No ano passado, quando o livro de memórias de Mike Pompeo, “Never Give an Inch” (“Nunca ceda nem uma polegada”, em tradução livre), circulou entre os líderes chineses, um trecho em particular enfureceu Xi Jinping. O ex-secretário de Estado do ex-presidente Donald Trump escreveu que os EUA deveriam “conceder pleno reconhecimento diplomático” a Taiwan.
A fúria de Xi com o comentário evidenciou uma preocupação mais profunda de Pequim: o que a China deve esperar se Trump e seu círculo retornarem ao poder?
Os quatro anos de Trump na Casa Branca estremeceram a relação entre os dois países. Quando ele deixou o poder, em 2020, Pequim respirou aliviada. “Boa viagem, Donald Trump!” publicou a agência de notícias oficial Xinhua em um raro tweet expressivo.
Agora, as autoridades chinesas se preparam sigilosamente para uma possível volta de Trump à Casa Branca – e para um dramatismo ainda maior nas relações com os EUA, segundo pessoas informadas a respeito de como os líderes chineses pensam.
O presidente Joe Biden também tornou a vida difícil para Pequim ao manter e até mesmo expandir as duras políticas econômicas de Trump para a China e construir coalizões com aliados para fazer frente ao país asiático. Por outro lado, Biden buscou também diminuir o ressentimento em relação a Pequim, um esforço apreciado por Xi, disseram as fontes.
Alguns altos funcionários enxergam benefícios para a China em uma possível vitória de Trump em novembro. Na visão destas pessoas, Trump poderia acelerar o que Xi acredita ser o declínio americano como única potência mundial, causar mais turbulência política e social nos EUA e afastar os aliados que Biden conquistou, ajudando Pequim a reconstruir as relações com a Europa.
Pompeo, que disse estar aberto a participar de um segundo governo Trump, é um dos 28 altos funcionários do governo do ex-presidente colocados por Pequim em uma lista de sanções e proibido de entrar em território chinês. No dia anterior à posse de Biden, uma porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China o chamou de “Palhaço do Século” por afirmar que a China cometeu genocídio contra o grupo étnico uigur em Xinjiang.
Trump e seu principal soldado na guerra comercial, Robert Lighthizer, defendem abertamente que a maior parte do acesso da China aos mercados, tecnologia e capital dos EUA seja cortada.
“Os chineses acreditam que, se Trump voltar à Casa Branca, as vantagens das relações EUA-China seriam limitadas, enquanto os malefícios seriam ilimitados”, disse Yun Sun, diretora do programa da China no Stimson Center, um think tank de Washington.
Xi e seus assessores surpreendidos por Trump, imaginando que o empresário alçado à Presidência acabaria cedendo
O Ministério das Relações Exteriores da China disse em um comunicado que “independentemente de quem for eleito presidente dos EUA, esperamos que trabalhem com a China” para promover a relação bilateral. “A China se opõe ao fato de algumas pessoas nos EUA nos usarem em sua retórica para fins eleitorais”, disse.
Entrevistas com conselheiros de políticas em ambas as capitais e com pessoas próximas a autoridades chinesas dão uma ideia de como Pequim está se preparando para a eleição americana.
Alguns ministérios chineses, como os de relações exteriores, comércio, investimento e tecnologia, designaram funcionários para monitorarem as eleições dos EUA com foco na equipe de Trump.
O potencial de outra guerra comercial é uma das preocupações mais urgentes. As empresas chinesas estão acelerando os esforços para expandir o acesso a tecnologias avançadas como inteligência artificial em regiões como o Oriente Médio, preocupadas com a possibilidade de que uma vitória de Trump gere sanções tecnológicas mais rápidas dos EUA à China.
Apesar dos apelos da secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, e de outras autoridades para que deixe de inundar os mercados mundiais com produtos baratos, a China está focada em uma campanha para usar a indústria como forma de deixar para trás os grandes obstáculos econômicos das últimas décadas. Altos funcionários chineses argumentam que esta é a melhor maneira de competir com os EUA, especialmente se Trump voltar para a Casa Branca.
Durante o governo Biden, houve uma demarcação geopolítica mais profunda com as guerras na Ucrânia e em Gaza que, de maneira geral, deixou EUA e Europa de um lado e China e Rússia do outro. Uma vitória de Trump poderia bagunçar o tabuleiro.
Uma grande preocupação de Xi, segundo fontes próximas à liderança chinesa, é que Trump possa perturbar sua “amizade” com Vladimir Putin. Quando estava na Casa Branca, Trump tentou aproximar os EUA da Rússia em diversas oportunidades.
Xi cultivou uma relação pessoal com o líder russo e teme que, se Trump se aproximar de Putin, isso possa enfraquecer o relacionamento de Pequim com Moscou, um sócio crucial no impasse de Xi com o Ocidente.
Alguns estrategistas chineses dizem que Trump poderia tentar ser um “Nixon ao contrário”. Assim como o ex-presidente Richard Nixon procurou a China para combater a União Soviética durante a Guerra Fria, Trump pode tentar colocar Moscou contra Pequim.
Por enquanto, Washington busca apenas reduzir a ajuda de Pequim à Rússia. O governo Biden está pressionando a China a reduzir seu apoio à indústria de defesa da Rússia – mensagem que o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, entregou a Xi e outros altos funcionários em sua visita à China há cerca de dez dias.
A relação de Pequim com Washington entrou em um período de relativa calma depois que Biden e Xi se encontraram na Califórnia em novembro, uma reunião pensada para romper o impasse diplomático depois que um suposto balão espião chinês sobrevoou os EUA no ano passado.
Ao preparar a programação para o encontro, a equipe de Xi pediu que os dois líderes dessem um passeio juntos. Pequim queria mostrar à população chinesa fotos amigáveis de Xi com Biden – a exemplo das imagens de Xi passeando tranquilamente com então presidente Barack Obama, produzidas em um encontro de 2013 – para mostrar que o líder mantém a relação bilateral mais importante da China sob controle.
A Casa Branca aceitou. A reunião de quatro horas em uma propriedade arborizada nos arredores de São Francisco incluiu um passeio amplamente televisionado dos dois líderes.
O governo costuma dizer que busca gerenciar com responsabilidade a competição entre EUA e China, embora Biden tenha basicamente mantido a postura comercial do governo Trump.
“Os chineses sabem o que não gostam em Biden”, disse Rick Waters, ex-funcionário do Departamento de Estado americano para a China, hoje diretor administrativo para a China na consultoria de risco político Eurasia Group. “Mas eles valorizam o esforço de Biden para tentar estabilizar a relação.”
Desde a reunião, no entanto, apesar da criação de mais de dez grupos de trabalho para retomar as negociações sobre comércio e outras políticas e uma recente ligação telefônica entre Biden e Xi, há pouco realmente acontecendo em termos de negociação.
Os chineses “devem achar que não tem sentido discutir com o governo de Joe Biden se ele estiver prestes a desaparecer”, disse Scott Kennedy, especialista em China do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.
A surpreendente vitória de Trump em 2016 afetou a estratégia dos EUA de aprofundar os laços econômicos com a China. Xi e seus subordinados inicialmente acreditavam que o discurso duro de Trump mascarava o medo do poder econômico da China. Quando Trump começou a impor tarifas à China no início de 2018 para obrigar Pequim a mudar suas práticas econômicas pautadas pelo Estado, Pequim revidou na mesma moeda todas as vezes, imaginando que o empresário alçado à Presidência acabaria cedendo.
“Com Trump tivemos uma má experiência”, disse Liu Jianchao, um diplomata do Partido Comunista Chinês visto como provável próximo ministro das Relações Exteriores da China, em sessão fechada no início do ano, segundo pessoas presentes na reunião.
O custo econômico para Pequim das tarifas impostas por Trump – e mantidas por Biden – é palpável. Empresas chinesas atingidas exportaram menos para os EUA, reduziram contratações, investiram menos em pesquisa e desenvolvimento e mostraram-se menos propensas a iniciar novos empreendimentos, segundo pesquisas de economistas da Universidade de Pequim, da Universidade Fudan e de outras importantes universidades chinesas.
No geral, o prejuízo ao Produto Interno Bruto (PIB) da China causado pela guerra comercial foi três vezes maior do que o impacto nos EUA, segundo alguns economistas chineses.
Em Washington, a postura agressiva de Trump em relação à China foi um sucesso. Desde então, formou-se um consenso bipartidário de que o envolvimento anterior dos EUA com Pequim fracassou no intento de fazer a China adotar uma abordagem econômica mais orientada ao mercado.
Ainda assim, a guerra comercial de Trump não cumpriu seus principais objetivos.
A chamada fase 1 do acordo comercial assinado entre Washington e Pequim no início de 2020 centrava-se na promessa da China de aumentar as compras de bens e serviços americanos em US$ 200 bilhões ao longo de dois anos. Segundo estimativas do Instituto Peterson de Economia Internacional, as compras chinesas ficaram 40% abaixo do prometido.
Os EUA não conseguiram as reformas fundamentais das políticas econômicas da China que queriam, como reduzir os subsídios estatais que dão vantagem às empresas chinesas sobre seus concorrentes estrangeiros.
Por enquanto, grande parte do planejamento de Pequim para um possível retorno de Trump passa por tarifas e tecnologia avançada.
Algumas autoridades da equipe econômica estão recorrendo a livros como “No Trade Is Free” (“Não há comércio grátis”, em tradução livre), de Lighthizer, o estrategista comercial de Trump que negociou a fase 1 do acordo com Pequim e é cotado para assumir o Departmento do Tesouro em um segundo governo Trump.
Outras autoridades de Pequim estão convidando especialistas americanos e de outros países ocidentais para sessões de planejamento de cenários destinadas a avaliar o ritmo e o alcance dos controles de exportação dos EUA caso Trump seja reeleito.
Segundo relatório de fevereiro de Jimmy Goodrich, especialista em China e na indústria de semicondutores e conselheiro sênior da Rand Corp, pesquisadores do governo chinês têm tentado aprofundar a cooperação com o Instituto de Inovação Tecnológica de Abu Dhabi em áreas como biotecnologia, computação quântica e inteligência artificial (IA).
Os esforços de Pequim para contornar as sanções tecnológicas dos EUA provavelmente ganharão velocidade nos próximos meses, dizem analistas chineses. A preocupação de Washington é que empresas chinesas consigam obter chips poderosos de IA por meio de outras entidades estrangeiras que os compram dos EUA.
Trump tem afirmado que, se reeleito, pode impor tarifas de até 60% sobre as importações da China. Não está claro como a medida poderia ser colocada em prática.
Fontes próximas à campanha de Trump afirmam que, à medida que a corrida presidencial se intensificar, Trump provavelmente tentará tornar evidente sua postura mais dura em relação à China, enquanto Biden deve usar uma abordagem mais direcionada.
A China já começou a desviar seu comércio dos EUA e de outras economias desenvolvidas. Um relatório do McKinsey Global Institute mostra que economias em desenvolvimento como a Rússia responderam por mais da metade do comércio de bens da China no ano passado, contra 42% em 2017.
Em seu comunicado, o Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que “os fatos comprovam que guerras comerciais e guerras tarifárias não beneficiam nenhum dos lados”. (Tradução de Samuel Rodrigues)
fonte: valor econômico
