Por Marta Watanabe — De São Paulo
18/05/2023 05h00 · Atualizado há uma hora
Com monitoramento de dez mercados e 107 variáveis financeiras, um novo indicador do BTG Pactual mostra que as condições financeiras atuais se mantêm em patamar relativamente alto desde o início do ano, o que indica um cenário difícil para empresas e famílias. Ao considerar mercados em condições ainda mais restritivas, como o de crédito bancário, crédito privado e fundos de hedge e commodities, o novo indicador mostra quadro mais apertado do que o revelado pelo índice de condições financeiras do Banco Central (BC).
No início de 2023, as condições restritivas mostradas pelo Indicador Diário de Condições Financeiras do BTG (IDCF-BTG) atingiram níveis vistos apenas em março de 2020, no momento mais agudo da pandemia, e em setembro de 2015, durante a crise que levou a um recuo de 3,5% no PIB. As observações consideram a série levantada do indicador desde janeiro de 2010.
Desde o início do ano, embora com oscilações na variação diária, o índice do BTG mostra condições financeiras próximas de 2,0. Em maio, o indicador tem oscilado perto de 1,8 e 1,9. O indicador é normalizado para ter média zero e variância unitária, com valores positivos que refletem condições financeiras mais restritivas e valores negativos que mostram condições menos apertadas. Um índice de 2,0 mostra quadro apertado, com condições financeiras em dois desvios-padrões mais restritos que a média histórica, diz Bruno Martins, economista sênior do BTG. Considerando a série desde 2010, diz ele, esse patamar nunca permaneceu por muito tempo.
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Caso as condições financeiras se mantenham nos níveis atuais até o fim de 2024, as simulações indicam crescimento econômico perto de zero no ano que vem. Esse, porém, é um cenário alternativo, diz Martins. No cenário base, a expectativa é de melhora das condições. O BTG projeta PIB com alta de 1,2% em 2023 e de 0,7% em 2024.
A evolução dos indicadores do BC e do BTG mostra certa correlação entre períodos de contração econômica – queda do PIB por dois trimestres seguidos – e o grau de restrição financeira, indica Martins. O patamar atual de restrição é consistente com desaceleração da atividade à frente, após a queda observada no quarto trimestre de 2022, diz. Mas ele ressalta que a relação entre atividade econômica e condições financeiras depende de outros fatores, como evolução do gasto público e nível de endividamento de famílias e empresas.
“É fundamental, para o crescimento sustentável da economia nos próximos dois ou três anos, que as condições financeiras melhorem. Mas isso não passa só por reduzir Selic, passa por outras coisas, inclusive o fiscal. É importante ter bom arcabouço fiscal, com trajetória de dívida sustentável no médio e longo prazos para termos descompressão de risco.”
Martins explica que a ideia é que o novo indicador do BTG contribua para o acompanhamento de mercados que são observados pelo BC, mas que não estão refletidos no Indicador de Condições Financeiras do Banco Central (ICF-BCB).
O evento das Lojas Americanas em janeiro, lembra, afetou o mercado de dívida e despertou a necessidade de se olhar mais de perto o crédito privado. “Isso nos motivou a desenvolver um indicador com mais séries. Acabamos incluindo mais três mercados e melhorando as informações.”
Outro fator importante que motivou o indicador, diz, foi o crescimento do mercado de capitais. “Após a criação da TLP [Taxa de Longo Prazo], o BNDES enxugou sua carteira e as empresas migraram desse crédito subsidiado para o mercado de capitais. Esse mercado cresceu de algo em torno de 10% do saldo total de crédito amplo a empresas não financeiras para cerca de 15%, de 2018 a 2023.”
O indicador da autoridade monetária, explica Martins, tem 26 variáveis com periodicidade diária divididos em sete mercados: juros no Brasil, juros no exterior, risco, moedas, petróleo, commodities e mercado de capitais.
O novo indicador do BTG usa metodologia similar à do BC e acompanha 107 séries divididas em dez grupos: juros no Brasil, juros no exterior, risco, moedas, petróleo e energia, commodities, mercado de ações, bancos, crédito privado e debêntures e ainda fundos de hedge e multimercados. Esses quatro últimos mercados são os que não são tratados ou que apresentam diferenças significativas em relação ao indicador do BC. O indicador do BTG, ressalta, permite acompanhar a evolução do índice cheio e também de cada mercado, separadamente. Segundo ele, o indicador mostrou melhor capacidade preditiva para a atividade econômica do que o índice do Banco Central.
A inclusão de mais informações, além dos pesos dados aos indicadores, explica algumas diferenças na trajetória das variações diárias entre o indicador do BTG e o do BC, diz Martins. “Nosso indicador não está mostrando a melhora na margem que o índice do BC mostra justamente porque incluímos mercados que estão ainda muito ruins. Houve muita gente que sacou recursos do crédito privado e de fundos de hedge e multimercados e foi para a renda fixa. Esses fundos sofreram muitos saques e estão com a rentabilidade ruim”, diz.
O mercado de crédito privado, hoje o que está sofrendo mais, relativamente, só está com condições financeiras melhores, diz ele, na comparação com o período do auge da pandemia. “Excluindo esse período, o nível de restrição está maior do que o da crise econômica de 2015 e 2016.”
Como esperado, diz Martins, os indicadores do BTG e do BC são bastante correlacionados. Mas, em alguns momentos, o IDCF-BTG indica condições financeiras mais restritivas do que o indicador da autoridade monetária, como entre o segundo trimestre de 2016 e o primeiro trimestre de 2018. Em outros períodos, o IDCF-BTG mostra condições menos restritivas, como a partir do segundo semestre de 2019 até a pandemia e, recentemente, no último trimestre de 2022, quando indicava razoável estabilidade, enquanto o indicador do BC apontava piora significativa. “Recentemente, o indicador do BC vem apontando para melhora nas condições financeiras, enquanto o do BTG mostra estabilidade mesmo após uma melhora nos grupos de taxas de juros.”
Martins lembra que, além de um conceito mais amplo para mercado de capitais, que acrescenta ao mercado de ações os de dívida privada, crédito bancário e fundos multimercado, o indicador do BTG também observa as commodities de forma diferente do índice do BC. O IDCF-BTG inclui indicadores que refletem preços médios das dez principais commodities importadas e exportadas pelo Brasil, ponderadas pela fatia de cada produto na balança comercial. “Ao contrário das commodities exportadas, o aumento de preços das commodities importadas representa aperto nas condições financeiras na economia”, explica.
Martins detalha também que no acompanhamento do grupo dos bancos, em razão da defasagem de cerca de dois meses na divulgação de dados importantes do setor, o BTG optou por criar uma medida da taxa de retorno relativo de ações de bancos vis a vis as de seguradoras, além de considerar dados de taxas de juros de várias modalidades cobradas pelos bancos mais importantes e divulgadas pelo BC. “Há defasagem em torno de 15 dias nesses dados, o que pode trazer críticas. Mas consideramos que o dado vale a pena e que ele se mostra condizente com o que se espera.”
Fonte: Valor Econômico

