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Tatiana Pinheiro: “Mensagem principal é que o foco da atuação do BC parou de melhorar e segue distante do centro da meta” — Foto: Claudio Belli/Valor
Pela primeira vez em mais de um ano, a inflação brasileira registrou uma variação mensal negativa em agosto, ajudada pela queda dos preços de energia elétrica e de alimentos. O mês passado mostrou ainda melhora em algumas aberturas acompanhadas de perto por analistas e pelo Banco Central. Apesar disso, a avaliação é que o alívio foi apenas pontual e que setembro deverá ver reversão destes movimentos, na esteira da estiagem prolongada.
Segundo o IBGE, a inflação oficial brasileira medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), desacelerou para -0,02% em agosto, após alta de 0,38% em julho. O dado veio ligeiramente abaixo da mediana das projeções de 33 instituições financeiras e consultorias, ouvidas pelo Valor Data, de +0,01%, com intervalo de projeções entre -0,10% a +0,13%.
É a primeira deflação em um mês desde junho de 2023 (-0,08%) e também a menor leitura para um mês de agosto desde 2022 (-0,36%).
Em 12 meses, o IPCA recuou de 4,50% em julho para 4,24%, também levemente abaixo da mediana, de 4,27%.
Com queda de 2,77%, o preço da energia elétrica foi o maior vetor individual para deflação do índice cheio em agosto, com contribuição negativa de 0,11 ponto percentual (p.p). Entre grandes grupos, alimentação e bebidas tirou 0,09 p.p. do IPCA cheio, e habitação, outro 0,08 p.p.
O alívio de agosto não deve se mostrar duradouro justamente por reversões nestes dois grupos, alertam economistas. No caso da energia elétrica, a mudança da bandeira tarifária de amarela para vermelha 1 em setembro já contrata um impacto de 0,13 p.p. em setembro, afirma Victor Wong, da Vinland Capital.
“Além disso, já vemos impactos da seca prolongada em algumas safras. Os preços do açúcar, café, leite e frutas subiram nas coletas”, comenta o economista, que espera uma inflação de alimentação no domicílio perto de 1% em setembro.
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Nos cálculos de Daniel Xavier, economista-chefe do banco ABC Brasil, as coletas de preços no varejo implicam, neste momento, uma alta de 0,72% do grupo alimentação. “O risco mais importante relacionado à estiagem, no entanto, refere-se à energia. Trabalhamos com bandeira vermelha 1 até o fim do ano, mas uma elevação para bandeira vermelha 2 adicionaria outros 10 pontos-base nesta projeção”, nota.
Em relação à parte qualitativa, os dados mostraram descompressão em medidas de núcleo e em aberturas ligadas ao setor de serviços, importantes preditores da inflação futura e acompanhadas de perto pelos analistas de política monetária.
A Warren Investimentos destaca leituras de inflação de serviços subjacentes e dos cinco núcleos de inflação acompanhados pelo BC vieram menores que o esperado. Na métrica dessazonalizada e anualizada, a primeira desacelerou de 5,59% para 5,35% em agosto, enquanto a segunda passou 4,63% para 4,37%.
A desaceleração dos núcleos é sinal de que, embora os riscos ligados à atividade forte e ao mercado de trabalho aquecido permaneçam presentes, esse contágio ainda não se concretizou, avalia o economista-chefe da Constância Investimentos, Alexandre Lohmann.
“Há esse receio de reaceleração dos núcleos, mas isso não vem sendo observado. Alguns sustos recentes se mostraram pontuais, como a dos serviços em julho, que estavam ligados à alta do seguro veicular após as enchentes no Sul”, nota.
Este alívio, no entanto, ainda é insuficiente, segundo Xavier, do ABC Brasil, já que reforça a percepção de que a desinflação observada a partir de meados de 2022 estagnou.
“As médias móveis anualizadas de três meses, seis meses ou 12 meses apontam todas nessa direção. A média dos núcleos em três meses está em 4,6%, acima do teto da banda de inflação. Ao mesmo tempo, a difusão dos serviços subjacentes subiu a 60,8%”, ressalta.
Tatiana Pinheiro, a economista-chefe da Galapagos Capital, também destaca a “cristalização” de importantes medidas de inflação acima do intervalo estabelecido pela autoridade monetária. No acumulado em 12 meses, sublinha, os serviços intensivos em mãos de obra sobem 5,57%, e os subjacentes, 5,06%.
“A mensagem principal é que o foco da atuação do BC parou de melhorar e segue distante do centro da meta.”
A economista ainda chama atenção para o comportamento dos ‘tradables’, itens sensíveis a variação do câmbio. Após meses rodando em patamar baixo, eles já acumulam alta de 2,0% em 12 meses. No caso dos alimentos comercializáveis externamente, o avanço já chega a 4,99%.
Em meio a tantos riscos altistas ao cenário, os analistas citam apenas um fator que pode contribuir na direção contrária no curto prazo. A defasagem entre os preços doméstico e internacional dos combustíveis sugere que a Petrobras pode anunciar em breve um corte do na gasolina.
Nas contas de Wong, da Vinland, a diferença atual justificaria um corte de até 10% no preço. “Mas no nosso cenário, prevemos uma redução menor, de 6%, já que a Petrobras tem se mostrado mais conservadora tanto nos ajustes para cima quanto nos para baixo”, diz. Assim, o projeção de IPCA da gestora para 2024 está em 4,60% – acima do teto da meta de inflação -, afirma o economista.
Fonte: Valor Econômico

