Gestoras de crédito privado voltaram a fechar fundos de debêntures incentivadas para captação após a aceleração no ritmo de entrada de recursos. Na última semana, Sparta, Legacy e ARX fizeram esse movimento, que em breve pode ser seguido por outras casas.
Por trás da decisão estão os altos volumes de captação, que ganharam ainda mais força diante da ameaça da tributação desse tipo de debênture, usada por companhias como forma de financiar investimentos em infraestrutura. Também pesa o atual nível das taxas dos títulos, que encolheram à medida que o interesse dos investidores cresceu.
“Os spreads [diferença dos papéis para seu título público de referência, que, nesse caso, são as NTN-Bs] hoje estão reduzidos em um nível que, em alguns casos, o papel tributado passa a ser melhor que o não tributado. Isso não acontecia há muito tempo”, diz Ulisses Nehmi, CEO da Sparta.
A gestora fechou na semana passada o Sparta Debêntures Incentivadas, com liquidez a cada 30 dias, após atingir patrimônio líquido de R$ 1,3 bilhão. Um fundo nos mesmos moldes, mas com liquidez de 45 dias e patrimônio líquido de R$ 500 milhões, deixará de receber aportes quando atingir R$ 800 milhões.
A medida provisória (MP) que previa a cobrança de Imposto de Renda, a partir de 2026, dos investidores pessoa física acabou caducando, mas o interesse segue forte, segundo Nehmi. “O investidor que não considerava esse risco da tributação passa a considerar, pensando que uma hora a isenção pode acabar”, afirma. “Foi uma ótima propaganda para os papéis.”
A aceleração das captações também levou a Legacy a fechar um de seus fundos, o Legacy Capital Compound CDI Ativo, que tem quase R$ 4 bilhões de patrimônio líquido e busca gerar retornos por meio da combinação de uma carteira de debêntures incentivadas com a gestão ativa de renda fixa.
Leonardo Ono, gestor de crédito privado da Legacy, afirma que a asset nunca havia passado por uma situação semelhante. “Sempre tivemos um ritmo de captação mais parcimonioso. Nosso passivo é relativamente estável e crescemos de forma gradual”, diz Ono. O cenário mudou à medida que avançaram as discussões sobre a tributação desses títulos.
Outros fundos de incentivadas da Legacy, baseados em estratégias distintas – como os atrelados à inflação ou aos juros prefixados – e que apresentam dinâmicas de captação diferentes, continuarão abertos, segundo Ono.
Na ARX, a decisão foi semelhante. A gestora resolveu fechar dois fundos de debêntures incentivadas atrelados ao CDI, enquanto os veículos em IPCA continuarão abertos. “Gostaríamos de ver mais captações em IPCA, onde a experiência do cliente pode ser melhor. Em CDI, os novos investidores estão olhando muito para o retrovisor. Mas com os spreads atuais não tem muito como entregar daqui pra frente o mesmo desempenho”, afirma Pierre Jadoul, diretor-executivo responsável pelas estratégias de crédito da ARX.
Com os fundos fechados, o mercado controla um pouco a entrada de recursos, diminuindo a pressão”
A Ibiúna também não descarta interromper a captação de fundos, segundo Eduardo Alhadeff, sócio e diretor de investimento da área de crédito da asset. “As empresas estão com um ‘pipeline’ [operações em preparação] mais fraco, o que agrava a situação. Novas emissões estão saindo, mas com o prêmio de risco ainda mais reduzido. Ainda que o fechamento não esteja no nosso cenário central, seguimos monitorando semana a semana.”
Alhadeff lembra que, mesmo em momentos de spreads pouco atrativos, as gestoras precisam enquadrar os fundos em determinadas regras para manter a isenção dos investidores e comprar papéis mesmo quando as taxas estão aquém do esperado.
No ano passado, foram pelo menos duas ondas de fechamento de fundos de incentivadas para captação. A primeira ocorreu em maio, após mudanças nos prazos de títulos como LCIs e LCAs (lertras de crédito imobiliário e do agronegócio, respectivamente) que impulsionaram a entrada de dinheiro nos fundos. A segunda foi em meados de setembro, depois de uma nova compressão de spreads.
Agora em 2025, a corrida por ativos isentos influenciou na queda acentuada das taxas a partir de junho, como explicam os estrategistas do Santander, Aline Cardoso e Guilherme Motta, em relatório recente. Em agosto, os spreads chegaram a níveis negativos em relação à curva de referência das NTN-Bs, “ilustrando a atratividade do retorno líquido após a incorporação do benefício fiscal”, dizem os analistas.
O índice Idex-Infra, elaborado pela JGP e que considera títulos mais líquidos, fechou setembro com spread negativo de 22,5 pontos-base (0,225 ponto percentual) frente aos títulos públicos. Em junho, o spread era positivo em 30 pontos (0,3 ponto percentual).
Na avaliação da equipe de análise do Santander, com a derrubada da MP, há espaço para algum tipo de correção técnica. A visão predominante no mercado, porém, é a de que os spreads permanecerão historicamente baixos devido a fatores como o ritmo reduzido de novas emissões, a demanda estruturalmente forte por ativos isentos e a menor percepção de risco regulatório, diz o relatório.
Ono, da Legacy, espera que ocorra uma diminuição da pressão compradora sobre os papéis com o fechamento de fundos para captação pelas assets. “Com os fundos fechados, o mercado controla um pouco a entrada de recursos, diminuindo a pressão para quedas maiores. Mas também não acho que os spreads irão abrir”, diz. Para Jadoul, “uma correção de 20 a 30 pontos-base [0,2 a 0,3 ponto percentual] seria algo saudável”, embora ele reconheça que é difícil prever se e quando acontecerá.
Fonte: Valor Econômico
