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O conselho de administração da Americanas questionou a diretoria sobre as vendas milionárias de ações feitas pelos então integrantes da diretoria da empresa no segundo semestre de 2022, meses antes da revelação da fraude contábil. A informação consta do relatório do comitê independente contratado pela empresa para investigar as inconsistências, obtido pelo Valor.
Segundo o material, membros do conselho da empresa – não especificados no texto – ficaram sabendo da movimentação por meio de relatórios publicados por instituições financeiras em julho, agosto, setembro e outubro de 2022 sobre as empresas que mais tiveram negociações relevantes feitas por “insiders”, ou seja, pessoas de dentro da companhia.
Diante disso, em 31 de outubro daquele ano, um dos conselheiros pediu a Miguel Gutierrez, então presidente da rede varejista Americanas, que na reunião do Comitê de Gente e Sustentabilidade marcada para dali a uma semana fossem apresentados detalhes sobre as negociações de ações da diretoria nos dois meses anteriores.
Nessa reunião, em 7 de novembro, os diretores teriam atribuído as vendas à necessidade de fazer frente a chamadas de margem de instituições financeiras. Segundo essa explicação, os diretores haviam tomado dívidas bancárias para subscrever ações, e precisaram vendê-las para honrar os compromissos.
O Comitê de Gente e Sustentabilidade, órgão de apoio ao conselho de administração, era composto por Carlos Alberto Sicupira, Paulo Lemann (filho de Jorge Paulo Lemann) e Claudio Garcia, também ligado aos acionistas de referência da Americanas.
Os então diretores negociaram R$ 287 milhões em ações da empresa, de acordo com a Polícia Federal, que abriu inquérito para apurar o caso. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também tem inquérito em andamento para investigar as transações. Segundo a Justiça Federal, só Gutierrez vendeu R$ 158,5 milhões em papéis entre julho e outubro.
As vendas se deram em um momento que antecedia mudanças na empresa. Em meados daquele ano, segundo o relatório, Gutierrez soube que Sérgio Rial havia sido contratado para lhe suceder a partir do ano seguinte. Em 19 de agosto, a contratação de Rial foi comunicada ao mercado, o que elevou as ações na bolsa. As vendas se estenderam até outubro, dias antes da divulgação do balanço do terceiro trimestre de 2022, que mostraria uma deterioração dos resultados. Foram identificadas negociações por parte de diretores e funcionários da Americanas, Ame Digital e Hortifrúti Natural da Terra.
A venda dos papéis foi discutida numa troca de mensagens entre Raoni Lapagesse, ex-diretor de relações com investidores da B2W, e Fabien Picavet, então diretor-executivo de relação com investidores da Americanas.
Em 28 de setembro de 2022, Picavet pergunta: “O que estás sabendo?”. Lapagesse responde que o terceiro trimestre mostraria uma queima de caixa de quase R$ 3 bilhões e que MSG (provavelmente, Miguel Gutierrez) havia encomendado material para mostrar os problemas ao conselho de administração. Diz também que o plano de ações (para funcionários) que seria de 2023 seria liberado.
“Vou investigar! Isso muito ‘’me interessa”, afirma Picavet. “Tô querendo q libere a tempo de vender antes do 3T [terceiro trimestre]!, diz Lapagesse.
Então, Picavet responde com emojis sorridentes e diz que “geral” tinha a mesma estratégia. “Inclusive o MSG”, afirma Lapagesse. “Geral é geral”, diz Picavet.
“Que vai ser investigado por ter vendido ações antes do anúncio da saída dele”, continua Lapagesse, que emenda: “Mas aí ele já estará foragido em Madri”.
Miguel Gutierrez, que tem nacionalidade brasileira e espanhola, foi viver na cidade europeia meses depois de o escândalo vir à tona. Era lá que ele estava quando a PF deflagrou a Operação Disclosure, no fim de junho deste ano, com pedidos de busca e apreensão contra os investigados. O ex-presidente da Americanas chegou a ser detido, mas foi solto no dia seguinte e, em agosto, conseguiu revogar o mandado de prisão.
Picavet e Lapagesse não foram localizados para comentar o assunto. A defesa de Gutierrez afirma que ele “jamais participou ou teve conhecimento de qualquer ato ilícito durante seu mandato na Americanas”.
Fonte: Valor Econômico

