- O Estado de S. Paulo.
- 21 Jul 2022
- ANITA KREPP
Embora substância já seja prescrita no País, medicina veterinária sofre com ‘cabo de guerra’ regulatório para o setor
Braddock, um simpático cão da raça boxer, logo no segundo mês de vida começou a sofrer com crises de epilepsia que progrediram com o passar do tempo. Antes dos 6 meses, foi desenganado. “Diziam que a única solução era a eutanásia, que ele não viveria muito mais tempo”, lembra a tutora Joyce Armelin, enquanto brinca com Braddock, hoje com 2 anos. O bichinho sobreviveu graças ao uso da cannabis medicinal.
Três meses após ingerir as primeiras gotinhas de óleo de cannabis, o boxer passou a não mais precisar da maioria dos remédios controlados, como diazepam e gardenal. Já livre de uma série de efeitos colaterais, Braddock voltou a andar, a brincar e a ter apetite. “Logo que ele começou a usar o óleo percebemos as mudanças, foi muito rápida a transformação, é outro cachorro. Graças ao doutor Fábio”, lembra Joyce, mencionando o veterinário mais conhecido como Dr. Pet Cannabis.
Fábio Mercante de San Juan tratou Braddock e outros 500 animais nos últimos 12 anos. Os primeiros atendimentos ocorreram em 2010, com pets de amigos e da família. Ao longo desse tempo, reuniu relatos de casos com controle a cada três meses – um material que só saiu à luz em 2018, quando o tema cannabis já estava pautado no debate público.
“Não tinha razão de eu viver nas sombras, então quis mostrar todos os resultados”, conta ele, que logo foi chamado para prestar explicações no Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), já que esse tratamento não é regulamentado. Mercante criou em 2019 um curso de medicina canabinoide para veterinários e já formou 1,5 mil profissionais.
O veterinário e ativista prescreve graças a uma brecha na lei. De um lado, há a Anvisa autorizando a prescrição da cannabis apenas para médicos e dentistas. De outro, o CFMV autorizando veterinários a usar todos os recursos necessários
“A liberação para o mercado pet é muito mais uma questão política do que técnica, pois conseguimos embasar a utilização da cannabis para animais.”
“A gente quer percorrer o mesmo caminho da regulação da cannabis medicinal para o humano.”
para preservar a saúde animal, inclusive de medicamentos controlados para humanos – caso da cannabis.
“Nem preciso indicar o tratamento, porque quem me procura já busca a cannabis. Desde 2019, eu só faço atendimento canábico”, diz. Em um passado não muito distante, alguns tutores recusavam a terapia, desconfiados de que seus bichinhos ficariam “doidões”. Ele até chegou a ser demitido por prescrever a substância num tempo em que falar em maconha era um tabu ainda maior.
POTENCIAL DE MERCADO. Dono do terceiro maior mercado pet do mundo – com faturamento de R$ 22,3 bilhões em 2019 –, o Brasil também fica na terceira posição na lista de países com maior número de animais de estimação (140 milhões).
Talita Nader
Veterinária e líder do Grupo de Estudos Sobre Cannabis Medicinal, no Cremesp
Isso torna o País um forte mercado, com previsões de movimentar até R$ 1,45 bilhão até o quarto ano de regulação da cannabis, gerando até R$ 109,5 milhões de arrecadação aos cofres públicos, aponta relatório da startup de análise de dados Kaya Mind.
A regulamentação, porém, ainda não tem data para acontecer. “Hoje, a liberação da cannabis para o mercado pet é muito mais uma questão política do que técnica, pois tecnicamente conseguimos embasar a utilização da cannabis para os animais”, afirma a veterinária Talita Nader, que preside o Grupo de Trabalho Sobre Cannabis Medicinal, no Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).
Talita tem bastante claros os benefícios que a terapia canabinoide aportou à prática veterinária. Segundo os dados da Kaya Mind, mais de 555 mil animais de estimação poderiam ser beneficiados por tratamentos com cannabis no Brasil – mais especificamente, 498.629 cães e 56.623 gatos.
A startup chegou a esse número – que equivale a 15% da população total de cachorros e 12% da de gatos – considerando a população de animais vacinados, com tutores acima dos 24 anos e que vão ao veterinário ao menos uma vez a cada três meses. Ou seja, um público que já gasta com seu pet e que estaria potencialmente mais disposto a bancar um eventual tratamento com a substância, que tem preço médio de R$ 600 por mês.
Percebendo a demanda crescente de tutores e outros veterinários pela legalização e inclusão da cannabis no repertório de terapias para pets, Talita solicitou ao Cremesp autorização para a criação de um grupo especial para tratar do tema e iniciou os trabalhos em janeiro passado. Em abril, ela conseguiu que o CFMV emitisse nota de orientação para o uso da substância, uma expressão singela de apoio.
Talita também se movimentou para entender melhor as condições em que os veterinários prescrevem cannabis no Brasil. Em parceria com a Sociedade Brasileira de Profissionais em Pesquisa Clínica (SBPPC), lançou uma pesquisa online aberta a veterinários e tutores. Os resultados serão os primeiros deste tipo no País. Além disso, também conseguiu realizar uma reunião com a Anvisa a fim de que a entidade publique uma portaria autorizando o uso veterinário.
O pedido, no entanto, só ganhará força à medida que outros profissionais fizerem pressão. Além da Anvisa, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) também apita nesse jogo. Como a prática veterinária é regulada pelo Mapa, e os assuntos relativos à cannabis, pela Anvisa, acaba havendo um vácuo decisório. “A gente quer percorrer o mesmo caminho desbravado na regulação da cannabis medicinal para o humano”, apoia Talita.
CONDIÇÕES. Os primeiros registros de uso da cannabis na sociedade e a domesticação de animais datam do mesmo período, há 12 mil anos. O primeiro uso da planta na veterinária veio no século 12, na Índia. Desde então, observou-se a melhora em vários padrões de qualidade de vida de animais alimentados ou tratados com derivados da planta. Mas só recentemente a ciência passou a se interessar no assunto.
Dados exclusivos de um relatório inédito sobre cannabis e mercado pet, que será lançado pela consultoria Kaya Mind, especializada no setor, mostram que, entre 1998 e 2021, houve um aumento de 492% nas publicações científicas no mundo sobre o tema. Em 2018, um estudo da Universidade de Cornell, em Nova York, abordou o uso de óleo de canabidiol para cachorros com osteoartrite.
Estudos e relatos de casos já sustentam a prescrição de derivados da cannabis para tratar várias patologias, como dor crônica, câncer, epilepsia, convulsões, ansiedade, inflamações, hiperestesia e osteoartrite em cães e gatos, com CBD e THC.
O jeito mais seguro de tratar um animal com alguma das indicações clínicas para cannabis é passar por um profissional. Já existem marketplaces, como o Vetcannabis, lançado pela veterinária Karina Wogel, que conectam tutores com veterinários e associações de pacientes. O relatório da Kaya Mind aponta que 16 das 78 associações canábicas pesquisadas no Brasil se manifestam ativamente a favor da cannabis para fins veterinários. •
Fonte: O Estado de S. Paulo