A China já começa a se transformar em um grande alvo na campanha eleitoral dos Estados Unidos, enquanto o governo do presidente Xi Jinping tem mostrado resistência a qualquer medida que possa sair pela culatra na segunda maior economia do mundo.
Esse comedimento da China ficou bem à mostra na semana passada, depois que o presidente dos EUA, Joe Biden, ter criticado Pequim como “xenófoba” e prometido triplicar as tarifas sobre as exportações de aço e alumínio da China, durante um evento de campanha em um Estado indeciso, no chamado “cinturão da ferrugem”, onde a indústria é forte e há postos de trabalho em jogo.
No mesmo dia, Washington abriu uma investigação sobre o setor de construção naval do país rival, derrubando as ações de empresas chinesas dessa indústria. O Congresso também acelerou os esforços para obrigar o TikTok a se desvincular de sua controladora chinesa, a ByteDance Ltd., ao incluí-los em um projeto de lei de auxílio internacional que foi aprovado no sábado (20).
A resposta da China a tudo isso tem sido relativamente contida. Em uma medida em grande parte simbólica, Pequim impôs tarifas de retaliação sobre o ácido propiônico, um mercado de exportação que em 2023 movimentou apenas US$ 7 milhões para os EUA, segundo dados da alfândega.
Autoridades chinesas minimizaram a investigação sobre transporte marítimo como se tratando de uma questão de “política interna” americana e driblaram as críticas de Biden, que haviam sido direcionadas às políticas de imigração chinesas, questionando se ele, na verdade, não estaria falando sobre os EUA.
Após a reunião entre Xi e Biden em novembro, “os chineses compreenderam que as relações EUA-China não seriam perfeitas, mas que houve uma melhoria em relação ao ano passado”, disse Zhu Junwei, ex-pesquisador do Exército de Libertação Popular que agora é diretor de pesquisas americanas no Grandview Institution, um centro de estudos em Pequim. “A China está aprendendo a ser mais prática, mais pragmática — a compartimentar diferentes áreas.”
As autoridades chinesas já precisam lutar contra uma longa crise imobiliária e o enfraquecimento da demanda interna, de forma que veem poucos incentivos para entrar em uma escalada nas tensões. Pequim conta com a força do consumidor americano, uma vez que está recorrendo às exportações para atingir sua meta de crescimento anual de cerca de 5%.
Outro motivo para a moderação: as últimas medidas dos EUA têm impacto imediato mínimo. A China vende pouco dos metais que estão no alvo dos EUA, e a investigação sobre construção naval levará tempo. O Senado ainda precisa aprovar o projeto de lei do TikTok, e a empresa pode entrar com pedido de mandado judicial se Biden assinar a proposta.
Autoridades de alto escalão da Casa Branca tentam manter linhas de comunicação abertas para proteger o relacionamento. O Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, chegará à China nesta semana, onde detalhará de que forma o apoio das empresas chinesas à máquina de guerra da Rússia está impactando a segurança europeia, de acordo com um alto funcionário dos EUA.
A viagem de Blinken se dá logo depois da visita da Secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, a Pequim no início de abril, e da primeira ligação telefônica entre o novo ministro da Defesa da China e seu equivalente dos EUA.
Embora Pequim possa até dar menos importância para as tarifas, que são em grande medida simbólicas, a possibilidade de o TikTok ser adquirido por uma entidade americana parece preocupar a China. Nos bastidores, funcionários da embaixada chinesa vêm se encontrando reservadamente com auxiliares parlamentares para fazer lobby contra o projeto, de acordo com notícia do site “Politico” na quarta-feira (17).
O governo chinês tem sinalizado que não permitirá uma venda forçada do aplicativo, que tem 170 milhões de usuários americanos e que, segundo oficiais da segurança nacional dos EUA, poderia ser usado para manipular a eleição. A popular plataforma de compartilhamento de vídeos sustenta estar comprometida em “proteger a integridade” da eleição.
Outra opção é que Pequim aplique medidas internas, que já havia aprovado para controlar exportações de tecnologia e aquisições estrangeiras. Isso lhe permitiria retirar os algoritmos do TikTok, desestimulando qualquer venda, de acordo com o centro de estudos Carnegie Endowment for International Peace.
“A reciprocidade é uma característica fundamental na formulação das políticas comerciais e externas da China”, disse Josef Gregory Mahoney, professor de relações internacionais na East China Normal University, em Xangai, acrescentando que Pequim também tem ciência da natureza de linha mais dura, inerente ao ciclo eleitoral dos EUA.
O adversário de Biden, Donald Trump, prometeu impor tarifas de 60% sobre as importações da China se conseguir um segundo mandato. O ressurgimento de uma guerra comercial em 2025 é “um dos maiores riscos” para a China, segundo Larry Hu, economista-chefe especializado em China no Macquarie Group Ltd. “Mas é improvável que isso ocorra neste ano.”
Ainda assim, nem toda a tensão se deve à natureza eleitoral. Nos últimos quatro anos, Biden incluiu mais entidades chinesas em listas de vetos do que qualquer outro presidente americano, ao incentivar aliados dos EUA a se juntarem à sua campanha para dificultar o acesso de Pequim a chips de alta tecnologia por questões de segurança nacional.
O governo Biden argumenta que suas restrições à venda de semicondutores de ponta se enquadram em uma estratégia de “jardim pequeno, cerca alta”. Ainda assim, as preocupações com segurança nacional podem atrapalhar o comércio em outras áreas.
Embora a petição dos trabalhadores sindicalizados contra construtoras navais chinesas tenha como foco principal reclamações contra subsídios desleais, também há um elemento de segurança nacional entrelaçado no pedido.
“Não acredito que exista uma política que seria vista como dura demais em relação à China do ponto de vista de Washington”, disse Deborah Elms, chefe de política comercial na Hinrich Foundation. “A China, certamente, quer limitar os danos neste ano.”
Em outro exemplo de como outros setores correm para aproveitar a temporada eleitoral linha-dura, as maiores companhias aéreas dos EUA pediram a Biden em abril para interromper as aprovações de novos voos aos EUA por empresas chinesas, citando as “políticas anticompetitivas” de Pequim.
O apoio de Xi ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, permite que os aviões chineses usem rotas mais curtas sobre o território russo, enquanto as americanas estão proibidas de fazer isso em razão das sanções unilaterais impostas pelos EUA a Moscou após a invasão da Ucrânia.
Ainda não está claro como Biden reagirá a esse pedido. O que está claro, contudo, é que agora a relação entre EUA e China está em situação mais precária, segundo Sun Yun, diretora do programa sobre a China no centro de estudos Stimson Center, em Washington.
“Mesmo quando Washington tem como objetivo estabilizar os laços, a competição ainda é o tema predominante”, disse. “Tendo em vista o ano eleitoral, as coisas não serão fáceis.”
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bandeiras; EUA China — Foto: Andy Wong/Associated Press
fonte: valor econômico
