Ao fim de uma conferência que reuniu diversos investidores locais e estrangeiros por dois dias, a conclusão aparente é de que o otimismo com o Brasil está de volta, ao menos no curto prazo. Essa foi a sensação do chefe de mercados globais do Citi Brasil, Eduardo Miszputen, e do economista-chefe para Brasil do banco, Leonardo Porto, que conversaram com o Valor logo após o fim do evento e compartilharam as percepções sobre o sentimento dos investidores, em uma entrevista que abordou ainda o cenário econômico do banco.
A tendência de enfraquecimento global do dólar, aliada à demanda dos estrangeiros por diversificação de carteiras para fora dos Estados Unidos, tem encontrado no Brasil um mercado com juros bastante elevados e “valuations” atraentes, o que tem ajudado a sustentar o bom desempenho dos ativos locais, em uma tendência que, na visão do Citi, tem espaço para continuar nos próximos meses.
“Os investidores de portfólio estão menos preocupados com o que vai acontecer em 24 meses e mais preocupados com o que vai acontecer nos próximos três meses. E houve uma mudança importante de percepção. Conversei com vários investidores e vi vários deles falando que o Brasil parece um país atrativo do ponto de vista de investimento e alocação de capital”, afirma Miszputen.
De acordo com o executivo, na visão dos estrangeiros o Brasil está bem posicionado tanto para as alocações em renda fixa quanto para renda variável. Não é possível, contudo, afirmar por quanto tempo essa visão mais otimista irá durar. “Gostaria de acreditar que a eleição possa ser um fator positivo para essa dinâmica de expectativas e que isso então ainda dure um tempo mais. Mas, hoje, é uma visão otimista dos empresários”, classifica.
Ainda que a visão dos investidores tenha passado a ser mais positiva para o Brasil, Leonardo Porto afirma que o movimento de apreciação do real observado em 2025 é fruto quase que exclusivamente do ambiente global mais benigno.
“Desde o ‘Liberation Day’ [dia em que Trump anunciou tarifas sobre seus parceiros comerciais], vimos uma forte apreciação do real, mas nada diferente do que aconteceu com as outras moedas emergentes. Dentro de uma cesta de moedas, a apreciação do real, controlada pelo ‘beta’ [medida de volatilidade em relação ao mercado], não está diferente. Essa mesma conclusão eu tiro quando eu olho o CDS [Credit Default Swap – medida de risco país] do Brasil. Se fossem fatores domésticos, tanto o câmbio quanto o CDS estariam tendo desempenho superior aos países emergentes. Não é isso o que está acontecendo”, enfatiza Porto.
No entanto, houve outros momentos no passado recente em que os ativos brasileiros exibiram um desempenho bastante inferior ao dos pares, pressionados pela perspectiva de insustentabilidade da trajetória da dívida, que persiste. Perguntados sobre o motivo de os problemas relacionados às contas públicas não estarem tão presentes na avaliação dos investidores agora, os profissionais apontam para uma combinação de fatores.
Segundo Miszputen, houve um excesso de fluxo de capital que migrou para os EUA nos últimos cinco anos e, agora, há um questionamento sobre a continuidade do “excepcionalismo” americano e dúvidas sobre se os títulos americanos são, de fato, livres de risco. “Qualquer mínima realocação de recursos dos EUA para o mundo vai beneficiar alguns países e o Brasil está sendo percebido como bem posicionado nesse sentido.”
Do ponto de vista doméstico, contudo, os profissionais do Citi avaliam que parece não haver nenhuma surpresa sobre como o governo tem conduzido a política econômica e fiscal. Além disso, para Miszputen, a economia está performando bem, com uma inflação relativamente equilibrada.
“Chegamos ao que se espera ser o pico de juros para o Brasil e há, no horizonte de médio prazo, um potencial para o início do ciclo de corte de juros. Isso torna o ambiente brasileiro favorável do ponto de vista dos investidores. Devemos continuar vendo um fluxo de capital de portfólio migrando para o Brasil em um saldo líquido positivo nos próximos meses. Talvez esse otimismo seja um pouco exagerado e depois exista alguma correção, mas eu acho que podemos ver um cenário otimista para o Brasil nos próximos seis a nove meses”, diz.
Na avaliação de Miszputen, o Brasil também se beneficia por ser um país com pouco risco relacionado à aplicação de tarifas comerciais dos EUA, pela capacidade de exportar para múltiplos países e pela característica de ser um produtor de commodities, produtos pelos quais sempre há demanda nos mercados globais.
Além disso, de acordo com o executivo, o mercado parece saturado da conversa sobre a condução da política fiscal e sinaliza acreditar que o governo vai fazer o que pode para entregar o resultado fiscal próximo de zero. “No longo prazo não é suficiente, mas pelo menos nos coloca em estado de sobrevida por alguns anos”, pontua.
Leonardo Porto complementa, ao apontar que a derrubada do decreto que aumentava o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) parece ampliar o risco de uma alteração da meta de resultado primário de 2026 – hoje fixada em um superávit de 0,25% do PIB. No entanto, o mercado tem ignorado o episódio, em larga medida, já que o governo tem apresentado outras medidas para tentar cobrir o rombo, como as receitas extraordinárias com o leilão do pré-sal e a redução dos benefícios tributários. Outra razão é que o sinal que isso envia para a trajetória da dívida é bem menos preocupante do que a mudança de meta de resultado primário que o governo fez em 2024.
No campo da política monetária, Porto espera o início do ciclo de cortes de juros ocorra apenas em janeiro de 2026. O risco neste momento, segundo ele, é maior de o Banco Central postergar o afrouxamento. Ele, inclusive, elogia o trabalho da autoridade monetária, ao avaliar que “o BC está fazendo o melhor que dá para fazer enquanto temos um quadro clássico de economia superaquecida”.
Fonte: Valor Econômico
