Por Estevão Taiar e Alex Ribeiro — De Brasília
06/02/2024 05h02 Atualizado há 5 horas
O déficit nas contas externas do Brasil fechou 2023 no menor patamar em seis anos. Além disso, foi coberto com folga por investimentos de longo prazo, o que deve se repetir em 2024.
No ano passado, o déficit em transações correntes do Brasil ficou em US$ 28,6 bilhões, o equivalente a 1,32% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o Banco Central. Foi o menor nível do indicador desde 2017, quando ficou em 1,23%, sempre em relação ao PIB.
As transações em conta corrente medem a diferença entre o que o país gasta e recebe nas transações internacionais relativas a comércio, rendas e transferências unilaterais. No entanto, um déficit menor ou um superávit nessas transações não são necessariamente notícias positivas, já que podem estar ligados a um desempenho mais fraco da economia, por exemplo.
O chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha, afirmou, em entrevista coletiva, que o principal fator para a redução do déficit em 2023 foi o “crescente superávit na balança comercial”. Segundo a metodologia adotada pela autoridade monetária, as exportações superaram as importações em US$ 80,5 bilhões no ano passado, recorde para toda a série histórica.
Em sentido oposto, outra das principais contas das transações externas, a renda primária, teve déficit de US$ 72,42 bilhões – o maior resultado negativo de toda a série. Rocha destacou que um dos motivos foi a elevação global das taxas de juros, que gerou déficit de US$ 27,7 bilhões na conta de juros. Já os lucros e dividendos, influenciados pela queda de quase US$ 10 bilhões nas receitas, tiveram a maior remessa líquida desde 2012, alcançando US$ 45 bilhões. Outro destaque de 2023 foram os gastos de turistas estrangeiros no Brasil, que alcançaram o maior patamar da série, atingindo US$ 6,9 bilhões. Rocha chamou atenção para o fato de o número superar os dados de 2014 e 2016, quando houve no Brasil, respectivamente, a Copa do Mundo e a Olimpíada.
Já o Investimento Direto no País (IDP) terminou o ano passado em US$ 61,9 bilhões, ou 2,85% do PIB. Fazem parte do IDP os recursos destinados à participação no capital e os empréstimos diretos concedidos por matrizes de empresas multinacionais as suas filiais no país e vice-versa, assim como o retorno de investimento brasileiro no exterior. Por mirarem um prazo maior, esses recursos também são considerados por diversos economistas a principal fonte de financiamento de déficit externo. Assim, mesmo tendo recuado em relação aos 3,82% do PIB de 2022, o IDP do ano passado foi mais do que suficiente para cobrir o resultado negativo das transações correntes.
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Para 2024, o BC projeta pequeno crescimento do déficit, para 1,5% do PIB, principalmente por causa da estimativa de crescimento das importações. O IDP, de acordo com os cálculos da autoridade monetária, também deve ter pequena alta, para 3% do PIB.
Em relatório, o diretor do departamento de pesquisa econômica para a América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, diz que “a dinâmica de curto prazo das transações em conta corrente permanece benigna”. Ele afirma que fatores como a própria balança comercial e uma taxa de câmbio “competitiva” devem “mitigar o impacto da demanda externa mais fraca”.
Mas também diz que “um ajuste fiscal profundo” é essencial “para permitir um ajuste permanente e estrutural das transações em conta corrente e criar espaço” para a expansão do investimento “sem piorar as contas externas”.
A autoridade monetária ainda divulgou ontem que o estoque do IDP em 2022 superou pela primeira vez, a marca de US$ 1 trilhão. O indicador terminou o ano retrasado em US$ 1,056 trilhão, alta de 12,2% ante 2021 e o equivalente a 42% do PIB. Os EUA eram a principal fonte desses recursos, com participações importantes também de Reino Unido, França e China. Em relação aos setores, os serviços financeiros eram os principais destaques, seguidos por comércio, gás natural e extração de petróleo.
Fonte: Valor Econômico
