Por Augusto Decker e Matheus Prado — De São Paulo
30/06/2023 05h03 Atualizado há 5 horas
A aguardada manutenção da meta de inflação pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e falas mais suaves (“dovish”, no jargão do mercado) do presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, derrubaram os juros futuros e permitiram que o Ibovespa voltasse ao campo positivo, após três sessões consecutivas de quedas. Durante a tarde, também houve forte movimento de queda da chamada inflação implícita, com pressão baixista na taxa de juro nominal.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2024 foi de 12,955% do ajuste anterior para 12,92%; e a do DI para janeiro de 2027 recuou de 10,425% para 10,31%. O Ibovespa subiu 1,46%, aos 118.383 pontos, e o índice futuro, ainda em negociação durante o anúncio do CMN, acelerou ganhos e fechou próximo das máximas, com alta de 1,83%, aos 120.750 pontos. O dólar, por sua vez, devolveu os ganhos acumulados durante a sessão e fechou em queda de 0,01%, a R$ 4,8466.
Em pregão cercado de expectativas por conta da decisão sobre a meta de inflação, os ativos locais passaram a exibir tendência positiva já de manhã, durante coletiva de Campos Neto após a divulgação do Relatório Trimestral de Inflação (RTI). Isso porque o banqueiro central adotou discurso mais suave, reiterando a sinalização de corte de juros em agosto presente na ata do Comitê de Política Monetária (Copom) divulgada na terça.
No fim da tarde, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou que o CMN manteve as metas de 2024 e 2025 em 3%, com margem de 1,5 ponto porcentual, como esperado pelo mercado. O mesmo patamar foi fixado para 2026. A partir de 2025, informou, o formato da meta será contínuo e não atrelado ao ano-calendário.
“Embora a alteração da meta fosse de baixa probabilidade, teria um efeito muito negativo. Então, quando se tira esse risco de cauda, abre espaço para valorização”, afirma Maurício Ferraz, gestor de renda fixa da Kínitro Capital. De acordo com dados preliminares da Necton, a inflação extraída da NTN-B para agosto de 2024 recuou de 3,95% para 3,87%, e a de maio de 2025 caiu de 4,32% para 4,29%.
O CMN também ajudou a consolidar as expectativas de que a Selic começa a cair em agosto. No mercado de opções digitais, a probabilidade de manutenção dos juros em 13,75% na próxima reunião do Copom caiu de 16% para 10%, enquanto a de corte de 0,25 ponto recuou de 65% para 54%, ainda mantendo-se como a opção mais popular. Entretanto, a probabilidade de corte de 0,50 ponto teve alta expressiva, de 17,5% para 32%.
Renato Junqueira, sócio e gestor da Gap Asset, afirma que ainda vê maior probabilidade de corte de 0,25 ponto. “As declarações de Campos Neto deixaram claro que há dissenso [dentro do Copom], mas também pareceu claro que o cenário-base é de corte. Não sei se é o caso de já cortar 0,50”, afirma.
A casa, que estava aplicada principalmente nos prazos mais curtos da curva, já não tem mais posições expressivas. “Nós pegamos bem o movimento de queda das taxas, mas, nos preços atuais, diria que está mais ou menos precificado”, diz.
Inácio Ponchet, CEO e gestor da Lato Capital, entende que o que pode dar impulso extra à bolsa depois dos ganhos recentes é o mercado ficar mais otimista em relação à velocidade com que se dará a queda de juros, mas está preocupado com o curtíssimo prazo. “A bolsa andou rápido demais sem uma melhora clara nos números das empresas, a liquidez vai recuar por conta das férias no hemisfério norte e do aumento de oferta de ações pelas empresas, os fundos locais perderam parte do rali e estão mal comprados”, diz.
Fonte: Valor Econômico
