupação em reforçar o comprometimento com a meta e não chancelar que essa desaceleração incipiente da atividade é suficiente para parar de subir juros. E, para mim, é incipiente mesmo. Os dados de janeiro já mostraram alguma melhora, ainda vai entrar fatores como a safra agrícola, reajuste do salário mínimo O BC não precisa ter pressa para declarar que já há um nível de desaceleração confortável.
Para maio, visão de alta de 0,5 ponto está bem correta; depois disso, a incerteza é grande”
Valor: O que esperar para as próximas decisões?
Srour: Está claro que não parou e, para parar, precisa haver não só a permanência de uma taxa de câmbio bem mais valorizada, como também alguma queda das expectativas de inflação. Para a reunião de maio, acho que a precificação atual do mercado, de alta de 0,5 ponto percentual (para 14,75%), está bem correta. Depois disso, a incerteza é grande. Do ponto de vista da inflação, acho que o mais provável é a continuidade (do ciclo de aperto monetário), já que a desaceleração da atividade deve acontecer mais no segundo semestre. O que pode mudar isso é o cenário global. Se entrarmos em um ambiente de dólar muito fraco, com cenário de fraqueza dos EUA, mas sem recessão, pode ser que afete muito o câmbio, e aí a próxima alta de juros do Copom poderia ser a última.
Valor: O que achou das projeções para o IPCA? Parte do mercado esperava um ajuste maior…
Srour: Eu também esperava um ajuste maior, já que o Copom tem uma estimativa de hiato do produto bem menos apertado do que os nossos modelos indicam. Ter colocado o IPCA no fim do horizonte relevante em 3,9% [de 4%] também foi um ponto mais conservador do comunicado. De alguma forma, parece que o hiato do BC não está fechando tanto assim com esses sinais incipientes de desaceleração da economia, ou as expectativas de inflação estão impactando essa inflação projetada.
Valor: Entre as poucas mudanças do comunicado, o BC incluiu um trecho sobre a defasagem da política monetária. Como avalia?
Srour: A atividade está muito resiliente à alta de juros há algum tempo. Grande parte da explicação para isso, na minha visão, é a política fiscal, que tem impedido que a defasagem atue na inflação da maneira como se espera. Na minha opinião, o Copom ter incluído esse trecho indica que a política monetária, apesar de restritiva, não está fazendo a inflação cair; então será preciso um nível de juros mais restritivo ainda. Considero essa sinalização também mais conservadora.
Valor: Acha que a ata manterá o tom conservador do comunicado?
Srour: Quanto se tem um ciclo de alta de juros pausado – e uma hora o Copom vai pausar – o mercado já quer discutir quando será o primeiro corte, mesmo se a sinalização for de que os juros ficarão altos por muito tempo. Quanto mais tempo eles evitarem essa discussão, maiores as chances de ancorar as expectativas em um patamar menos elevado. Evitar a discussão sobre corte de juros deve ser a prioridade do BC, por isso não espero uma mudança de tom na ata.
Fonte: Valor Econômico


