Por James Kynge — Financial Times, de Londres
28/08/2023 05h02 Atualizado há 5 horas
Quando o presidente da China, Xi Jinping, fez um “discurso importante” na Organização das Nações Unidas (ONU) em setembro de 2021, ele parecia ser pouco mais que uma lista de clichês edificantes. Xi disse que o mundo precisava de “harmonia entre o homem e a natureza” e acrescentou que o desenvolvimento econômico deveria trazer “benefícios para todos”.
Foi tão escasso em detalhes concretos que a mídia global praticamente o ignorou. As elaborações que se seguiram, porém, deram ao discurso um significado crucial. Isso porque Xi o usou para propor um novo programa, a Iniciativa de Desenvolvimento Global (IDG), que hoje ganha reconhecimento como a pedra fundamental no modelo da China para uma ordem mundial alternativa que desafie a do Ocidente liderado pelos EUA.
À primeira vista, a IDG é apenas um programa multilateral liderado pela China para promover o desenvolvimento, amenizar a pobreza e melhorar as condições de saúde no mundo em desenvolvimento. Mas, com mais dois projetos anunciados por Xi – a Iniciativa de Segurança Global e a Iniciativa de Civilização Global -, ela representa o movimento mais ousado da China até agora para conseguir o apoio do “Sul Global”, ampliar a voz de Pequim no cenário mundial e fortalecer o perfil da China na ONU, na avaliação de autoridades chinesas e analistas.
“[As iniciativas de Xi] mostram da forma mais evidente até agora a intenção chinesa de renovar regras de governança global escritas pelo Ocidente como um coletivo depois da 2ª Guerra”, diz Yu Jie, pesquisadora da Chatham House, um centro de estudos de Londres.
Emergentes com regimes autoritários veem a nova ordem da China como benéfica para seu poder interno” Xu Chenggang
“Os planos mostram que a China está firmemente convencida de que as relações com o Ocidente continuarão turbulentas na próxima década”, acrescenta.
A ascensão das potências médias. A chave do projeto da China é institucionalizar progressivamente sua liderança sobre as economias emergentes, ao criar, expandir e financiar vários agrupamentos de países liderados por ela, de acordo com autoridades chinesas e analistas. Os objetivos dessa estratégia são principalmente garantir que uma ampla faixa do mundo continue aberta ao comércio e aos investimentos chineses e usar o voto dos países emergentes na ONU e em outros fóruns para projetar poder e valores chineses.
O contexto essencial para a estratégia é que, ao buscar uma liderança maior no Sul Global, a China se une à parte maior e que cresce mais rápido do mundo. Os 152 países classificados como emergentes na ONU superam em muito os desenvolvidos em vários critérios, como tamanho e crescimento populacional, taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nas últimas duas décadas e parcela de contribuição ao crescimento do PIB mundial.
Pela primeira vez na história, no início deste ano a China exportou mais para o mundo em desenvolvimento – representado pelos países que fazem parte da Iniciativa do Cinturão e da Rota (BRI, na sigla em inglês) – do que para os EUA, a União Europeia e o Japão juntos, segundo dados coletados pela corretora chinesa Dongwu Securities.
“A China sempre será um membro da família dos países em desenvolvimento”, disse Xi em um fórum em 2021. “Continuaremos a fazer o máximo para aumentar a representação e a voz das nações em desenvolvimento no sistema de governança mundial.”
A lista de instituições internacionais em que Pequim espera ampliar sua influência e, por extensão, a do mundo em desenvolvimento, está cada vez maior. Ela inclui a ONU, a Organização Mundial do Comércio (OMC), o G-20 e outros, segundo autoridades chinesas. Além disso, Pequim advoga pela expansão do número de membros de vários agrupamentos em que já têm um papel de destaque, como a Organização para Cooperação de Xangai, o Brics (originalmente, com Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e outros.
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“Não devemos minimizar os esforços do Partido Comunista Chinês para estabelecer uma nova ordem mundial”, diz Xu Chenggang, pesquisador da Universidade de Stanford. “Países emergentes com regimes autoritários começam a perceber que a nova ordem da China é benéfica para seu poder interno e sua política externa.”
Multilateralismo com características chinesas. A ONU – com suas 15 agências que exercem a governança global em áreas como finanças, telecomunicações, saúde e redução da fome – está em “pleno centro” da visão de mundo da China e de seus planos para aumentar sua influência, diz uma autoridade chinesa, que pediu para não ser identificada.
Ela também é o foco da tentativa de Pequim de ganhar influência por meio das três iniciativas de Xi. A ação mais importante até agora veio na forma do novo fórum da ONU que a China fundou em 2020. Chamado de “Grupo de Amigos da Iniciativa de Desenvolvimento Global”, ele tem cerca de 70 países membros, já fez sua primeira reunião ministerial e ganhou o aval do secretário-geral da ONU, António Guterres, de acordo com documentos oficiais chineses.
Um porta-voz da ONU e autoridades chinesas disseram que a lista completa dos países participantes é confidencial. Mas uma lista organizada pelo “Financial Times” de 20 países que se acredita serem membros mostra que o grupo inclui muitos dos maiores devedores da China no BRI. Por meio da Iniciativa do Cinturão e da Rota, desde 2013 as instituições financeiras chinesas forneceram créditos de quase US$ 1 trilhão para países emergentes, principalmente para projetos de infraestrutura.
Um estudo do laboratório de pesquisa AidData, dos EUA, mostra que os 20 países da lista exibiram uma lealdade impressionante à China na forma de votos na ONU. Entre 2013 e 2020, cada um deles votou com a China em pelo menos 75% das ocasiões na Assembleia-Geral da ONU, a principal instância de definição de políticas da entidade, que faz recomendações sobre crises mundiais, decide as nomeações para cargos internos e supervisiona o orçamento da ONU.
No caso de Camboja, Laos, Paquistão, Tajiquistão, Usbequistão e Zimbábue – que têm dívidas pesadas com a China -, a pesquisa mostra que eles se alinharam com a China na Assembleia em 80% ou mais das votações.
A correlação entre o aumento dos empréstimos e a fidelidade maior nas votações foi consistente em toda a amostra. “Quando os países votam com a China na ONU, eles são recompensados ricamente”, diz Bradley Parks, diretor executivo da AidData. “Pequim tirou do armário uma velha cartilha e usa sua generosidade para comprar favores de política externa.”
“Na média, um crescimento de 10% nos votos alinhados com a China na Assembleia-Geral da ONU rende um aumento de 276% na ajuda e no crédito de Pequim”, acrescenta ele, ao citar pesquisas sobre padrões de votação de um novo livro de Axel Dreher e colegas chamado “Banking on Beijing”.
Em outubro do ano passado, o Conselho de Direitos Humanos da ONU rejeitou uma moção liderada pelo Ocidente para abir uma discussão sobre violações na China, depois que um grupo de países em desenvolvimento apoiou Pequim. O conselho tem 47 membros, dos quais 19 votaram contra a moção e 17 a favor, e 11 se abstiveram.
Esta foi só a segunda vez em que o conselho rejeitou uma moção, nos seus 16 anos de existência. Mas o que tornou a derrota ainda mais extraordinária foi que ela aconteceu apenas algumas semanas depois que o Escritório do Alto-Comissariado para os Direitos Humanos da ONU divulgou um relatório que concluiu que “graves violações dos direitos humanos” foram cometidas por Pequim contra minorias muçulmanas em Xinjiang, uma região no noroeste da China.
Depois dessa vitória, a China garantiu o apoio de 66 países – a maioria deles beneficiária de empréstimos chineses do BRI – para uma declaração na ONU que elogiava seu histórico na área de direitos humanos. O número de seus signatários foi superior ao dos 50 países, quase todos ocidentais, que endossaram uma declaração oposta, que condenava a China.
Para além dessas batalhas pontuais, a China começou a usar o Grupo de Amigos da Iniciativa de Desenvolvimento Global para promover suas definições particulares de conceitos-chave, em um esforço para minar os que são usados pelo Ocidente liderado pelos EUA. Um desses conceitos é o de “verdadeiro multilateralismo”, que a China define como dar status igual para todos os países.
Esta visão é diferente do que a China vê como os abusos da ordem mundial liderada pelos EUA, que caracteriza como uma “política de bloco disfarçada do multilateralismo” ou como tentativas de impor as “regras decididas por alguns poucos países” com o pretexto do multilateralismo, de acordo com um documento oficial chinês.
“Toda a ideia [por trás da definição chinesa] de multilateralismo é se opor ao que Pequim vê como uma hegemonia americana”, diz Collin Koh, pesquisador sênior do Instituto de Defesa e Estudos Estratégicos da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura.
Outra estratégia fundamental da China é apresentar-se como promotora da paz mundial, em parte para compensar danos que sua reputação sofreu quando a Rússia, sua parceira estratégica, invadiu a Ucrânia no ano passado. Algo essencial para essa ambição é a Iniciativa de Segurança Global (ISG), lançada este ano por Xi e planejada como um fórum multilateral liderado pela China.
Seu objetivo, segundo autoridades, é retirar a influência dos EUA nas questões sobre segurança mundial e ao mesmo tempo reforçar o papel da China. Parte da estratégia para conseguir isso é cobrar uma “participação maior da ONU nas questões de segurança” enquanto amplia o peso de Pequim na hierarquia das operações de manutenção da paz da ONU.
Para Pequim, o prestígio que dá às operações de manutenção da paz da ONU faz parte de uma ofensiva maior para se alinhar à causa da paz. Em março, a China negociou um acordo histórico entre a Arábia Saudita e o Irã que pôs fim a um conflito que durava sete anos. Em maio, Xi propôs um plano de paz entre Israel e os palestinos.
Autoridades de Pequim também participaram de um fórum realizado neste mês na Arábia Saudita para discutir como resolver o conflito na Ucrânia.
Autoridades europeias disseram ao “Financial Times” que a participação da China foi “construtiva” e o governo chinês deixou clara sua disposição de participar de novas negociações. (Tradução de Lilian Carmona)
Fonte: Valor Econômico
