Varejo fatura mais em janeiro e fevereiro, a indústria aumenta a produção e o preço sobe
Por Natália Flach e Daniela Braun — De São Paulo
O aumento de casos de dengue em todo o Brasil – já são mais de 653 mil casos prováveis, com 113 mortes – tem provocado forte demanda por repelentes neste verão, com impacto no bolso do consumidor. Em janeiro, as vendas dos produtos que protegem contra picadas de mosquitos avançaram 48,3% em relação ao mesmo mês de 2023, segundo pesquisa da Nielsen IQ, obtida com exclusividade pelo Valor. Esse crescimento é 12 vezes maior do que as vendas de todo o varejo no mesmo intervalo. Os preços sobem mais de 15% desde dezembro (ver nesta página).
A procura é tanta que os fabricantes correm contra o tempo para garantir o abastecimento das prateleiras. A farmacêutica Cimed decidiu dobrar a produção de 500 mil para 1 milhão de repelentes por mês. Para isso, a fábrica está operando em três turnos, nos sete dias da semana. “Viramos o ano sem estoque de produtos, mas com suprimentos em casa, já que historicamente a demanda aumenta nos meses de verão. Mas não esperávamos esse surto”, diz Karla Felmanas, vice-presidente da Cimed, que já encomendou insumos extras aos fornecedores.
A medida foi adotada depois que a empresa viu a demanda quase quadruplicar em janeiro em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul e praticamente dobrar em Minas Gerais e em São Paulo.
Esse cenário se traduziu em um aumento de 99,7% no faturamento da Cimed com repelentes nos primeiros 45 dias do ano, alcançando R$ 23,7 milhões. A cifra equivale a 22% da receita projetada para a venda de repelentes neste ano, de R$ 110 milhões. “É possível que a gente supere o valor orçado, e isso se deve ao incremento das vendas e não a uma alta de preços, pois mantivemos os custos para os clientes”, diz Felmanas. A Cimed faturou R$ 87 milhões com repelentes em 2023, pouco mais de 2% da receita total.
A Granado é outra que dobrou a produção do repelentes, após registrar um salto na demanda. Desde janeiro, está fabricando 20 mil unidades em Japeri (RJ). “Há um efeito de sazonalidade do período, mas este ano houve um boom impressionante, puxado por São Paulo e Minas Gerais”, diz André Secco, gerente de canais digitais da Granado. O executivo nota que o aumento de 51% nas vendas em janeiro, e de 163% na primeira quinzena de fevereiro, não provocou falta de produtos nas lojas. “Temos a vantagem de contar com quase 100% da produção própria, então, conseguimos reagir rápido.” A receita avançou 185% nos primeiros 15 dias deste mês em relação a igual período do ano passado, tanto pelo crescimento da demanda quanto pelo reajuste de 5%, que já estava programado. A empresa não informa o total de unidades vendidas nem o valor faturado.
A SC Johnson também não revela números, mas diz que está produzindo de forma ininterrupta as suas duas marcas, OFF e Exposis.
Segundo Ana Beatriz Guerra, responsável pela área de marketing para categoria de pesticidas na Reckitt, a empresa já previa maior número de casos de dengue neste ano, devido à chegada do El Niño, que provoca aumento das temperaturas e maior incidência de chuvas – receita para a proliferação dos mosquitos. Por isso, a companhia apostou em uma comunicação com os varejistas e distribuidores sobre a importância de manter o estoque acima da média. O resultado é que, nesse período, as vendas para os revendedores cresceram dois dígitos.
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A Reckitt, usando a marca SBP, ampliou a comunicação em comunidades carentes como Paraisópolis, Heliópolis e Parque Santo Antônio, em São Paulo, e na Rocinha, no Rio de Janeiro, “reforçando o protocolo de proteção contra os mosquitos e distribuindo produtos”, disse Guerra.
A forte demanda por repelentes não é de hoje, nem deve se limitar a 2024. Segundo a Euromonitor, as vendas dos produtos aumentaram 1,5% no Brasil em 2023 em relação a 2022. Isso equivale a um consumo de 132,4 toneladas dos ingredientes que repelem insetos. Hoje há 680 produtos autorizados no país, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Essa tendência deve seguir nos próximos anos devido às mudanças climáticas. Há expectativa de que o mercado global de repelentes cresça 5,7% por ano entre 2022 e 2030, quando deve alcançar US$ 7,2 bilhões, segundo estudo da Grand View Research. “A maior frequência de epidemias como malária, dengue, zika e chikungunya, tem influenciado os consumidores a aplicar repelentes como modo de prevenir essas doenças”, escrevem os analistas Nilesh Patankar e Jishnu Varma, em relatório.
Esse comportamento ajuda a explicar o aumento da procura pelo assunto “repelente” no Google. Nos últimos 30 dias, o Brasil liderou as pesquisas relacionadas ao produto e caminha para bater em fevereiro seu próprio recorde de buscas desde o início da série histórica em 2004.
Todo esse interesse on-line tem se traduzido em aumento das vendas pela internet. O Mercado Livre, por exemplo, identificou alta de 202% nas buscas por repelentes no ano até 13 de fevereiro. A Amazon teve avanço de 43% nas vendas em janeiro e de 207% em fevereiro ante os mesmos meses de 2023.
No mundo físico, o cenário não é diferente. Em janeiro, as vendas de repelentes aumentaram 45% na rede de farmácias Pague Menos e Extrafarma, puxadas principalmente pelo Estado de São Paulo. “Mesmo com essa demanda, não tivemos casos de desabastecimento. Desde o quarto trimestre de 2023, a empresa tem se preparado para atender à procura sazonal”, diz Larissa Pinheiro, diretora comercial de não medicamentos da Pague Menos. A varejista está, diz ela, com presença ativa nas redes sociais e com promoções no site e nas lojas físicas.
A rival DPSP, que reúne a Drogaria São Paulo e a Pacheco, também viu aumento na procura por repelentes. Somente em fevereiro, a alta acumulada já é de mais de 200%. Já a concorrente Raia Drogasil registrou avanço de 28,6% nas vendas em dezembro, de 54,2% em janeiro e de 246,6% em fevereiro. Segundo a rede, tamanha demanda fez com que os estoques caíssem bastante, mas a companhia já fez novas compras para evitar desabastecimento.
Os repelentes também entraram na lista de compras que os consumidores levam aos supermercados. No GPA, grupo varejista dono das redes Pão de Açúcar e Extra, por exemplo, houve crescimento de quase 60% nas vendas dos produtos entre os meses de dezembro e janeiro, na comparação com o mesmo intervalo dos anos anteriores. O destaque foi a região Centro-Oeste, que registrou um avanço de mais de 150% na comercialização desses produtos. O salto nas primeiras duas semanas de fevereiro foi ainda maior: as lojas de todo o país viram avanço de mais de 250%, puxado pelo Centro-Oeste, com alta de impressionantes 700%.
Na concorrente St. Marche, o cenário não é muito diferente. Com crescimento de 245,6% das vendas na primeira quinzena de fevereiro, a varejista recorreu a um aumento nas compras dos produtos.
“Estamos preparados para atender à alta demanda com estoque garantido, assegurando que nossos clientes tenham acesso aos produtos quando mais precisam”, afirma Rodrigo Galdeano, diretor comercial do St Marche. A rede de supermercados também está promovendo ofertas dos itens nas lojas e dando mais visibilidade aos produtos nas prateleiras. “Acreditamos que com esse tipo de ação ajudamos os clientes a encontrar o produto com mais facilidade, contribuindo para o cuidado com a saúde.”
Fonte: Valor Econômico