Por Judith Evans — Financial Times, de Londres
27/07/2022 05h01 Atualizado há uma hora
Unilever, Coca-Cola e McDonald’s deixaram claro ontem o impacto da inflação global, respondendo aos custos mais altos com aumentos nos preços que pressionarão mais as famílias.
Os alertas de alguns dos maiores grupos de produtos de consumo do mundo sobre a extensão dos aumentos dos preços dos bens básicos ocorreram depois que o Walmart reduziu sua expectativa de lucros e disse que a inflação dos alimentos e dos combustíveis está “afetando o modo como os clientes gastam”.
Com a inflação atingindo os patamares mais altos em décadas em muitos países, a Amazon aumentou os preços de seu plano de associação Prime em seus maiores mercados europeus. A varejista on-line culpou “o aumento da inflação e dos custos operacionais”, enquanto que a Unilever alertou para “um cenário de custos realmente sem precedentes”.
Os preços das marcas do grupo britânico – incluindo o sabonete Dove, a maionese Hellmann’s e os produtos de limpeza Cif – subiram em média 11,2% no segundo trimestre, frente ao mesmo período do ano passado e aumentarão ainda mais, disse a companhia.
Os aumentos ajudaram a Unilever a divulgar vendas acima do esperado, muito embora os volumes tenham sido 2% menores, à medida que os consumidores mudaram para produtos mais baratos.
A Coca-Cola informou uma tendência parecida, com os preços de seus produtos aumentando cerca de 5%, enquanto o McDonald’s disse estar considerando a inclusão de mais opções com descontos em seu cardápio, uma vez que a inflação está levando alguns consumidores a buscar alternativas mais baratas. Um aumento nas vendas foi motivado por “aumentos de preços estratégicos no menu”, disse a companhia.
Outros grupos também sentiram o efeito de os consumidores terem de pagar mais pelos alimentos e outros produtos básicos, com a inflação atingindo o nível mais alto em décadas.
As ações das companhias varejistas dos EUA caíram bastante ontem depois que o Walmart emitiu seu alerta de lucros – o segundo em dez semanas -, uma vez que seus clientes estão evitando comprar itens como roupas.
A ação do Walmart caiu quase 9% depois do alerta de lucro, derrubando os papéis de concorrentes como Ross Stores, Etsy e Nest Buy, que estavam entre os maiores declínios do índice Standard & Poor’s 500 (S&P 500) na manhã de ontem.
As empresas de bens de consumo estão lutando para repassar os custos mais altos para os varejistas, embora isso possa levar os consumidores sem dinheiro a buscar opções mais baratas ou parar totalmente de comprar. A confiança do consumidor americano caiu em julho para o nível mais baixo desde fevereiro de 2021, segundo dado divulgado ontem.
A Unilever disse que está perdendo participação de mercado para as marcas próprias dos supermercados, especialmente na Europa, e como resultado disso está aumentando os gastos com propaganda. A empresa acredita que suas margens sofrerão um golpe este ano à medida que ela absorve alguns dos aumentos de custos de matérias-primas e bens.
Alan Jope, presidente-executivo da Unilever, alertou: “Estamos entrando em um período de crescimento econômico mais lento. Ainda não sabemos se teremos uma recessão total. Nossa capacidade de navegar nessas condições depende quase que totalmente da força de nossas marcas”.
James Quincey, presidente-executivo da Coca-Cola, disse que os consumidores ainda não estão reduzindo as compras dos produtos da empresa, mas acrescentou: “Um padrão tipicamente recessivo… seria os consumidores inicialmente pararem de comprar itens caros, coisas discricionárias. Vou trocar de carro depois, vou substituir o colchão depois”.
“Em seguida, eles começariam a poupar comprando itens mais baratos. Podemos ver, em algumas categorias em alguns países, o que parece ser o começo desse processo”, disse Quincey.
Outros grupos de bens de consumo como Reckitt Benckiser, Procter & Gamble (P&G) e Nestlé devem informar seus lucros ainda nesta semana.
As empresas também enfrentam a pressão de funcionários por salários maiores, enquanto estes tentam lidar com o aumento do custo de vida. Jope disse: “Nos perguntam frequentemente: ‘Os salários vão acompanhar a inflação?’. E a resposta é não. A inflação é um flagelo e afeta o padrão de vida de todos”. (Colaboraram Lydia Tomkiw e Andrew Edgecliffe-Johnson, de Nova York, e Adam Samson, de Londres)
Fonte: Valor Econômico
