Para além das terras raras, a China possui um outro trunfo a ser utilizado nas negociações comerciais com os Estados Unidos: o controle da oferta global de princípios ativos da indústria farmacêutica, os Ingredientes Farmacêuticos Ativos (IFAs).
Segundo autoridades e especialistas, a dependência dos EUA em relação às exportações de produtos base para a fabricação de IFAs é um risco grande demais para ser ignorado, mesmo que a China não tenha ameaçado diretamente o fornecimento de medicamentos.
A ampla influência de Pequim se estende a montante, aos produtos químicos brutos, solventes e reagentes conhecidos como “materiais de base”, necessários para a fabricação dos próprios IFAs.
A reação global que o país asiático enfrentaria se tentasse interferir em terapias que salvam vidas tem dissuadido Pequim de exercer seu domínio — por enquanto. Isso poderia mudar se a guerra comercial do presidente americano, Donald Trump, escalasse ao máximo.
“A China demonstrou estar disposta a transformar alavancas econômicas em armas quando isso atende aos seus interesses. Medicamentos e seus insumos não são exceção”, disse o deputado republicano John Moolenaar, presidente do Comitê Seletivo da Câmara sobre a China. “Precisamos construir resiliência e garantir cadeias de suprimentos.”
O presidente chinês, Xi Jinping, já anunciou controles de exportação com potencial de impactar o setor médico. As restrições da China sobre sete metais em abril afetaram ímãs poderosos usados em aparelhos de ressonância magnética. Pequim seguiu este mês com restrições a cinco elementos, incluindo túlio e érbio, essenciais para lasers médicos.
Até agora, a China tem se preocupado em enfatizar que sua intenção é impedir que os materiais cheguem às indústrias de defesa. Regras recentes também estabeleceram exceções para cenários humanitários, sinal de que Pequim está ciente das sensibilidades relacionadas à saúde.
Sun Chenghao, pesquisador da Universidade Tsinghua, em Pequim, disse que estender uma guerra comercial a este setor prejudicaria a credibilidade da China. “Produtos farmacêuticos dizem respeito à saúde humana e à própria vida”, afirmou. “Transformá-los em uma ferramenta geopolítica contraria a filosofia diplomática da China.”
Antes desse encontro com Xi, Trump reconheceu a vulnerabilidade dos EUA e prometeu trazer a produção farmacêutica de volta ao país. “Tudo está voltando”, disse Trump à Fox Business no domingo. “Vou colocar tarifas sobre medicamentos, a menos que sejam fabricados aqui.”
Embora o controle de Pequim sobre os produtos farmacêuticos globais tenha alguns paralelos com sua posição nos metais raros, a natureza do processo de produção e das cadeias de suprimentos para medicamentos é um pouco diferente.
Ainda assim, Yanzhong Huang, pesquisador sênior em saúde global do Council on Foreign Relations, vê uma “possibilidade real” de instrumentalização. “Pequim já demonstrou grande consciência dessa alavanca”, afirmou, citando ameaças publicadas na mídia estatal chinesa durante a Covid de impor controles de exportação de medicamentos em retaliação a uma proibição de viagens dos EUA.
O que dá razão para Pequim hesitar, disse Huang, é a certeza de uma retaliação severa. Um embargo negaria aos pacientes chineses acesso a tratamentos avançados de câncer e biológicos dos EUA, onde o país ainda domina. Também destruiria uma fonte de receita lucrativa, enquanto clientes globais buscariam alternativas.
Um relatório recente da US Pharmacopeia, órgão de normas do setor, descobriu que quase 700 medicamentos dos EUA são fabricados usando pelo menos um IFA proveniente exclusivamente da China. A síntese de amoxicilina, por exemplo, um dos antibióticos mais usados nos EUA, depende de quatro materiais, todos produzidos quase que inteiramente na China.
Embora as tarifas de Trump possam persuadir grandes empresas farmacêuticas a construir instalações para garantir a cadeia de suprimentos de seus produtos mais vendidos, isso não acontecerá com os genéricos, onde a China domina. O controle de Pequim representa a maior ameaça aos genéricos baratos e amplamente usados nos EUA, que representam cerca de 90% dos medicamentos prescritos no país.
A fabricação de IFAs também é altamente poluente e, dado que o setor tem margens muito pequenas, faz pouco sentido relocalizar esse tipo de produção para locais com regulamentações ambientais rigorosas.
Ainda assim, a consciência sobre vulnerabilidades comerciais vem aumentando em alguns países, com sucesso misto na abordagem do problema.
Para os EUA e outros países, medir a dependência da China é notoriamente difícil porque a cadeia de suprimentos é opaca. Grande parte dos genéricos finalizados americanos chega da Índia, que obtém a maioria de seus ingredientes da China.
A US Pharmacopeia estimou anteriormente, em abril, que a China contribuiu diretamente com 8% do volume de APIs prescritos nos EUA em 2024. Esse número sobe para cerca de 25% se parâmetros mais amplos forem considerados, segundo Marta Wosinska, pesquisadora sênior do Brookings Institution.
No comércio, o segredo é identificar, e explorar estrategicamente, as vulnerabilidades do outro lado.
“Negociadores vão à mesa com cartas na manga — tanto coisas a oferecer quanto outros pontos de alavancagem para ameaçar ou apenas como um lembrete sutil”, disse Wendy Cutler, vice-presidente sênior do Asia Society Policy Institute e veterana negociadora comercial dos EUA. “Negociadores chineses conhecem bem outros gargalos que dominam, como o setor farmacêutico.”
O governo Trump precisa reduzir as vulnerabilidades dos EUA, disse Cutler, mesmo que Pequim não pareça agir tão cedo.
Fonte: Valor Econômico