Por Rafael Vazquez e Alessandra Saraiva — De São Paulo e do Rio
06/07/2022 05h00 Atualizado há 6 horas
A produção da indústria brasileira cresceu 0,3% em maio ante abril, segundo a Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF), divulgada ontem pelo IBGE. O desempenho ficou abaixo da mediana de 0,6% das estimativas de 28 instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor Data, mas foi considerado positivo pelos economistas diante do contexto global e doméstico.
Para Mirella Hirakawa, economista da Az Quest, o resultado abaixo da expectativa é explicado por dois fatores. “Primeiro por uma revisão para cima em abril de [0,1% para 0,2%] e a segunda uma queda significante da indústria extrativa, que caiu 5,6% no mês”, diz. Mas é um item que tem trazido volatilidade desde o começo do ano, quando vimos os efeitos das chuvas em Minas Gerais que diminuíram a atividade na região.”
Para o economista do banco Original Eduardo Vilarim, crescimento de 0,3% é pouco, mas é melhor do que zero. “A indústria de transformação até que foi bem com crescimento de 0,8%. Não é um grande número, mas é marginalmente positivo. Destaco também a produção de veículos que subiu 3,7%, e tem um peso grande. É um resultado importante”, acrescentou.
A economista-chefe da CM Capital, Carla Argenta, chamou a atenção para a performance positiva da indústria de transformação em contraponto à queda de 5,6% da extrativa. “A indústria extrativa, que atende majoritariamente o mercado internacional, apresentou recuo expressivo, enquanto a indústria de transformação, mais voltada para o mercado doméstico, apresentou crescimento. Temos aí uma ideia de onde está vindo esse crescimento”, apontou.
O gerente da pesquisa do IBGE, André Macedo, também destacou o desempenho da atividade interna, embora tenha ponderado que fatores macroeconômicos como juros e inflação elevados têm impedido uma performance melhor. “De maneira geral, há uma melhora no desempenho da indústria nos últimos quatro meses que pode estar relacionada às medidas de incremento da renda implementada pelo governo, liberação de recursos do FGTS e antecipação do 13º para aposentados e pensionistas”, afirmou em comunicado.
João Savignon, economista da Kínitro Capital, disse que o crescimento no mês é pequeno, mas ao menos mostra um ritmo seguido de alta após a forte queda industrial em janeiro, quando todo o setor caiu 2%. “Foi o quarto resultado positivo da indústria; 0,3% não é excelente, mas pelo menos está mostrando uma continuidade desse crescimento”.
Savignon também considerou positivo o perfil mais disseminado da alta em maio, já que o índice de difusão subiu de 62% para 73% entre abril e maio. Além disso, Três das quatro grandes categorias pesquisadas tiveram alta. Bens de capital subiu 7,4% em maio ante abril, bens duráveis avançou 3% e semiduráveis e não duráveis teve alta de 0,8%. A produção de bens intermediários, de maior peso, caiu 1,3% no período.
Savignon prevê crescimento da atividade, o que proverá uma sequência de cinco meses positivos para o setor industrial. Diante do contexto, com o cenário externo desfavorável, o primeiro semestre pode ser considerado positivo. Para Carla Argenta, isso não será suficiente para apagar completamente a queda de janeiro.
A indústria acumula queda de 2,6% no ano e recuo de 1,9% em 12 meses. O setor está 1,1% abaixo do patamar pré-pandemia, em fevereiro de 2020 e 17,6% abaixo de nível recorde do patamar industrial atingido em maio de 2011.
O cenário é complexo. “A Selic possui efeitos defasados. Como o Banco Central aumentou a taxa de juros muito rápido, os efeitos vão ser sentidos a partir de agora com encarecimento do crédito e impactos principalmente sobre os investimentos. Isso deve afetar bastante a indústria”, alerta Vilarim.
Fonte: Valor Econômico

